[Review] Secret Empire #1, de Spencer e McNiven

Conforme vimos na edição zero de Secret Empire, o Império Secreto comandado pelo Capitão América tomou de assalto o universo Marvel, incapacitando seus principais opositores e se consolidando como um regime político-militar que, agora, tem praticamente o mundo sob seu domínio.

Vale lembrar ao leitor que a questão da descaracterização do Capitão América foi abordada tanto na resenha da edição prólogo supracitada quanto no nosso Comicpod especial, no qual debatemos o tema exaustivamente. Aqui, portanto, analisaremos somente as características da história mostrada na primeira edição de Secret Empire.

Nesta primeira edição, o roteirista Nick Spencer mergulha mais fundo nas engrenagens desta máquina opressora e neste mundo no qual a Hydra triunfou. Aqui, o autor detalha as funções específicas de cada um dos ministros que sustentam o governo de Steve Rogers, nos apresenta a força rebelde que tenta resistir a esta ditadura e mostra que, apesar da fachada de líder impiedoso, a vida do Capitão América atualmente é uma sucessão de dilemas morais.

Há uma estranha ambiguidade no Capitão de Spencer. Sabemos de sua atual devoção à Hydra. Sabemos que ele tem uma visão muito particular para o mundo. Sabemos que nada ficará em seu caminho para concretizar essa visão. Todavia, Spencer aqui nos entrega cenas que mostram outro lado da vida dessa encarnação tirânica do personagem. As passagens com Sharon Carter, Rick Jones e com sua mentora, a Madame Hydra, mostram o lado dividido de Rogers. Spencer, apesar de retratar o personagem como um vilão, tenta aqui humanizá-lo e deixa alguns ganchos misteriosos acerca de suas reais motivações. Descaracterizações a parte, é louvável a dimensão dada ao protagonista nesta edição. Rogers é ora pragmático, ora paranóico; extremamente solitário e frágil, quando visto além da fronte de ditador. Talvez um dos vilões mais complexos e difíceis de se construir em toda a história da editora.

Spencer tem um senso rítmico de roteiro extremamente apurado. Isso já se nota desde seus trabalhos com Morning Glories, pela Image. Isto torna a leitura de Secret Empire muito fluída e veloz e todas as informações ficam claríssimas para o leitor. A caracterização de vozes em diálogos também merece ser destacada. Observe os trejeitos nas falas de cada um dos personagens e fica impossível não reconhecer que este autor trabalha com muito esmero cada um deles individualmente.

Como não poderia deixar de ser, Spencer continua martelando sem perdão as questões políticas, sociais e até o mercado de quadrinhos atual, por meio de alegorias neste quadrinho. Observando, mesmo que de forma bem superficial, é possível detectar que o apelo desesperado inicial da Capitã Marvel se aplica quase que integralmente à situação política estadunidense de nossos dias. O tom desiludido de Tony Stark representa a visão sem esperança de uma enorme parcela da população. As cenas de doutrinação nas escolas, mostrando crianças gritando palavras de ordem, são duras e revelam um cenário nada fictício que exuste em algumas partes do planeta. E o recordatório na cena da captura do Inumano que diz:

É engraçado viver em um mundo no qual o impossível acontece. No qual a qualquer momento que você olha para o alto e há alguma guerra, invasão ou ataque. E as pessoas dizem ‘Isto vai mudar tudo’ e que ‘Nada será como antes’. Você escuta tanto isso que deixa de acreditar. E se surpreende quando de fato  isso acontece.

pode ser muito bem encarado com uma crítica direta ao excesso de sagas e eventos na própria editora que publica este título. Spencer é implacável. Não faz concessões até o momento. Critica com valentia e, aqui, toca em muitas feridas ainda não cicatrizadas da humanidade. Isto torna Secret Empire #1 uma leitura dura com o leitor, mas que pode se tornar algo maior seguindo esta toada.

A arte da edição número 1 da saga é um salto monumental de qualidade em relação a anterior. Steve McNiven dispensa apresentações como ilustrador, mas aqui, sem esforço algum e, principalmente, sem páginas autoindulgentes, o artista mostra todo o domínio que tem, tanto sobre a narrativa de Spencer quanto sobre este elenco relativamente grande.

A fotografia é nítida e apresenta muito bem a ideia do roteiro. O cuidado que McNiven tem com expressões faciais e corporais transmite como poucos o sentimento dos diálogos do roteirista e o visual é de um nível elevadíssimo, com uma consistência notável durante toda esta edição. Vamos de reuniões entre um grupo de vilões abatalhas contra aberrações gigantes, de cenas dramáticas entre dois amigos a passagens em uma escola com o mesmo grau de capricho no visual.

Se você se chocou, decepcionou ou emputeceu com a edição prólogo de Secret Empire, ficará na mesma ou talvez ainda mais horrorizado com o que é mostrado na primeira edição. Esta é, de fato, uma visão muito amarga, não só do Capitão América, mas do mundo que nos cerca. A narrativa, que tem um ritmo ideal para sagas do tipo, envolve e enoja ao mesmo tempo, e a arte nítida e muito bem executada acentua ainda mais a visão abjeta de Spencer para um universo Marvel que nem todos os leitores estão preparados para adentrar.