Geoff Johns e Kevin Feige: A cisma só existe entre nós

No Brasil, polarizações políticas, religiosas e futebolísticas são mais antigas que a Lei de Gerson. Em tempos de internet a coisa fica ainda mais bisonha e isso se estende, é claro, à cultura pop. Não há fã da Marvel ou da DC que não tenha discutido com fãs do seu ‘rival’ por horas a fio. Eu mesmo, apesar de estar escrevendo esse texto (e acreditar muito nele) caio nessa às vezes e solto umas asneiras. Sobre as duas.

Em termos de cinema a coisa fica ainda pior, pois são centenas de milhares de pessoas que consomem esses produtos regularmente. E todo mundo se sente no direito de falar a respeito. O que não seria um problema se esse ‘falar a respeito’ não se resumisse, na maioria das vezes, a achismos sem cabimento que uma pessoa tenta enfiar goela abaixo em outra(s). Argumentação, empatia, entendimento e (principalmente) paciência não costuma fazer parte da vida dessas pessoas na maioria das vezes.

Foi com o Superman que tudo começou. Outra vez.
Foi com o Superman que tudo começou. Outra vez.

Então, surgem Geoff Johns e Kevin Feige para dar um choque de realidade na gente. Um, escritor premiado, provavelmente o principal da DC nos últimos 20 anos, ex-assistente de cinema e hoje comandante do DC Extended Universe; outro, o mastermind por trás do sucesso estrondoso da Marvel Studios nos últimos dez anos. Eles não têm em comum apenas a paixão por quadrinhos e uma trilha de sucessos com franquias das duas principais concorrentes norte-americanas de quadrinhos; os dois trabalharam para Richard Donner no começo de carreira.

Vocês sabem quem é este cara. Apesar de estar aposentado e já ter 87 anos, Donner está lúcido e bem. Esteve recentemente na première de Mulher-Maravilha com Johns, um eterno pupilo. Entre seus filmes mais famosos estão Máquina Mortífera, Goonies, A Profecia, A Morte Pede Carona e, claro, Superman e Superman II, sendo que a versão do diretor deste último filme só foi lançada em 2006. Sua esposa, Lauren Shuler Donner, produziu diversos filmes, dos quais, dentre os mais notáveis, estão os da franquia X-Men.

Então entram Johns e Feige. Johns revelou que conheceu Feige quando ambos eram assistentes da empresa de Donner. Ele era viciado em DC e trabalhou com o lendário diretor do Superman; o segundo, muito mais fã da Marvel, foi assistente de Lauren e acompanhou de perto a criação do universo dos X-Men. Segundo Johns, eles passaram a se encontrar ainda mais após sua mudança para Los Angeles e eles falavam de quadrinhos e adaptações cinematográficas o tempo todo.

Marido e mulher revolucionaram os super-heróis no cinema.
Marido e mulher revolucionaram os super-heróis no cinema.

A verdade é que, apesar de cada um ter sua preferência, ambos ficaram maravilhados quando viram o primeiro Superman, ainda crianças, nas salas de cinema. Em seguida, tiveram a chance de se maravilhar novamente, já adultos, com o lançamento do primeiro X-Men. Mesmo assim, os dois tinham talento suficiente para dar andamento aos seus próprios sonhos:

Quando Geoff chegou, ele sabia mais sobre o Superman do que eu. Eu sabia que iria longe pois, na primeira semana de trabalho, ele bateu meu carro novinho. Mas ele saiu de lá, abriu e camisa e estava com uma camiseta do Superman por baixo. —Richard Donner, em 2010, ao Newsarama.

Tenho certeza de que uma das principais razões pelas quais Kevin conseguiu o cargo que teve conosco foi Superman, O Filme. Tínhamos muitos estagiários, mas algo em Kevin me fez prestar atenção nele; ele era esperto, engenhoso e pró-ativo. Era decente, honesto e integridade, e isso disse muito sobre o caráter de Kevin para mim. Então o contratei como assistente.

Ele era uma enciclopédia da Marvel. Foi um dica do caminho que ele seguiria. Kathy Liska, minha assistente-executiva, lembra-se que Geoff Johns desenhava nos nossos cartões de aniversário para os funcionários da empresa. Foi assim que descobrimos seu lado de artista. — Lauren Shuler Donner, em 2010, ao Newsarama.

Como em 1938, tudo começou com o Superman. Se Geoff Johns e Kevin Feige estão na posição que alcançaram hoje, a fagulha disso tudo veio lá atrás, quando descobrimos que o homem podia voar. O que nos traz ao presente.

Johns e Feige estiveram em um documentário especial de 90 minutos do Samuel Goldwyn Theater dedicado à vida e obra de Richard Donner. Estavam lado a lado, sem rivalidades. E Feige disse:

Superman, O filme é, até hoje, o arquétipo perfeito de um filme de origens de super-heróis. Espero que vocês não lamentem o fato de que este filme inspirou todos os outros que estão aí.

Engraçado Feige falar sobre o “lamento” de Superman ser tão importante. Ele sabe, muito mais do que a gente, que o “haterismo” impera na internet e a guerrinha boba entre Marvel e DC nunca foi tão acirrada. Claro que a linha é tênue entre guerrinha e brincadeira com amigos (como eu encher o saco do Coveiro, do Marvel 616, que é um grande amigo, dizendo que os filmes dos X-Men são melhores que os da Marvel Studios, por exemplo). A outra são pessoas desconhecidas se matando nos comentários ou nas filas de eventos nerds.

Aqui no Terra Zero a gente vive uma cultura muito decenética. O site começou assim, afinal de contas, lá atrás, em 2008, com o nome de Multiverso DC. Vira e mexe a gente solta nos podcasts, que nada mais são que papos de bar, umas piadinhas sobre uma coisa ou outra, mas aos poucos a cultura tem mudado. Nós, da equipe antiga, lemos mais coisas da Marvel hoje do que líamos no passado; na equipe nova temos o Igor, que é marvete de carteirinha e pluraliza nosso conteúdo com toda a segurança. Eu convidei o Coveiro também pra escrever aqui de forma esporádica, mas ele é um folgado.

Marvel fans!
Marvel fans!

O que quero dizer é que isso é um processo. É um aprendizado. Devagar vamos equalizando as coisas. Só temos que aprender a reconhecer certas coisas deixando nossos gostos de lado. Por exemplo: a influência do primeiro Superman ou o sucesso comercial e de crítica dos filmes da Marvel. Você não precisa gostar de nada disso, basta reconhecer coisas que estão na sua cara. Aos poucos a guerra termina e o papo fica mais saudável.

Outro fato: a Marvel não tem clássicos no sentido de graphic novels ou minisséries (à parte ou não da cronologia) que influenciaram como a mídia seria feita no futuro. Por outro lado, ela precisa disso? Nunca precisou. Sua abordagem sempre foi outra, sua forma de se comunicar com seus leitores e contar suas histórias sempre diferiu da concorrente. Já a DC tem vários clássicos, mas muitos deles são focados no Batman e isso causa uma dependência horrível do personagem. O Superman tem bem menos clássicos que o Batman. A Mulher-Maravilha nunca teve um Cavaleiro das Trevas. Por outro lado, olhando para as duas como um todo, essa é graça: tem um pouco pra todo mundo.

Quer saber? Tamo junto!
Quer saber? Tamo junto!

Por fim, vale ver o vídeo com a homenagem a Donner, que agradeceu todas as pessoas que trabalharam com ele e declarou: “Eles mudaram minha vida; eu não mudei as vidas deles”.


PS: Faltou falar uma coisinha do Johns, então serei breve. Antes de ser badalado na DC, ele foi escritor da Marvel e trabalhou com ninguém menos que o Ivan Reis lá. Em 2010, no auge de sua carreira quadrinística e com a estrondosa saga O Dia Mais Claro vendendo como água lá fora, ele e Matt Fraction, que são amigos, brincaram no Twitter sobre como seria um crossover bacana entre Lanterna Verde e Homem de Ferro e criaram um argumento (brincalhão, claro) ao vivo para os fãs verem. Não é assim que as coisas deveriam ser?

(via CBM)

  • Ultra MULHÉMARAVILHISTA

    BOM TEXTO!
    CHUPA MARVEL!

    • REITER!
      #CHUPADC

      • Ultra MULHÉMARAVILHISTA

        AFE!
        LÁ VEM AQUELES LIXO DE LEITOR DO MDM CONTAMINAR ESSE DAITE DE GENTE DE BEM!

    • e não pessoas como vc que vejo a qual trouxa é depois de um belo texto desse

      • Ultra MULHÉMARAVILHISTA

        AFE! QUE GROSSA VC! VAMO NO CINEMA?!

  • Neo

    Belo texto.
    É claro que todos temos nossas preferências mas essa guerrinha boba é chata pra caramba, apesar da DC ser bem melhor haha . Há discussões saudáveis e brincadeiras sadias, mas há gente que leva muuuito a sério essas palhaçadas. Ambos reconhecem a influência do primeiro filme do Superman. A DC provavelmente não teria iniciado seu universo expandido a Marvel não tivesse iniciado o seu. Eu curtia muito o universo Marvel nos cinemas, mas quando soube que a DC estava iniciando o seu eu percebi que o que gosto mesmo é da DC, a ansiedade é bem maior, a paixão fala mais alto. Ambas tem suas qualidades e defeitos, mas o que é melhor vai de acordo com a opinião dos fãs. A Marvel tem um universo coeso nos cinemas, já a DC ainda está estabelecendo o seu (apesar de receber críticas exageradissimas antes mesmo do segundo filme) com meus personagens preferidos. So de ver aquela introdução nova com vários personagens conhecidosos olhos já brilham.
    A melhor é a que gostamos mais. Dane-se as opiniões alheias.

  • Cassiano Cordeiro Alves

    Vou repetir o comentário que já escrevi no Marvel 616 sobre o assunto. É o óbvio que, nestes tempos sombrios, precisa ser destacado e louvado: existem coisas que vão muito além da frívola rivalidade entre os fãs da Marvel e da DC. Prestar tributo a um diretor que fez um trabalho histórico no cinema com o primeiro super-herói do mundo é uma delas!

  • Sergio Torquato

    Eu acredito que muita gente como eu conheceu primeiro a Marvel com os desenhos animados da TV. Aqueles super toscos do Namor, Vingadores, Hulk, Homem de Ferro, Robin Hood Espacial. Super Amigos vieram beeem depois. Nunca vimos a marca DC nos desenhos. Sabíamos da série tosca do Batman e Robin, mas não víamos a marca DC. Enquanto que os desenhos da Marvel eram identificados como tal. Porém, por incrível que pareça, o melhor desenho Marvel era da Hanna-Barbera: o Quarteto Fantástico. Ele vinha com o Space Ghost, os Herculóides, o Galaxy Trio. Tô mentindo??

  • Sergio Torquato

    Eu creio que filme bom é filme bom. E filme ruim é filme ruim. E todo mundo gosta do Superman e do Homem-Aranha. Do Batman e do Wolverine. Da Mulher Maravilha e da Mulher Invisível. Essa diferença de Estúdios e de Empresas é lá com eles. Só queremos boas histórias com os personagens que amamos.

  • sergio reis

    A Marvel NÃO tem clássico…

    • cara talvez assim não aclamada como um cavaleiros das trevas da vida mas porem na minha visão guerra civil,a ultima caçada de kaven ,o dia em que gwen morreu o clássicos guerras secretas ente outras eu considero não do mesmo nível porem não deixa de ser clássicos tambem

  • Felagund

    Ótimo texto. Gosto dessas curiosidades.
    A rivalidade sempre vai existir, e de certo modo, ai está a metade da graça. Faz parte.
    Particularmente, sempre preferi os personagens da Dc, mas as séries animadas do Homem Aranha e X-men, por exemplo, são duas das minhas adaptações preferidas até hoje.
    O que não pode existir é violência gratuita por causa dessas coisas.