Adam West e a inocência do heroísmo

Como diversos sites já noticiaram nesta manhã de sábado, Adam West, o intérprete mais icônico do personagem Batman, morreu aos 88 anos, após enfrentar aquele que seria seu último inimigo: a leucemia.

O comunicado oficial da família é emblemático e resume algo que está internalizado na memória de todos os seus fãs:

Nosso pai sempre se viu como O Cavaleiro da Luz e aspirava ter um impacto positivo nas vidas de seus fãs. Ele foi e sempre será nosso herói.

No início de 2014, Burt Ward, que foi o Robin da série clássica de tevê dos anos 1960, foi enfático quando lhe perguntaram sobre quem era o melhor intérprete do Homem-Morcego:

Todos os atores que interpretaram o papel são ótimos. Mas quando você pensa em que realmente é o Batman, quem as crianças acreditam ser o Batman, só há um e é Adam West.

Ward não está errado. Mesmo para as novas gerações, as constantes reprises de Batman, vídeos que se espalham pelo mundo e todo tipo de homenagem (no Brasil, a mais famosa delas é a paródia Feira da Fruta) fazem com que a imagem de West com o Cruzado Embuçado permaneça vívida na memória de todos.

West não conseguiu se livrar da sombra do Morcego, por toda a sua vida pós-Batman, de modo similar ao que aconteceu a outros atores notáveis do mesmo período, em especial Leonard Nimoy. Porém, em determinado momento, ele decidiu que não iria mais combater esse estigma, como revelado em entrevista à revista Variety:

Há alguns anos, eu fiz um acordo com Batman. Houve um tempo em que Batman realmente me impediu de pegar alguns papéis muito bons, e me pediram para fazer o que eu percebi serem personagens importantes. No entanto, Batman estava lá e pouquíssimas pessoas me dariam a chance de desfilar pela tela. E eles estariam afastando pessoas da história. Então eu decidi que, já que tantas pessoas amavam Batman, eu também iria amá-lo. Por que não? Pois eu comecei a reatar com Batman. E eu vi a comédia. Eu vi o amor que as pessoas tinham por ela e eu assumi este amor.

Mesmo tendo feito papéis interessantes antes de ser escalado para a série de William Dozier em 1966, atuando inclusive com Paul Newman quando estreou no cinema, West encarnou, com sua atuação marcada, sua fala lenta e seu bom mocismo excessivo — mesmo com o humor anedótico em que Batman foi calcado desde o início –, um arquétipo heroico que moldou a memória de muitas crianças e adultos. Repentinamente, Batman (o herói) se tornava uma resposta inusitada aos argumentos destrutivos de A Sedução do Inocente, de Fredric Wertham.

Tanto os vilões como os heróis que desfilaram por Batman, a série, tinham a beleza de serem inocentes e sedutores, valorizando o heroísmo da Dupla Dinâmica e de seus fiéis aliados. As grandes armadilhas, as soluções espertamente encontradas, as lutas coreografadas, as onomatopeias que anteciparam a Pop Art, tudo se misturava em um caldo estranho e envolvente, que nos hipnotizava e nos deixava irresistivelmente presos ao compromisso de retornarmos à frente da televisão, naquela mesma bat-hora e no mesmo bat-canal.

O desencanto com heroísmo na década de 1970 e as lições mal aprendidas com as obras mais icônicas dos anos 1980 fizeram com que o humor camp daquela série de tevê fosse brutalmente desdenhado e, por algum tempo, relegado ao esquecimento.

Porém, esse mesmo desencanto hoje em dia não faz mais sentido. A realidade, hipernormalizada, parece saída de um pesadelo nos últimos anos. E é justamente o brilho, a inocência heroica, o que nos faz falta, não apenas para que a realidade que nos é imposta se torne suportável, mas também para que possamos manter a esperança de dias radiantes, com leveza, sem que nos esqueçamos que as coisas podem ser melhores. É algo que o novo filme da Mulher-Maravilha nos lembra. É o que o Superman de Richard Donner fazia conosco. É o que o Batman de Adam West continua a fazer até hoje.

Então, pouco importaria publicar aqui no Terra Zero uma notícia fria sobre a morte de um dos maiores ícones pop relativo aos quadrinhos. Adam West, em suas inúmeras incursões como ele mesmo (em animações como Family Guy e Os Padrinhos Mágicos) ou em referências diretas ao seu trabalho mais conhecido (como em Bob Esponja), mostrou durante os anos que realmente abraçou a herança cultural que sua atuação peculiar deixou impressa em corações e mentes de diversas gerações. Isto também está impresso em nós. E em cada um que está lendo este texto, agora.

Não há jeito melhor de homenagear a memória de Adam West do que compartilhar este sentimento. Então, convidamos cada Zeronauta a nos contar sobre o impacto de Batman em suas vidas. Certamente, teremos boas histórias para trocar. E segunda-feira estaremos de volta, neste mesmo bat-canal.