[Review] Dark Days: The Forge, de Snyder, Tynion IV, Kubert, Lee e Romita Jr.

É inegável que, a esta altura, qualquer leitor DC, que acompanha as publicações principais do Batman nos últimos cinco a dez anos, tem uma opinião formada sobre o trabalho de Scott Snyder com este personagem. Após um longo período dando o tom das aventuras do Cavaleiro das Trevas, o autor foi desviado para um outro projeto (ainda com o protetor de Gotham chamado All-Star Batman) onde, teoricamente, teria um pouco mais de liberdade para contar suas histórias. No entanto, no caso de Snyder, você pode até tirar o homem do Batman, mas não há maneira de tirar o Batman do homem. É o que vemos logo na capa de Dark Days: The Forge, prólogo do novo evento da DC Comics chamado Dark Nights: Metal, a ser publicado ainda neste mês de junho.

The Forge inicia uma história de mistério com escopo multiversal, que gira em torno de dois personagens, sendo que o primeiro, logicamente, é o Batman. Aparentemente (e para surpresa de praticamente nenhum leitor), o Cavaleiro das Trevas esconde um segredo muito antigo de todos os seus aliados mais próximos: uma longa e complexa investigação sobre um misterioso metal chamado dionisium, que remonta aos primórdios da história da civilização e abrange não só o universo DC onde se passam as histórias atuais da linha Rebirth, mas, sim, todo o Multiverso da editora. Para esta empreitada o maior detetive da DC , ao longo de alguns anos, reuniu evidências na forma de artefatos metálicos bem conhecidos dos leitores da editora, formou sua própria equipe de Renegados para auxiliá-lo na investigação e aprisionou alguns personagens que muitos leitores consideravam esquecidos pela editora. O segundo personagem é ninguém menos que Carter Hall, o Gavião Negro da era de ouro. Através do diário do Gavião, que conta passagens desde sua origem até suas interações com o misterioso metal, o autor contextualiza o escopo imenso da sua proposta para Dark Days.

Como é de se esperar em um prólogo de uma trama de investigação com um escopo tão vasto, Snyder dá pequenas pistas através de aparições rápidas de personagens há algum tempo deixados na geladeira. É o caso da formação da equipe de Renegados do Batman, entre alguns outros. Nestas cenas o autor se vale muito da memória afetiva do leitor para causar impacto saudosista. Momentos do tipo “Olha! O [SPOILER] ali!” causam, sim, o frisson esperado. No entanto isso vale quase que exclusivamente para leitores com certo grau de conhecimento do DCU (especificamente pré-Novos 52).

De qualquer maneira, como prólogo, o roteiro consegue atingir o propósito básico de instigar e apresentar uma premissa de mistério, plausível até certo ponto, tudo se valendo de um ritmo narrativo bastante dinâmico para os padrões Snyder nos últimos anos.

Alguns leitores podem se queixar de excesso de Batman em Dark Days. Para quem não gosta do personagem (sim, existem essas pessoas) ou está meio que saturado, é bom deixar claro que a história gira quase que 90% em torno das paranoias e planos mirabolantes do Homem-Morcego. Caso você seja fã do Cavaleiro das Trevas e, principalmente, fã de suas interações com o DCU, The Forge será uma leitura bastante empolgante em termos de roteiro.

A arte em The Forge é dividida entre três veteranos dos quadrinhos de super-heróis: Jim Lee, Andy Kubert e John Romita Jr. Dentro de seus respectivos estilos, os três ilustradores apresentam basicamente o que têm feito em termos de caracterização, design e fotografia em suas carreiras nos últimos dez anos. Ou seja, não se iluda com os nomes na capa, pois os três artistas já passaram há algum tempo de seu auge como profissionais. Atualmente, tanto Lee quanto Andy ou Romitinha fazem o seu feijão com arroz super-heroico. É bem feito e podem ocasionalmente acertar em cheio a mão em um quadro ou outro, mas, no geral, a apresentação em The Forge é bem irregular na totalidade de suas passagens.

Há um certo senso misto de urgência e saudosismo em Dark Days: The Forge que remonta bastante às sagas da DC pré-Novos 52. Essa aura, que foi resgatada desde a já histórica edição única que introduziu a linha Rebirth, carrega este prólogo inteiro nas costas. Isso pode nos fazer ignorar uma ideia já meio batida e usada inúmeras vezes na editora, que aqui é esfregada na cara do leitor: o Batman sempre está oito ou nove passos a frente de todo mundo e o resto do universo DC só vai descobrir isso quando a coisa já está prestes a ser deflagrada. Scott Snyder cria uma bela de uma cortina de fumaça através de saudosismo, referências e até apela para o uso da palavra “Crise” para disfarçar a ideia de seu Batman centralizador e protagonista em uma saga multiversal. Isso não é novo, você sabe disso, mas vai comprar a ideia porque o ritmo é envolvente e o mistério é, sim, interessante.

A apresentação nesta edição é mais uma questão de colocar grandes nomes na capa do que algo propriamente brilhante. Lee e companhia fazem um trabalho de razoável a mediano e, em algumas passagens, um leitor mais criterioso pode imaginar como o quadrinho ficaria melhor na mão de um ilustrador com mais sangue nos olhos.

The Forge, de fato, cumpre seu papel como prólogo e abre caminho para um evento que, se dirigido de forma coerente, tiver uma arte consistente e talvez descentralizar um pouco sua premissa do Batman, pode gerar ótimos frutos e abrir caminho para uma nova gama de boas histórias neste universo.

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