[Review] Secret Empire #3, de Spencer, Sorrentino e Reis

Toda a polêmica acerca de Secret Empire parece ter esfriado a esta altura do campeonato, restando somente uma nuvem de desdém para com a história de Nick Spencer por boa parte dos leitores. Por um lado, isto diminui o interesse do público geral pela saga da Marvel. Por outro, permite a quem está de fato acompanhando a história o foco na narrativa, sem ruídos ufanistas e hipérboles midiáticas.

Na terceira edição de Secret Empire, portanto, é iniciada de fato a corrida pelos fragmentos do Cubo Cósmico remanescentes — os MacGuffins criados pelo autor para impulsionar duas forças antagônicas da história. Tanto o núcleo narrativo composto pelo Capitão América e as forças da Hydra, quanto a força tarefa composta por Tony StarkHárpiaHérculesScott Lang, o Homem-Formiga Mercúrio se veem em busca dos fragmentos, pois sabem que quem controla o Cubo, teoricamente, controla o roteiro de Spencer. Estas duas sessões da revista são as mais movimentadas, mostrando os esforços de um impiedoso Steve Rogers para alcançar seus objetivos, enquanto a equipe clandestina de Stark faz de tudo para obter ajuda de um desiludido Sam Wilson.

Correndo por fora, temos a luta desesperada da nova Tropa AlfaSupremos e dos Guardiões da Galáxia (todo liderados pela Capitã Marvel) para conter as incessantes hordas Chitauri em órbita terrestre. Este elenco, que se encontra isolado do planeta por um campo de força, tem ainda pouca expressividade no contexto geral da história.

Finalmente, vemos o início dos planos da Viúva Negra ao treinar os jovens heróis de legado para de fato “resolver” o problema do Capitão Hydra. Talvez estas cenas tenham os melhores diálogos, principalmente por colocar Natasha Romanoff em contraste com figuras como Maria HillFred Meyers — o Boomerangue — e a equipe dos novos Campeões. Nesses diálogos, Spencer faz um contraste interessante entre motivações e personalidade da Viúva Negra, mostrando porque ela é única no Universo Marvel.

Assim como na edição anterior, destacado da história principal, temos as cenas mostrando um Steve Rogers diferente em um mundo de sonhos acompanhado de uma moça ferida. Spencer dá algumas dicas, mas, resgatando seus tempos de Morning Glories, mantém um grande suspense quanto a estas passagens. Todavia, não é difícil para um leitor que conhece o editorial da Marvel tirar suas próprias conclusões sobre estas cenas que, com absolutta certeza, pavimentarão o caminho para o retorno de um Capitão mais “normal” à continuidade da editora.

No geral, a alternância de uma grande quantidade de núcleos narrativos tem sido, até o momento, balanceada pelo autor, e sentimos fluidez no roteiro da saga. Apesar de termos uma capa dando total destaque à equipe que está no espaço, a participação de Danvers e Cia. nesta trama ainda não é impactante. O foco da história se torna a busca pelos fragmentos do Cubo. Spencer, na terceira edição, segura um pouco a mão nas alegorias políticas, deixando somente uma fala específica de Sam Wilson à cargo desta tarefa de “jogar as verdades na cara do leitor”. A história é priorizada e isso é benéfico. Ao final, temos a introdução de um importante (e detestado) Vingador em um estado mental aparentemente desequilibrado. Isto deixa um gancho imprevisível e interessante para a quarta edição de Secret Empire.

O trabalho de arte, tanto de Rod Reis quanto de Andrea Sorrentino nesta edição, merece reverência, não só por transmitir de forma clara e impactante a ideia de Spencer, mas também por impor uma estética própria à uma saga, que poderia facilmente cair na padronização de produtos semelhantes na Marvel. Tanto Reis quanto Sorrentino não se dobram e produzem páginas com suas marcas registradas na terceira edição de Secret Empire. Reis explora muito bem a palheta de cores serenas em sua participação, e entrega expressões faciais convincentes e emocionadas. Enquanto isso, Sorrentino se delicia com todo o elenco que lhe é atribuído. Seja nas cenas na Atlântida, na nova Sala Vermelha ou em Montana, o ilustrador dá um jeito de deixar sua marca com diagramação imponente e criativa, fotografia inovadora e caracterização diferenciada.

Secret Empire #3 tem problemas conceituais? Sim. Principalmente a questão dos Campeões aliados à Viúva Negra, além do já muito debatido vilão da história. Além disso, a enorme quantidade de personagens na história pode se tornar problemática rapidamente. Isso prejudica a leitura? Somente se o leitor for muito apegado, principalmente, à figura do Capitão América. Fora isso, temos uma história de espionagem super-heroica que caminha a passos largos para se tornar uma das melhores sagas da Marvel nos últimos anos. Com um roteiro movimentadíssimo, apresentação caprichada e única, e um elenco que, apesar de numeroso, consegue deixar sua marca, a minissérie de Spencer vem combatendo todo o ódio dos leitores com boas ideias, ótimos diálogos e execução precisa a cada edição.

  • Cristiano Nobre

    Parabéns pela resenha. As pessoas tem que ler as coisas e apreciar a obra em questão, se for ruim se desse o sarrafo mas o que vejo são pessoas que só sabem reclamar não importa o status dos personagens.

  • sergio reis

    A despeito da esmeirada resenha do igor…uma questão se impõem!uma ideia de merda pode ser bem desenvolvida?

  • Douglas Felix

    Pareceu pra mim que essas inserções do Capitão “bonzinho” foram colocadas de última hora pra poder segurar a fúria dos fãs. As vezes tenho a impressão que a história seria outra, que é a desenhada pelo Sorrentino, e com todo aquele burburinho o roteirista teve que adaptar e criar novas cenas, essas do Cap perdido tentando se encontrar. Mais alguém sentiu isso?

    • Igor Tavares

      Sim Douglas. Apesar do ótimo trabalho do Rod Reis estou sentindo que essas cenas foram inseridas depois da má aceitação da premissa. Essas pra´ticas de mudanças de última hora são meio que corriqueiras na Marvel né

      • Douglas Felix

        Exatamente! Mas eu aplaudo porque foi muito bem encaixado…rs… embora não tenha respondido as artes do Cap segurando o Martelo, que tava prometido pra edição número 2, e não saiu, por exemplo.

        Mas quem pegar a revista sem ter lido sobre toda essa treta não vai ter essa impressão de mudanças de última hora.