[Emulador de Críticas] O formato retrógrado do mercado de HQs nos EUA

E aí, pessoal! Vira e mexe, estamos comentando o mercado de HQs aqui no Terra Zero, mas toda hora voltamos ao ponto: até quando esse formato velho de vendas vai funcionar para venda de gibis? O mercado estadunidense começa a dar, novamente, sinais que as coisas estão estranhas.

Logo após o caso da Marvel fazer aquela reunião com lojistas, várias pessoas procuraram o TZ tentando dar sua opinião sobre o assunto. Algumas criticando, outras elogiando a cobertura do site sobre o assunto. Mas acredito que existem muito mais pontos a serem analisados nessa história. Em seu texto, Leandro Damasceno explica divinamente a forma que o mercado de comic shops e venda direta começou a funcionar nos Estados Unidos.

Partindo desse ponto, vamos deixar claro que o real comprador de quadrinhos nos EUA é o lojista de quadrinhos. Este é verdadeiro consumidor e a pessoa que vai ditar o mercado. O leitor, querendo ou não, passa a comprar coisas através desse ponto. Normalmente, é o lojista quem recebe o feedback do cliente final e que também pode ajudar a fazer com que algumas HQs decolem. Mas, sejamos sinceros, o comicbook guy pode entender dos gostos do seu cliente, deve comprar itens baseados na sua venda, mas o mercado continua fechado em um nicho, sem uma janela mais simples para chegada de leitores.

Como todo bom comprador, um lojista compra um certo número de cada título vendido, negocia descontos e recebe algumas regalias para poder pegar títulos que não teriam boa saída, ou ainda ganham algumas HQs de graça em troca de pedidos maiores. Algo que foi explicado em matérias do Bleeding Cool e do Newsarama, sobre lojistas e vendas. O primeiro, falando sobre a forma que a Marvel tenta ganhar os lojistas com HQs extras; o segundo, comentando a saturação de títulos em um mercado pequeno. Meu problema com todo esse formato de venda é como ele é muito amarrado e não diz realmente o que está acontecendo com o mercado estadunidense.

O Judão, dias atrás, analisou os números liberados pela distribuidora Diamond e comentou que o mercado dos Estados Unidos se retraiu em abril de 2017. A Marvel vem perdendo força nas suas vendas; a DC, por outro lado, vive uma das melhores fases em vendas. Desde o lançamento do Renascimento, a Editora das Lendas vende muito. Ao ponto de conseguir lutar de igual para igual com a Casa das Ideias, que é historicamente uma empresa que sempre lucrou muito com o formato de vendas diretas para comic shops.

Também vale salientar que as estatísticas que são usadas para analisar aquele mercado acabam não tendo uma visão do que realmente acontece no mercado de HQs. Acabamos não tendo dados precisos, pois não temos um apanhado de vendas de edições físicas, encadernados e HQs digitais. Só temos acesso à informação de apenas um braço de escoamento de HQs.

Lembrando, também, que os números a que temos acessos são as vendas aos lojistas e não ao consumidor final. Isso dificulta para descobrimos quanto é o impacto real de alguns títulos e artistas. Afinal, quem domina o que vende ou que não vende no mercado do EUA são os lojistas. Tudo isso se torna, de certa forma, nocivo para editoras, veículos jornalísticos e leitores, que acabam tendo apenas uma suposição do que está acontecendo e não conseguindo foco preciso nas escolhas de leitura, nem no que os leitores estão querendo ler.

Existem vários fatores que podem ser analisados nesse prisma. As editoras ultimamente tentam fugir das amarras da distribuição da Diamond. Temos o Comixology trabalhando com as HQs digitais e se tornando uma via para novos leitores — e que também sendo uma ferramenta contra o mercado de scans. Tanto Marvel como DC perceberam que é muito mais fácil manter seus catálogos de histórias antigas em versão digital, para captar e, também, para ajudar estudiosos dos quadrinhos.

Em entrevista ao Terra Zero, o copublisher da DC, Dan DiDio, afirmou que a venda de HQs digitais ainda não é expressiva. Explicou que o formato de encadernados e HQs para livrarias tem dado mais resultado para a editora do que a venda de HQs digitais.

O bigodudo!

Mesmo com todas essas ideias que as majors vem tentando no mercado. Ainda não conseguimos perceber a mudança no perfil de leitores de quadrinhos. A última pesquisa sobre novos leitores de quadrinhos aconteceu graças à DC, após o lançamento dos Novos 52 e mostrava que apenas 5% dos leitores era novos. Os quadrinhos são um mercado de nicho, que se apequena anualmente, em boa parte devido ao formato de comic shops, que dificulta o acesso a novos leitores. Uma amarra que, em algum momento, vai ter que ser repensada de verdade, tanto por lojistas como por editoras.

A Amazon vem ganhando cada vez mais espaço no mercado. Após compra do Comixology, detém uma boa lucratividade com a plataforma, dominando também a venda de HQs físicas para livrarias. No Brasil, está também derrubando grandes redes livreiras nacionais.

O mercado de quadrinhos, como conhecemos, está vivendo por aparelhos. Não temos a real noção do que vende ou do que não vende. Apenas parâmetros. As editoras parecem não conhecer bem o consumidor final, ou conhecem e fazem de conta que não estão preocupadas. Nesse meio tempo, nós, os leitores, acabamos engolindo informações e dados que não fazem sentindo, vendo um estica e puxa de formas de fazer quadrinhos, com ideias bizarras sendo usadas, ou retcons que tentam vender, como novidade, ideias que já são bem conhecidas.

Talvez os quadrinhos estejam precisando de uma nova Image. Artistas com vontade de fazer as coisas mudarem, realmente. Quem sabe? Uma coisa é certa: a velha formula está defasada e o formato de HQs de heróis tem data de validade, se as coisas não mudarem.

Até a próxima.

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