[Emulador de Críticas] Spoilers, rumores e o jornalismo

E aí, pessoal! Sabem, algumas coisas vêm me preocupado. As informações cada vez mais estão chegando mais rápido e vazando de forma pontual. Rumores que não tem muita explicação e que acabam alavancando sites sem confirmações das fontes. E a forma com que sites de notícias que os abordam estão causando alguma comoção.

Durante o ano de 2015, escrevi um texto explicando que, como consumidor de cultura pop, não tinha problemas com a prática do spoiler. Afinal, eu estava preocupado com o resultado final de algo, mas entendia quem tinha asco quando algo assim acontecia. As empresas de quadrinhos, cinema e afins estão usando informações que acontecem em algumas de suas obras para alavancar seus produtos. O problema é como a imprensa está tratando isso tudo.

A bola da vez das últimas semanas foi o vazamento de uma informação sobre o Batman. Agora, o Homem-Morcego pediu em casamento a Mulher-Gato. Isso é algo bastante importante para a história do personagem, que sempre foi um solteirão. Porém, isto é o mundo dos quadrinhos e nada está escrito na pedra. Só que a forma com que alguns sites e blogs trataram essa matéria me deixaram apreensivo.

Alguns usam a chamada no título (faço aqui um mea culpa do caso referido em nome do Terra Zero — que, sejamos justos, publicou um artigo sobre o assunto no dia seguinte ao vazamento seletivo ocorrido nos EUA) e outros fazem vídeos, postam a página da HQ nas chamadas. Um caos. Não é à toa que muitos leitores reclamam, cada vez mais, da forma que algumas pautas são abordadas com um certo sensacionalismo. A mídia via internet continua usando a ideia da guerra pelo clique e não se pauta na busca pela qualidade de informação ou pelo embasamento do texto que é escrito.

Outro ponto que acaba movimentando muito as pessoas é o rumor. A forma com que é utilizada essa ferramenta chega a ser maldoso. Há pessoas que usam essa informação apenas para criar cenários dos mais malucos. Os rumores algumas vezes nada mais são que uma fofoca que talvez não aconteça nunca.

Basta ver a última bola furada dos rumores. Foram muitos textos que falavam mal do filme da Mulher-Maravilha. Alguns deles afirmavam que o filme era um total desastre, outros dizendo que a Warner estava insatisfeita com o resultado final da película e todos eles foram contrariados. A forma que é usada nesses textos serve apenas para aumentar gráficos de acessos e para dar voz a alguns assuntos que não irão para nenhum lugar.

A audiência parece ser apenas uma grande massa de manobra, que está sendo usada para clicar, ler, digerir e tomar como verdades informações que não tem fundamento, para ficar esperando se é confirmada ou não. A grande dificuldade nesse cenário é conseguir fugir do formato que preza pela velocidade sem confirmação, ou demorar algumas horas a mais e tentar entender os fatos, para, então, chegar à conclusão de se vale a pena ou não destrinchar o fato.

Vários especialistas em mídias digitais dizem que os meios de comunicação online tem que ser mais pontuais — e com profundidade o bastante para termos um leitor consiga captar as informações necessárias des textos, vídeos e podcasts — e, ao mesmo tempo, falar uma linguagem que prenda essa pessoa. Querendo ou não, na internet, o público busca informação aliada à personalidade.

Os mesmos especialistas vêm explicando que a ideia de venda por clique não é mais tão viável. As pessoas, cada vez mais, tentam aliar informação a algo que a complemente, para melhor investimento de tempo. Algumas plataformas usam o crowdfunding (Padrim/Apoie-se/Patreon), sendo financiado por seus leitores, melhorando e podendo criar novos formatos para inovar sua comunicação. Outros vendem informação aliada a produtos, como criação de livros, incentivo a compra de produtos (com faz a Amazon) e afins. Existem, hoje, várias ferramentas que podem ser usadas para fugir da estatística do pageview.

Voltando ao spoiler. Ele não vai parar se ser usado. Ele continua alavancando vendas. Batman #25 ganhou uma reimpressão com uma capa com o Batman pedindo a Mulher-Gato em casamento. O que deve ser pensado é a forma com que o spoiler vai ser utilizado. Avisar com letras garrafais ou imagens que o texto vai ter informações que as pessoas podem não querer saber é uma forma de usar essa ferramenta com parcimônia e sem dificultar a vida de algumas pessoas.

Vamos ser sinceros. Ninguém é obrigado a gostar e aceitar o que estou dizendo como verdade. Porém, a experiência que ganhei nos últimos anos mostra que usar rumores e spoilers como moeda de troca em acessos é muito relativo. A audiência pode abrir qualquer site de notícias e encontrar isso. Porém, personalidade e domínio sobre o assunto, atualmente, tem se mostrado muito mais produtivo do que fazer apenas uma tradução de uma nota do inglês para o português em velocidade relâmpago.

Hoje, o Terra Zero busca tentar aliar o melhor dos dois mundos. Trazer informação de qualidade, pensando no leitor e no ouvinte, porém (e principalmente) tendo cuidado para que todos queiram nos ler. Sendo responsáveis para que seu público tenha notícias com qualidade acima da média, e que seus padrinhos e madrinhas se orgulhem do nosso trabalho.

Até a próxima!

  • Da Roça

    Na minha opinião (de merda, diga-se) esta questão dos boatos envolvendo filmes da DC tem um pouco a ver com a forma como o norte-americano se relaciona com a notícia. Diferente daqui do Brasil ou em países europeus, o jornalismo norte-americano supervaloriza a informação apresentada por fonte anônima. Claro que é dever do jornalista checar a informação de uma fonte que não quer se identificar. Porém, nos Estados Unidos eles se orgulham de ter uma imprensa que funciona assim. Para o norte-americano isso é o máximo da liberdade de expressão e de uma imprensa livre.
    Matérias como essas que temos vistos sobre filmes da DC, com informação obtida “de um executivo”, ou “pessoa envolvida na produção” ocorre no jornalismo político, esportivo e econômico nos Estados Unidos com esta mesma frequência que estamos vendo no jornalismo de entretenimento. E por mais estranho que pareça, jornalistas sérios e de renome nos Estados Unidos usam este expediente quase que rotineiramente. Em alguns jornais, os repórteres nem se dão ao trabalho de sugerir se a fonte é um executivo, um funcionário, um colega de alguém, eles simplesmente escrevem “fontes dizem que tal coisa está acontecendo”.
    Claro que neste cenário, a proliferação de notícias falsas, boatos e especulações é potencializada. Sites de entretenimento, então, usam e abusam destas supostas informações de bastidores, para alavancar views.
    Por ser algo tão comum na cultura jornalística norte-americana, a publicação de informações duvidosas é algo que sempre vai estar ligado aos filmes produzidos lá.