[Entrevista] Gisela Pizzatto: Vem aí a Rainha Pirata

Gizela Pizzatto é paulista com um pé na Itália, formada em História, mas descobriu sua paixão nos quadrinhos. Apaixonada por cultura oriental, dá aula de mangás e já produziu o seu próprio. Também fascinada pela Irlanda, escolheu uma das mulheres mais icônicas do país para produzir seu quadrinho. Com seu roteiro e arte de Bruno Büll, A Rainha Pirata atravessou o Atlântico e foi publicado na Irlanda, onde ganhou o Prêmio Nacional de Literatura em Irlandês de melhor livro do ano, na categoria Melhor Livro Ilustrado.

Recentemente, o projeto chegou ao Brasil e, por meio do Catarse, eles conseguiram o financiamento para publicar a história premiada. Assim, no final de junho, a rainha pirata irlandesa Grace O’Malley falará português. Nesta entrevista, o Terra Zero apresentará um pouco do trabalho de Gisela Pizzatto, que já teve quadrinhos publicados na Itália, o mangá autoral O peso da água (publicado lá e aqui, também financiado pelo Catarse) e também teve as tirinhas da sua personagem, a gatinha Kelly, publicada na revista Neo Tokyo. Além, é claro, de A Rainha Pirata.

Terra Zero: Como os quadrinhos entraram na sua vida, e por que você decidiu virar quadrinista?
Gisela Pizzatto: Os quadrinhos entraram na minha vida muito cedo, quando eu era criança ainda, meu pai comprava Turma da Mônica e praticamente todas as séries de revistas Disney pra gente: Pato Donald, Margarida, Mickey. Não decidi virar quadrinista. Foi um acidente de percurso. Sei lá, aconteceu. Dou aula de mangá há 17 anos. Sou casada com um quadrinista. Estou nesse meio praticamente 24 horas por dia. Foi meio que natural. Não decidi nada.
Você pode nos falar sobre A Rainha Pirata? quem foi ela?
A Rainha Pirata foi Grace O’Malley, membro da realeza irlandesa do século XVI, quando a Irlanda ainda não estava totalmente sob o domínio inglês e, sim, dividida em reinos pequenos dominados por clãs. Grace, Granuille ou Grainne era filha de um dos chefes de clã mais importantes da costa oeste da Irlanda. Desejava mais que tudo navegar e comercializar por mar (o maior poder dos O’Malley), acabou conseguindo isso numa época em que as mulheres eram feitas para o casamento e para conseguir alianças políticas, cuidavam só da casa e dos filhos. Mas ela viveu em uma época de transição política muito forte, quando a Inglaterra estava querendo mesmo subjugar os irlandeses e ela enfrentou bem de frente toda essa força.

E como foi o processo de pesquisa histórico sobre ela?
A pesquisa foi feita mais através de literatura do que in loco. Eu estive na Irlanda algumas vezes, mas não para fazer este trabalho. Estive no castelo da Grace, passei por lugares que ela deve ter passado, fotografei e me interessei, mas o grosso da pesquisa foi feito depois, anos depois, quando resolvi escrever a história dela, que inicialmente era um conto e depois acabou como HQ.


E como você aborda a Grace e sua história na sua HQ?
Olha, como eu te disse, estive algumas vezes na Irlanda, adoro o lugar. Claro que puxei a sardinha pro lado dela. Quer dizer, a história não tem pretensão nenhuma de ressaltar a mulher, o feminismo, nem nada disso. Nunca teve. É uma história bacana de piratas. Uma pirata mulher que realmente existiu e que fez coisas sensacionais. É a história dela, o mais fielmente que consegui chegar dos fatos, sem deixar a coisa chata ou exagerada. Sou historiadora de formação, então a acuidade histórica é uma coisa que sempre me preocupou muito quando faço histórias baseadas em fatos. Não distorci nem aumentei a vida dela. Algumas coisas foram omitidas por puro princípio de auxílio à narrativa dos quadrinhos, mas a essência está lá. Inclusive quando ela é julgada em Dublin, a sentença dita pelo magistrado é a sentença que foi dada a ela, na íntegra.

E o que leitor pode esperar encontrar em A Rainha Pirata?
Um livro feito com muito cuidado, com qualidade europeia de produção, além de muita ação, aventura. E a vida da pirata mais famosa do mundo.


Você também trabalha com mangás, tendo inclusive um autoral, O peso da água. Conte-nos sobre ele.
O Peso da Água foi um projeto meu de 2012 para um editor italiano com quem eu costumava colaborar. Por motivos pessoais, parei com o projeto após o desenho das páginas e capa (faltava só reticular e colocar o texto). Ele ficou engavetado até 2016, quando a escola em que dou aula criou um Studio de produção de ilustrações e quadrinhos. Precisavam de um projeto já pronto, pra lançar rápido, e resolveram pegar O Peso. Resumidamente foi assim que aconteceu.

E como é a história?
O Peso da Água conta uma história curta da sereia Seele que está vivendo em um mundo ao qual não pertence, mas ela ainda não se deu conta disso. Para ajudá-la, enviada por Netuno, aparece a Bruxa do Mar, Yulia Misayeva. É uma história sobre escolhas, sobre arcar com as decisões que a gente toma. Tem bastante fantasia e suspense.

Como é ser uma mangaká ocidental? é mais difícil?
É, é uma coisa de muito estudo, muito mesmo. Porque os japoneses tem um jeito muito específico de narrar a história, de contar, de criar os personagens. Pra eles é uma coisa muito natural, pra gente não. Por isso que tem que ter muita atenção, estudar muito. É um caso de muita atenção, de ler muita coisa, inclusive de vários autores, estilos e tipos de mangá. Porque o mangá tem inclusive isso: tem muita coisa diferente. Então você tem que achar aquilo que te agrada mais, estilos e tal e estudar aquilo. Porque senão seu trabalho foca com uma cara de fake, não sei muito explicar isso…

Seria tentar pensar como um oriental, sendo criado na cultura ocidental?
Exatamente senão fica com uma cara de mangá ocidental, que é muito feio. Uma coisa que foi feita muito nos Estados Unidos na década de 1990, quando do boom dos mangás na América e os americanos apostaram nesse estilo.

Você também tem trabalhos publicados na Itália. Qual a diferença da indústria de quadrinhos lá e aqui no Brasil?
Ah, tenho coisa muito antiga publicada na Itália, não sei se consigo responder essa pergunta. Faz tempo que não edito nada por lá.

Mas, você poderia dizer da diferença da cultura de quadrinhos? Se é uma cultura mais difundida por lá?
Ah, os italianos têm muito mais títulos e leem muito mais coisas diferentes. Aqui ainda temos muito títulos de super-heróis.

Como você encara a indústria de quadrinhos no Brasil? É difícil ser quadrinista aqui?
Não acho que tenhamos um mercado de quadrinho aqui para artistas nacionais. É difícil fazer produção nacional independente, quer dizer, fazer sua história própria e não uma coisa encomendada por alguém, um cliente, por exemplo, como uma editora.

Você acha que caminhamos pra mudar isto, com projetos como o Catarse, ou ainda falta muito? O Catarse mostra que existe gente que apoia sim os quadrinhos nacionais.
Falta muito em termos de educação, de difundir essa cultura, de que quadrinhos não é só super-herói, porque isso ainda é um nicho, muito pequeno. Talvez esse boom de quadrinhos no Catarse ajude, mas mesmo assim ainda acho que as pessoas não entenderam exatamente o espírito do Catarse, do financiamento coletivo.

E qual seria o espirito do Catarse?
O financiamento coletivo serve para fazer um projeto virar realidade. Nos dois projetos que fiz, senti que as pessoas não fazem o apoio pensando nisso. Fazem para receber as recompensas e o pior: tem muita gente que espera o projeto virar pra daí contribuir. Isso não ajuda quem está lá, batalhando pelo projeto. Aliás, atrapalha, porque você não está ajudando o projeto, você simplesmente quer o material, não quer ajudar. Um exemplo excelente disso foi um show de uma banda que aconteceria aqui em Campinas, também por financiamento coletivo, só que pelo Kickante. É uma banda de metal conhecida, do ex-vocalista do Angra, um cara conhecido, então não é qualquer um. Os caras precisavam de 30 mil pra fazer o show — que nem é muito, se você pensar que pedi quase 14 mil pra imprimir quinhentos exemplares de um livro. Bom, resumo da ópera: eles tiveram uma contribuição de 50 reais e um povo comentando no projeto incentivando a contribuição, tipo, vamos fazer o show acontecer, e tal, mas eles mesmos não contribuíram! Estão esperando outros pra isso.

Tem previsão do lançamento físico de A Rainha Pirata?
Fim de junho.

Você quer deixar algum recado pro pessoal?
Quem quiser comprar os quadrinhos, agora que estão fora do Catarse pode entrar em contato comigo aqui pelo Face e agradeço a todo mundo por ler. Espero que gostem! Faço tudo sempre com muito amor, carinho e cuidado.

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