[Review] Guardiões da Galáxia Vol. 2 eleva o nível da franquia

Já saiu Guardiões da Galáxia Vol. 2 em todo o território nacional. Apoiado por um interesse maciço da população depois do sucesso de seu predecessor, o filme já começou bem em seu primeiro final de semana em terras internacionais, faturando mais de 100 milhões de dólares.

Com James Gunn na direção, a sequência do filme original traz novamente Chris Pratt (Peter Quill/Senhor das Estrelas), Zoë Saldaña (Gamora), Dave Bautista (Drax), Karen Gillan (Nebula), Bradley Cooper (Rocky Racum), Vin Diesel (Groot) e Michael Rooker (Yondu Udonta) ao lado dos novos membros do elenco: Kurt Russell (Ego), Pom Klementieff (Mantis) e Chris Sullivan (Taserface), além das participações de Laura Haddock (Meredith Quill), Elizabeth Debicki (Ayesha), Seth Green (Howard, o Pato) e Sean Gunn (Kraglin).

Houve também participações mais que especiais de Michael Rosembaum, Sylvester Stallone, Myley Cyrus, Ving Rhames e Michelle Yeoh, mas seus personagens não serão revelados na resenha por ainda serem spoilers para uma parcela grande do público.

Elenco principal de Guardiões da Galáxia Vol. 2 na SDCC do ano passado.
Elenco principal de Guardiões da Galáxia Vol. 2 na SDCC do ano passado.

Elenco de peso, com direito até a cameos de Rob Zombie como um Ravagers e de um ator dos anos 1980 que vai deixar o público de mais de 20 e poucos anos muito feliz. É merecedor de aplausos que um filme de super-heróis tenha se tornado um evento cultural capaz de atrair tanta gente talentosa do meio do entretenimento. Sly chegou a dizer em uma entrevista que ficou tão contente por estar em um filme cujo estilo era inédito na sua carreira, que devolveu à Marvel o cachê recebido. Isso não foi confirmado pelo estúdio, mas não deixa de ser curioso que haja tanta empolgação assim em Hollywood quando se fala de Guardiões da Galáxia.

A Aventura e Seus Personagens

Na nova aventura, os Guardiões se vêm obrigados a lidar com a fragmentação do time após o encontro com Ego, o Planeta Vivo, que se revela ser o pai do Senhor das Estrelas. Eventos da trama que precedem este momento (que incluem o mau término de um trabalho para uma raça alienígena que os persegue o filme todo), bem como os conflitos que surgem depois dele mantêm o time separado por boa parte do filme, o que serve para Gunn lidar com temas diversificados que circundam o principal: a paternidade (falaremos dele mais tarde).

O roteiro é simples, mas bem escrito. Gunn faz escolhas previsíveis na maior parte do tempo, mas raras foram aquelas que não tiveram uma qualidade mínima para empolgar o espectador. Ele foi bem-sucedido novamente, reunindo mais uma vez seu time de trastes com bom coração para fazer algo ainda mais épico, apoiado por músicas incríveis, atuações canastronas e engraçadas e uma fotografia de encher os olhos.

A origem do Senhor das Estrelas é o núcleo da narrativa. Isso deixou portas abertas para o primeiro Guardiões não ser o típico filme de origem de super-heróis – na verdade, ele é um filme de origem de uma equipe – e para que as sequências pudessem mostrar, quando fosse correto, o passado de cada membro. Foi o que aconteceu nesta sequência.

Ou seja, Guardiões da Galáxia Vol. 2 não mostra só como Peter Quill veio ao mundo; mostra também os passados de diversos personagens, bem como suas origens, sem fazer com que o longa vire um “filme de origem”. Há uma história acontecendo no presente e, quando é necessário, os diálogos contam as histórias pregressas de cada um. Portanto, não há segredo nenhum no enredo; os trailers venderam exatamente o que está no filme.

O bônus da experiência é entender mais sobre estes personagens, que são ao mesmo tempo adoráveis e detestáveis, enquanto eles nos divertem com suas missões e sua dinâmica. Haverá poucas surpresas no fim, mas elas são suficientes para tudo valer a pena.

O Grupo

Os Guardiões da Galáxia não são super-heróis. São tratados como tal pela categoria do produto (“filme de super-heróis”), mas eles são heróis da trama, não heróis por definição. Toda a experiência é percebida pelo espectador através dos olhos daqueles personagens, que também nos repassam suas experiências contando cada parte delas através de olhos humanizadores de valores universais. Isso faz deles os heróis da história, mas não heróis de verdade.

Um dos primeiros pôsteres de Guardiões da Galáxia Vol. 2.
Um dos primeiros pôsteres de Guardiões da Galáxia Vol. 2.

Parando pra pensar agora, é como se eles fossem o outro lado da moeda em que estão os vilões do Flash que hoje figuram na série dele e em DC’s Legends of Tomorrow. Ninguém ali é bom de verdade; os Guardiões fazem mais Bem do que Mal se comparados com Capitão Frio e Onda Térmica, mas, por outro lado, eles são saqueadores e mercenários.

E riem disso.

Ou seja, formados por seres de diversos cantos do universo, os Guardiões são tão humanos quanto qualquer um de nós, e é isso que nos deixa tão atraídos por eles – certamente não são as piadas que, pelo menos no primeiro quarto de filme, parecem recicladas do filme anterior até ganharem identidade própria e caminharem no ritmo do resto da obra.

Divisão e união fazem bem por igual ao time, como Guardiões da Galáxia Vol. 2 mostra. Tanto que, quando a equipe se divide como no momento em que ela está junta, tudo parece bacana. Esse é, provavelmente, o verdadeiro trunfo de Gunn sobre o restante dos filmes da Marvel: a equipe é interessante separada ou unida.

Pôster final de Guardiões da Galáxia Vol. 2.
Pôster final de Guardiões da Galáxia Vol. 2.

Se nos Vingadores há membros que ainda não tiveram chance (Viúva Negra) ou que tiveram chances e as desperdiçaram (Homem de Ferro 3, Thor 1 & 2 etc), nos Guardiões da Galáxia o tempo de tela dos membros é praticamente idêntico e, quando cada um tem que carregar a história nos ombros, eles conseguem. Muito bem. Não tem dessa de Guardiões ser do Senhor das Estrelas, de Gamora ou de Rocket Racum & Groot; é de todos, inclusive de Yondu, como o filme mostra.

Temática e Trilha Sonora

Apesar de manter a leveza dos filmes da Marvel, Guardiões da Galáxia Vol. 2 lida com temas mais profundos e, como no anterior, faz uso pesado do que a trilha sonora diz nas letras das músicas para enriquecer a trama. Felizmente, no Brasil, a legendagem foi boa o suficiente para traduzir os trechos mais importantes de algumas canções.

Gunn aproveitou o encontro do Senhor das Estrelas com Ego para explorar os temas da paternidade e da falta dela em todos os personagens, o que foi muito facilitado com a fragmentação do time. Na verdade, o roteirista/diretor fez disso o verdadeiro tema do filme. Vilões aparecem e precisam ser derrotados; personagens evoluem; contudo, nada pareceu ser mais importante em Guardiões 2 que a paternidade e como ele é universal. Ora, pode até ser um filme de super-heróis para a molecada ver, mas certos questionamentos fazem parte da existência humana desde sempre.

Não há nenhuma música no longa que venha do filme anterior, o que é ótimo. Assim como Quentin Tarantino faz em seus filmes, Gunn faz a música servir à cena. Ainda que ele já tenha dito em diversas entrevistas que algumas cenas são construídas porque ele descobriu uma música ou outra daquela época, no filme a impressão é de que a música só está acrescentando a uma pintura constituída pela cena.

Há uma música especificamente (que não será revelada aqui para não estragar a experiência dos Zeronautas) muito discutida no longa; esmiuçada até em diálogos entre os personagens. Atenção nela quando virem o filme.

Cores e músicas para todo lado em Guardiões da Galáxia Vol. 2.
Cores e músicas para todo lado em Guardiões da Galáxia Vol. 2.

Por outro lado, há uma que pode ser comentada: My Sweet Lord, do ex-Beatle George Harrison [Nota: a favorita deste redator na trilha sonora]. Ela começa a tocar quando os personagens estão chegando ao planeta de Ego. Neste momento, Peter Quill vê quem é o verdadeiro Senhor e vislumbra sua criação, podendo tocá-la, ouvi-la e cheirá-la, como se Ego fosse, para todos os efeitos, Deus.

É fantástico ver isso acontecer em Guardiões, pois é como se os fãs pudessem ter um relance de como seria um filme de quadrinhos dirigido por Tarantino. O método de direção e a escrita do roteiro em cenas assim, em que a música é fundamental, é muito parecido com o do diretor, o que pode fazer de Gunn uma espécie de aprendiz do premiado mestre.

O Elenco e a Época

Todos estão bem no filme, estejam eles interpretando personagens de verdade (como Karen Gillan, Zoë Saldaña e Michael Rooker) ou fazendo versões mais divertidas de si mesmos (como Chris Pratt e Sly). O interessante é que os mais novos cresceram vendo os filmes feitos pelos mais velhos, o que torna a coisa toda uma verdadeira celebração aos anos 1980. Se Guardiões 1 já tinha sido vendido sob este aspecto, o segundo crava que a franquia é uma ode a uma época não esquecida pelas pessoas de sua geração e amada até por quem veio depois.

Premiere mundial de Guardiões da Galáxia Vol. 2.
Premiere mundial de Guardiões da Galáxia Vol. 2.

Reforçando este pensamento estão as presenças ilustres de dois dos maiores ícones de ação dessa época, Sylvester Stallone e Kurt Russell. O primeiro aparece pouco no filme e seu papel não é importante para esta história, mas com certeza será na próxima (há indícios disso neste filme); o segundo é fundamental, é o pai do protagonista e o ser que dá ignição ao desenrolar da trama. É uma pena que eles não se encontrem em cena, deixando de reprisar um clássico oitentista estrelado pelos dois chamado Tango & Cash – Os Vingadores.

As cores berrantes do cenário digital e dos figurinos também celebram a época, garantindo à franquia uma identidade visual singular e difícil de ser replicada sem que isso soe como cópia. O trailer do vindouro terceiro filme do Thor indica uma inclinação para este visual, o que pode ser um apelo para que ele seja melhor recebido pelo público que seus antecessores. Pode ser que dê certo, mas não terá a mesma graça ver um filme assim sem que ele referencie a Super Máquina, David Hasselhoff, as músicas e os ícones de uma década sem igual do século passado.

Experiência e Resultado

Visualmente mais impactante que seu predecessor e que Doutor Estranho, Guardiões da Galáxia Vol. 2 é lisérgico. As concepções visuais do filme do mago foram mais calcadas nos anos 1960, no saudosismo de uma época em que a experimentação artística e de substâncias ilegais andavam lado a lado cuspindo tresloucadamente coisas jamais vistas pela humanidade até então; em Guardiões, a alucinação se dá por conta da paleta de cores que Gunn escolheu para criar os planetas em que o filme acontece, principalmente a terra que Ego criou.

Lado a lado com o visual está uma trama bem amarrada, interessante, com humor honesto, muita nostalgia e mistura bem dosada de ação, ficção científica e drama. Mais uma vez Gunn conseguiu unir saudosismo e modernidade em um longa que dificilmente não supera o primeiro. De certa forma (e há até uma cena de perseguição em asteroides mostrando isso logo no começo), esse é o Império Contra Ataca da franquia.

Certamente fará com que a parcela mais jovem de seu público procure pelas referências que o público mais velho sacou logo de cara enquanto se deliciava com o ineditismo do jogo visual (proporcionado pela modernidade dos efeitos especiais) misturado com com os elementos bons de várias tosqueiras espaciais dos anos 1980 que surgiram depois de Star Wars [Inimigo Meu, O Último Guerreiro das Estrelas e Mercenários das Galáxias mandam um abraço].

O futuro é incerto quando se fala de história, já que o terceiro filme demorará um pouco para sair e, antes disso, os Guardiões participarão do próximo filme dos Vingadores. Portanto, apesar de Guardiões da Galáxia Vol. 2 deixar um horizonte de opções para seus criadores, o que acontecerá adiante dependerá do que a Marvel fizer com eles ano que vem em Vingadores: Guerra Infinita. Seja lá qual caminho escolherem, Gunn já foi oficializado como diretor do terceiro volume. Portanto, os fãs podem ficar tranquilos. E, para os que ainda não viram o segundo, estejam certos de que a experiência será incrível.

PS: Certifiquem-se de ficar até o fim. Há nada menos que cinco cenas pós-créditos. E todas valem a pena!

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