Pôster internacional de Mulher-Maravilha

Mulher-Maravilha, identidade do DCEU e o Superman de Donner

Foi um deleite assistir à Mulher-Maravilha nos cinemas. Fui duas vezes seguidas; uma na pré-estreia, sozinho, e outra na estreia, acompanhado da Sra. M. Por mais empolgante que o filme seja e por mais que tenha me divertido vendo as reações das pessoas, maravilhadas (com o perdão do trocadilho) com os momentos mais incríveis do longa, o fanboy do Homem de Aço que existe dentro de mim também foi agraciado.

Percebam que isso não será uma crítica do filme; um texto muito eloquente do Pab foi publicado semana passada e já temos um podcast no forno para sair. Portanto, quero aproveitar para comentar outros aspectos da obra, que envolvem construção de identidade e (por que não?) legado.

Gal Gadot, Patty Jenkins e a eterna Lynda Carter na premiere de Mulher-Maravilha.
Gal Gadot, Patty Jenkins e a eterna Lynda Carter na première de Mulher-Maravilha.

Ver uma abertura do DC Extended Universe foi uma surpresa. Observando a identidade visual que a Marvel construiu para as aberturas de seus filmes (sejam eles produzidos pela própria Marvel Studios ou por outros estúdio), a Warner, principalmente depois que Geoff Johns e Jon Berg assumiram a produção geral do DCEU, passou, a partir deste filme da Mulher-Maravilha, a valorizar suas propriedades.

Mais interessante que isso, a abertura respeita duas tradições: destacar os Sete Grandes (sem esquecer todo o rol de grandes ícones da DC) e criar uma espécie de legado partindo da abertura do antológico desenho animado Liga da Justiça Sem Limites. Ah, sim, e o Lanterna Verde recebe o mesmo destaque que os outros seis da Liga nesta nova abertura. Será que ele vai aparecer nos cinemas mais cedo do que imaginávamos?

Esse tipo de coisa faz quem é fã sentir-se em casa e realizado. Eu fiquei bastante empolgado, não só pelas referências, mas também por perceber que a Warner está correndo atrás — uma boa introdução faz toda a diferença e a concorrência sabe disso faz tempo. Para o público que não é ligado nesse universo, é uma forma de começar a gravar estas imagens e nomes nas mentes deles, criando fidelidade e estabelecendo as marcas.

Então, vem o filme. Não há segredos: é uma história de origem. Como tal, ela tem a transformação de Diana em Mulher-Maravilha em uma das cenas que certamente entrará para o rol de momentos mais incríveis dos super-heróis nos cinemas de todos os tempos. Estruturalmente, é um filme bem parecido com outros do gênero. Contudo, ele traz o mesmo sabor de heroísmo e credibilidade que o primeiro Superman, dirigido por Richard Donner (1978), trouxe.

Pôster promocional de "Superman - O Filme". Cŕeditos: Warner Bros.
Pôster promocional de “Superman – O Filme”. Cŕeditos: Warner Bros.

Não me entendam mal, não estou diminuindo nenhum outro filme de super-herói para favorecer esses dois — na verdade, no topo da minha lista estão O Cavaleiro das Trevas (2008) e Logan (2017), por elevarem o gênero, quebrarem barreiras, serem crus e verossímeis e muitos outros fatores. Contudo, não dá para negar: Mulher-Maravilha é o melhor filme da DC, provavelmente, desde o mesmo 2008 do filme de Nolan. Isso já faz quase dez anos. É um feito e tanto.

Se pensarmos bem, ele é o filme de super-heróis mais esperançoso da DC desde o primeiro Superman. É impressionante! Não apenas como o tempo passou mas, também, como ficou claro que é, sim, possível de se fazer um filme nestes moldes nos tempos cínicos e sombrios em que vivemos. Mulher-Maravilha pisa em cima de quem fala que filmes de quadrinhos devem ser realistas e trágicos. Curiosamente, esse sentimento que o filme passa está nas revistas da DC desde que o Renascimento foi estabelecido ano passado, algo que também se vê na série da Supergirl e outros produtos mais recentes da DC/Warner. As coisas estão mais sintonizadas agora e devemos esperar isso de futuras produções transmídia.

Falando em Superman, o filme da Amazona tem algumas boas referências a ele, sendo a mais óbvia a cena do beco, em que Diana impede Steve Trevor de ser baleado e enche os espiões alemães de porrada, saindo de lá ilesa com seus aliados. No primeiro longa do Homem de Aço, aquele mesmo beco serviu para Clark fingir-se de baleado após o tiro de um assaltante e não revelar seus poderes ao mundo tão cedo.

Mulher-Maravilha e Superman, o Filme têm semelhanças até no momento em que o herói se revela para o mundo, praticando atos heroicos em momentos épicos ou pequenos (que valem muito). Querem algo mais emocionante que as pessoas do vilarejo cumprimentando sua salvadora, que se posta como uma igual? É a criação do mito. Mulher-Maravilha é o legado do Superman de Donner, o mito dos novos tempos. É o conceito de legado, um dos pilares da DC, posto em ação com maestria.

Vale comentar que uma sequência de acertos como essa é raríssima e, novamente, o primeiro Superman de Richard Donner vem à tona. Nos anos 1970, o lendário Mario Puzo escreveu um roteiro baseado em tudo que ele aprendeu sobre o personagem conversando com o pessoal da DC, em especial com o mítico quadrinista Elliot S. Maggin (o criador da Segunda-Feira Milagrosa e de inúmeras histórias imortais do Homem de Aço).

O projeto passava uma mensagem tão bela e era tão conciso que provocou uma efeito dominó entre todos os envolvidos; todos compraram a ideia do Superman e cada um deu o melhor de si para a roda girar na velocidade adequada.

Quarenta anos depois, isso aconteceu de novo. E desta vez eu pude ver nos cinemas, não na reprise da Sessão da Tarde. Vejam também. Todos vocês. O máximo que puderem. Sabe por quê?

Porque Gal Gadot está para a Mulher-Maravilha como Christopher Reeve está para o Superman. Patty Jenkins, que no passado dirigiu o poderoso Monster (2003), mergulhou na ideia e fez todo mundo que trabalhou com ela no projeto seguir o mesmo caminho. Ewen Bremmer, Robin Wright e Elena Anaya estão tão imersos em seus papéis como Gadot, Chris Pine e os produtores. Não é à toa que Geoff Johns, que supervisionou boa parte das filmagens, disse em seu Twitter que ver Jenkins trabalhando era como ver seu ex-patrão Richard Donner em ação.

Pense bem: tivemos Zack Snyder criando uma acertada história na Primeira Guerra Mundial, Allan Heinberg desenvolvendo um roteiro em cima disso que mostrou os melhores momentos da jovem Diana/Mulher-Maravilha e os horrores da Primeira Guerra Mundial, atores dando a alma por seus papéis e um comando de altíssima qualidade de Patty Jenkins, fora os toques decenautas colocados no longa na forma de easter eggs ou pequenas frases que certamente vieram das mãos de Geoff Johns.

Geoff Johns e Richard Donner na premiere de Mulher-Maravilha.
Geoff Johns e Richard Donner na premiere de Mulher-Maravilha.

A convergência de boas ideias e comprometimento da equipe, somados ao respeito ao material original e a vontade de criar um produto acessível para todos os público foi o que fez a diferença. Mulher-Maravilha é um filme de guerra, de conflitos que exigem o sacrifício do espírito, mas também é um filme de esperança, de vontade e vitórias.

Para finalizar, vale notar outra escolha do longa que tem muita relação com o primeiro Superman: o formato. Ambos têm cara de contos de fadas, cada um ao seu estilo. Mulher-Maravilha é um pouco mais descarado, pois conta a história romantizada de uma batalha sem igual para um colega da narradora/protagonista: o Batman.

Agora é só curtir o que vier deste filme (uma sequência com certeza será agendada em breve) e torcer para a Liga da Justiça, cujo filme sai em novembro, tenha o mesmo efeito.

Mulher Maravilha. Terra Um – Volume 1