Necessaire: A coragem de se reinventar – Parte 1

Olá, Zeronautas, tudo bem com vocês?

Neste texto em duas partes, em uma parceria minha com o Igor Tavares, vamos falar de algumas editoras em quadrinhos que se viram na necessidade de mudar, e souberam fazer isto de forma bem sucedida.

Os exemplos escolhidos por mim, são os de duas editoras que são símbolos de tradição em seus países e de histórias para o público infantil. Apesar de muitos terem crescido com elas, até pouco tempo, não tínhamos visto seus personagens crescerem.

Estamos falando da Mauricio de Sousa Produções, com a tradicional Turma da Mônica, e Archie Comics, que além das histórias do ruivo, tem as histórias da Sabrina, a bruxinha adolescente, e Josie e as Gatinhas.

Apesar de ambas as editoras terem, ao longo dos anos, acrescentado novos personagens que abraçam a diversidade — especialmente a Archie Comics –, ambas seguiam o modelo de histórias antológicas, no qual em cada revista se contava histórias curtas, que eram resolvidas na própria edição,  sem consequências para as edições futuras.

Então, por anos, vimos as diversas variações dos planos do Cebolinha falhando, e da dúvida do Archie sobre quem namorar, em histórias leves e divertidas, que todos poderiam ler, mas que nem todos continuavam a ler.

Em 2008, a MSP lançou uma nova linha de revistas, a Turma da Mônica Jovem. Em um formato que lembra os dos mangás, a revista tem os personagens da turminha, não mais com 7 anos, mas com 16, e eles enfrentam batalhas fictícias e fantasiosas, mas também os dilemas desta idade.

Apesar de não terem perdido sua essência, os personagens mudaram. Agora adolescentes, a Mônica emagreceu e se tornou mais vaidosa, Magali escolhe alimentos saudáveis, Cascão é um geek e Cebola não quer mais ser o dono da rua, mas mudar o mundo. Assim, apesar dos quatro continuarem amigos, os relacionamentos mudaram de cores, as conversas são outras e, também, outros personagens ganharam destaque e relevância.

O formato das histórias também mudou: não eram mais antologias e, sim, histórias serializadas. É uma grande história que é dividida em partes. Asim, as edições são canônicas.

Apesar do choque dos leitores antigos, a TMJ soube ler o público-alvo e criar histórias com que eles pudessem se relacionar e se envolver. E assim, virou um dos maiores sucessos da editora, que não abandonou a turminha, mas olhou pra frente, e fez uma linha onde seus personagens seguiram em frente.

Já a Archie Comics, lá nos Estados Unidos, foi ainda mais ousada. A editora, havia algum tempo, tinha mostrado sinais de mudanças, com personagens LGBT, deficientes e casais inter-raciais. Em 2013, a editora lançou uma revista em uma linha de tempo alternativa: Afterlife with Archie (um trocadilho com um título-ícone da editora, Life with Archie), onde os personagens deste Archieverso vivem num mundo de apocalipse zumbi. Com um tom mais adulto e voltado para o terror, escrita por Roberto Aguirre-Sacasa, Afterlife deu uma nova roupagem aos personagens.

E então em 2015, como consequências das mudanças já feitas pela editora, vem sua estratégia mais radical: o reboot.

Após 73 anos de cronologia, as histórias clássicas seriam finalizadas para que se desse inicio a uma nova era de quadrinhos. Relançando os quadrinhos da Archie, as histórias mantiveram a essência dos personagens. Archie é atrapalhado; Jughead, sarcástico e comilão; Veronica, rica, mimada e geniosa; e Betty, a garota legal que mora logo ali. Porém, agora eles são muito mais. Escritos por Mark Waid, os personagens são mais tridimensionais do que antes. O famoso triângulo amoroso não é mais tão fútil e raso, com Archie tendo escolhido uma delas pra namorar, mas tendo uma amizade real e sincera com a outra, e sendo os 3 verdadeiros amigos. As edições também não são antológicas: apesar de ser dividida em arcos, formam uma história contínua.

Não mudando apenas a turminha clássica, a Archie também fez o reboot de Josie e as Gatinhas, dando camadas para as protagonistas, fazendo elas enfrentarem os desafios da vida adulta, enquanto buscam se conhecer como indivíduos e constroem uma amizade. A editora também lançou a HQ do Jughead, que também sofreu reboot, porém com a linha do tempo de sua HQ diferente das outras da linha. Como Archie e Reggie and Me, o quadrinho de Jughead assume um ar de comédia e antologias. Nesta nova linha, a editora também lançou a minissérie Betty e Veronica, onde elas se mostram muito mais do que as pretendentes do Archie Andrews, além de minisséries que exploram outros personagens, como o Moose.

Turma da Mônica e Archie são títulos que têm personagens muito enraizados no imaginário popular em seus países, e que tiveram coragem para se reinventar e fazer seus personagens seguirem em frente, buscando acompanhar as mudanças do mundo. Mas não basta coragem para mudar: ambas as editoras tiveram competência. Uma coisa é zerar a linha e lançar histórias novas, outra é zerar a linha e lançar histórias novas que o público queira ler, que entenda o que os leitores procuram, que se identifiquem e se relacionem com as histórias e personagens.

Mas continuamos este papo na segunda parte, Zeronautas!

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