James Robinson e Mulher-Maravilha: Entendendo a volta do autor à DC

James Robinson está de volta à DC, a casa que lhe abrigou no começo de tudo e onde ele produziu alguns de seus maiores trabalhos (sim, estou falando de Starman, A Era de Ouro e Terra-2). Lembro-me como se fosse ontem de toda a polêmica envolvendo o autor e alguns leitores brasileiros quando foi revelado que Alan Scott, um velho Lanterna Verde em sua nova versão para a Terra-2 dos Novos 52, era gay. Aquilo foi um caos.

Contudo, nenhum ódio que o autor enfrentou lhe fez sair da DC em 2013; ao contrário, foi a própria editora, que estava, por baixo dos panos, procurando outro escritor para assumir um novo título do universo que Robinson planejou, criou e pôs em prática, mostrando que era possível revolucionar velhos conceitos e criar coisas inéditas com eles. Aquilo doeu para ele. O fez cair nas graças da concorrência, onde esteve na maior parte do tempo, nos últimos anos. Mas, agora, ele está de volta.

Se tudo isso está parecendo um pouco corrido, Zeronauta, vamos explicar brevemente por que James Robinson é importante e como ele conseguiu isso.

Arte de Starman, a maior criação de James Robinson, produzida por Tony Harris.
Arte de Starman, a maior criação de James Robinson, produzida por Tony Harris.

James Robinson é inglês e escreveu na DC durante uns bons anos desde 1992, passando por alguns  projetos até 1994, quando ele criou Starman. Contando a história do personagem de legado Jack Knight, o novo Starman, até 2001, Robinson levou seu nome ao mais alto posto dos quadrinhos na época por oferecer, justamente, o que os quadrinhos de super-heróis das majors na época não tinham mais: personagens com sentimentos e conflitos puramente humanos, com pitadas autobiográficas e aventuras que tinham significado – não apenas para o universo ficcional, mas também para os leitores.

Foi neste trabalho que ele mostrou sua habilidade em encontrar humanidade e profundidade em quaisquer super-heróis. Ele trouxe esperança quando os quadrinhos da Marvel e da DC pregavam uma quase autodestruição, tamanho o cinismo dos personagens. Não deixem de ouvir nosso ComicPod sobre Starman para saber mais sobre isso. Ouçam também o programa superespecial que fizemos sobre outra obra dele, A Era de Ouro, praticamente um Watchmen (em termos de repercussão para a indústria, utilização e transformação da mídia) com os antigos heróis da DC.

O Superman de James Robinson com arte dos brasileiros Renato Guedes e José Wilson Magalhães.
O Superman de James Robinson com arte dos brasileiros Renato Guedes e José Wilson Magalhães.

Após o estrondoso sucesso crítico de Starman e justamente por seu trabalho com os heróis mais clássicos da DC em A Era de Ouro, Robinson ajudou David S. Goyer (ele mesmo!) e um então novato Geoff Johns a recriar e restabelecer a Sociedade da Justiça da América, o que o trio fez com maestria (um dia ainda falaremos disso). Robinson foi um professor importante para Johns no que diz respeito a lidar com personagens de legado, enriquecendo seus passados e deixando seus futuros brilhantes. Isso foi posto à prova novamente no fim da década passada, quando o inglês assumiu títulos do Superman e da Liga da Justiça em momentos extremamente delicados.

O Superman passava por um dos melhores períodos que já teve na modernidade, graças ao esforço descomunal de Geoff Johns e Kurt Busiek em criar roteiros relevantes para o leitor atual com aquela pitada fantástica de saudosismo e nostalgia. São caras que conseguem contar uma história com um passado muito rico e detalhado sem obrigar o leitor a correr atrás disso para entender tudo. Robinson faz parte desse time também, mas não segurou a peteca muito bem. Principalmente na Liga, mas não totalmente por culpa dele — o editorial não ajudava e a formação da época era extremamente limitada (clique neste link para vê-la), obrigando o autor a produzir um dos piores e mais vergonhosos quadrinhos que a DC já publicou:

Cry for Justice foi um dos piores quadrinhos da história da DC, com desrespeito aos personagens, aos leitores e uma história sem pé nem cabeça cheia de violência gratuita.
Cry for Justice foi um dos piores quadrinhos da história da DC, com desrespeito aos personagens, aos leitores e uma história sem pé nem cabeça cheia de violência gratuita.

Quem leu, sabe.

A coisa deu tão errado que Robinson se afastou da DC, mas voltou com tudo após a instituição dos Novos 52 em 2012 com dois títulos matadores: Shade, que expandia o universo de Starman, e Terra-2, algo 100% novo, que recontava a origem da Sociedade da Justiça de uma forma nunca imaginada. Foi, como disse no começo, a mudança que a DC estava começando a fazer por baixo dos panos na Terra-2 (e talvez um pouco da má receptividade com as mudanças de Alan Scott) que fez Robinson deixar a casa de uma vez. Aquilo foi uma afronta. Mas agora ele está de volta e isso não deveria ser surpresa. Por quê?

Porque a nova DC, na gestão Diane Nelson, com a ajuda principalmente de Geoff Johns, está fazendo o possível para reatar laços com grandes talentos, reconhecendo seu trabalho, pedindo desculpas e oferecendo novas oportunidades. Muita gente que saiu da DC bem mordida em algum momento nos últimos dez anos está voltando. Greg Rucka e Warren Ellis, até agora, são os maiores exemplos.

Também foi Johns que conseguiu também estabelecer a paz com Tony Isabella, criador de personagens menores, mas importantes, para o legado da editora. Ele vivia em pé de guerra contra a DC por direitos autorais há décadas.

Certamente foi Johns (um amigo, além de colega profissional) que fez, portanto, Robinson voltar. E ele trouxe a tiracolo Carlos Pagulyan e Emanuela Lupacchino para trabalhar na revista mensal da Mulher-Maravilha, um projeto inédito em sua carreira.

A Mulher-Maravilha de James Robinson.
A Mulher-Maravilha de James Robinson.

O trio começará seus trabalhos em setembro e eles durarão até dezembro. Robinson continuará de onde a revista parará no mês anterior, contando a intersecção entre Mulher-Maravilha e Jason (que talvez se chame Jasão no Brasil, o que faria sentido), o único homem nascido em Themyscira. Juntos, eles encararão uma ameaça cósmica ainda maior, no arco de histórias intitulado Children of the Gods.

Particularmente não estou muito feliz com isso, mas esta é uma opinião exclusiva minha. Não falo pelo Terra Zero. Por mais que seja empolgante ver Robinson de novo na DC, trabalhando com os personagens que ele mais ama, ainda acho estranho a DC investir em talentos masculinos para escreverem histórias da Mulher-Maravilha (ou de qualquer outra personagens feminina). Não que isso seja proibido. Nada disso. Eu sou mega fã do Robinson, tenho quadrinhos autografados por ele que guardo com extremo carinho.

O que questiono é a importância da personagem para o público feminino e a barreira que o filme dela, dirigido por uma mulher, está conseguindo quebrar. Greg Rucka estabeleceu essa revista de forma invejável no último ano e Robinson com certeza não vai ficar devendo. Contudo, parece que numa dessas é a DC que fica devendo para seus fãs. Suas fãs, aliás. Será que não era hora de fazer uma pesquisa extensa no mercado por talentos femininos, abrindo espaços e ousando um pouco mais, para fazer justiça a quem a Mulher-Maravilha é? Eu, pelo menos, acredito que sim.

E você, Zeronauta?

31 Comentários

Clique para comentar

dezessete + treze =

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com