[Review] Peter Parker: The Spectacular Spider-Man #1, de Zdarsky, Kubert e Bellaire

Há tempos as histórias do título principal do Homem-Aranha na Marvel não se comunicam tão fortemente com a ala mais tradicionalista de fãs do personagem. Nos últimos anos, Peter Parker passou por maus bocados, foi substituído temporariamente por um de seus maiores adversários, aprendeu que poderia ser um Aranha melhor e, mal ou bem, evoluiu do rapaz confuso com problemas financeiros e questionamentos para um homem adulto com outros tipos de preocupações e desafios. Independente da qualidade das histórias do inescapável Dan Slott em Amazing Spider-Man, o fato é que Parker se tornou algo um pouco além do Aranha tido por grande parte do público como o principalíssimo.

Aproveitando todo o frisson gerado pelo lançamento do longa metragem Spider-Man: Homecoming, a Marvel resolveu resgatar a tal essência marota e casual do Amigão da Vizinhança em uma nova publicação do personagem intitulada Peter Parker: The Spectacular Spider-Man. Para tanto a editora escalou um dos roteiristas mais brilhantemente insanos da atualidade, o autor de Howard the DuckChip Zdarsky. Apoiado pelo trabalho gráfico do veterano Adam Kubert e com cores da premiadíssima Jordie Bellaire, temos nesta primeira edição uma proposta de histórias mais descompromissadas do personagem.

A premissa de roteiro de Spectacular é bastante relacionável e simples: Peter Parker está um pouco cansado de tramas em escala global e de suas responsabilidades na Parker Industries e resolve retornar a sua velha forma de vigilante urbano em Nova York, para relaxar (quem nunca?). Na revista, vemos sua interação com um de seus melhores amigos, Johnny Storm, o Tocha Humana, além de um novo interesse romântico, na forma da comediante Rebecca London, e o início de um pequeno mistério tecnológico.

O roteiro de Zdarsky é bastante bem humorado, pontuado com intervenções cômicas, em caixas de texto feitas pelo próprio autor naquele molde editorial tradicional, e situações com diálogos leves e despojados entre os personagens. A revista conta com alguns convidados ilustres, como o menino prodígio da Parker Industries, Uatu Jackson, Hophni Mason, o irmão do Consertador, além de Sam Wilson como o Capitão América e Scott Lang, o Homem Formiga. O ritmo de Spectacular Spider-Man é bastante fluido. Há certa dose de ação e não há necessidade de contextualização com nenhuma outra publicação aracnídea ou com o universo Marvel atual. No final, no entanto, temos um gancho muito interessante deixado pelo roteirista que vale a pena ser conferido pelos fãs do personagem. Algo realmente bem grande e que, caso seja verdade, muda a vida de Peter Parker completamente daqui para frente.

A revista atende por completo a proposta de oferecer um ambiente mais leve para leitores e fãs do cabeça de teia, além de trazer o herói de volta a sua cidade natal em oposição às histórias mas globalizadas de Amazing Spider-Man. No entanto, para quem acompanha a história do Aranha nos últimos anos dentro da Marvel, a sensação de retrocesso em termos de premissa fica evidente. Segundo a orientação editorial vigente na Marvel, o Aranha de Nova York é Miles Morales. Portanto, por mais que a execução aqui seja bem feita e torne a leitura divertida, a ideia de trazer Parker, agora um rico empresário de meia-idade e membro dos Vingadores, de volta a Nova York para salvar a população de batedores de carteira acaba soando um pouco forçada e demagoga por parte da editora. Logicamente, leitores que se contentam com um Parker eternamente jovem patrulhando as ruas da cidade não irão se incomodar nem um pouco com o retorno a esse status.

A parte da apresentação visual em Spectacular Spider-Man #1 tem a consistência que se espera de talentos como Adam Kubert e Jordie Bellaire. O traço do ilustrador não mudou muito durante seus anos de ofício. Desta maneira ,temos seu traçado meio rústico e rascunhado permeando todas as páginas da revista, uma atenção às expressões faciais, enquadramento sóbrio e sem inovações e uma caracterização que não tem nenhum destaque, mas também não compromete a leitura. Um trabalho gráfico honesto, porém sem nenhum destaque ou brilho.

Para um fã de longa data do Homem-Aranha é bem difícil não se divertir lendo uma história simples, bem humorada e bem executada do personagem em sua cidade natal, sem amarras muito restritas à cronologia da Marvel atual. Spectacular Spider-Man tem um público alvo certo: o leitor cansado das reviravoltas esdrúxulas do título principal do Aranha. Nisso, a revista é bastante eficiente. Contudo, para quem está meio cansado do Parker no mesmo molde desde praticamente a década de 1990 (talvez existam leitores assim), mesmo com um roteiro interessante, leve e divertido, com uma arte que atende às propostas narrativas, o título pode dar a impressão de involução na vida de um personagem que, mal ou bem, cresceu e se tornou algo além do Amigão da Vizinhança dentro da editora.

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