[Atualizado] X-Men Gold: Artista é punido por mensagens fundamentalistas na HQ

[Atualizado em 11/04 às 21h30, por Morcelli]

A Marvel eliminou seu contrato com Ardian Syaf após as polêmicas envolvendo o recente trabalho do artista em X-Men Gold. As edições #2 e #3, desenhadas por ele, já estão nas impressoras e serão enviadas aos lojistas normalmente; as próximas, de #4 a #6, serão do brasileiro RB Silva; de #7 a #9 ficarão a cargo de Ken Lashley. O novo artista fixo do título será revelado em algumas semanas.


[Nota original]

Na última quarta-feira (05), a Marvel promoveu o lançamento de X-Men Gold #1, primeira edição do que prometia ser uma nova fase para os Filhos do Átomo, com tramas mais aventurescas e sem as discussões políticas que sempre marcaram as histórias da equipe. Porém, os planos da Casa das Ideias passaram longe de dar certo, já que o título despertou uma intensa polêmica religiosa no último domingo (09).

Capa de X-Men Gold #1. Arte de Ardian Syaf. Direitos: Marvel Comics.

O desenhista da publicação, o indonésio Ardian Syaf, foi acusado de incluir mensagens subliminares anti-semitas e anti-cristãs nas páginas da revista. O artista muçulmano seria contrário a ideia de políticos de outras religiões assumirem o comando da Indonésia. O posicionamento de Syaf vai ao encontro da série de protestos que aconteceram no país em dezembro do ano passado – especialmente contra o governador da província de Jakarta, o cristão de origem chinesa Basuki Tjahaja Purnama.

Ardian Syaf. Foto: BamSmackPow.com.

Ahok, como o político é popularmente conhecido, é um dos mais cotados para disputar as eleições presidenciais do próximo ano. Ele foi acusado de “blasfêmia” contra a fé muçulmana pela Frente Islâmica de Defensores, uma das grandes organizações islamitas do país. Desde então, a tensão político-religiosa tem aumentado na nação do sudeste da Ásia, gerando preocupações por parte do governo federal indonésio e da comunidade internacional do islã.

A primeira mensagem incluída por Syaf referencia a data dos protestos que marcaram Jakarta: 212 (dois de dezembro). Na página, que traz Kitty Pryde falando a um grupo de pessoas, também podemos perceber parte da palavra “jewelry” (joalheria) foi suprimida para que a sílaba “jew” (judeu) fosse destacada. Ainda na mesma cena, um dos integrantes da pequena multidão traz o número “51” inscrito em sua camiseta.

O número faz referência ao versículo 51 do Al-Ma’ida, o quinto livro do Alcorão. O trecho, em sua mais comum tradução indonésia, fala que o povo muçulmano não deve se submeter a líderes cristãos e judeus.

Tradução para o inglês do versículo 51 do Al-Ma’ida, quinto livro do Alcorão. Em tradução livre, o trecho diz “não tome os judeus e os cristãos como aliados. Eles são aliados de outrem”. Fonte: quran.com.

O versículo é novamente referenciado em uma cena em que Colossus está jogando beisebol. O trecho aparece na camiseta do mutante russo, ao lado das letras “QS”, que significam Qur’an Surah – ou seja, Alcorão. É importante lembrar que na cena, Colossus está interagindo com o Kurt Wagner, o Noturno. O personagem é, desde sua primeira aparição, cristão.

Vale lembrar que os X-Men foram criados por dois judeus, Stan Lee e Jack Kirby. Marc Guggenheim, autor da nova HQ, também é judeu.

Essa não foi a primeira vez que Syaf desenhou easter-eggs relacionados a situação política de seu país. Em uma recente edição de Batgirl, o artista desenhou uma placa com as inscrições “Jokowi” e “DKI” – alcunhas mais famosas do presidente muçulmano da Indonésia, Joko Widodo. Confira abaixo:

As polêmicas mensagens começaram a ser percebidas quando o artista postou a imagem em seu perfil no facebook. Seguidores indonésios de Syaf se dividiram quanto à questão. Alguns aplaudiram a atitude do desenhista, e outros repudiaram. Em resposta ás críticas, ele disse que “não odeia judeus e cristãos”, mas confirmou a narrativa religiosa das mensagens ao dizer que elas fazem referência ao “governador que blasfemou nosso livro sagrado”. A postagem foi excluída quando a polêmica chegou a mídia.

Confira abaixo os comentários, que posteriormente foram apagados:

O assunto despertou polêmica nas redes sociais. Fãs de todos os lugares do mundo manifestaram repúdio à atitude de Syaf, exigindo uma resposta efusiva por parte da Marvel. G. Willow Wilson, roteirista muçulmana e criadora da Miss Marvel Kamala Khan, usou seu twitter para fazer duras críticas à atitude do desenhista.

Wilson também escreveu um extenso artigo em seu blog. No texto, ela discute o significado do versículo 5:51 do Alcorão, reiterando que a interpretação do trecho é feita de forma equivocada. Inclusive, Wilson diz que isso é muito comum, já que 75% dos muçulmanos do mundo não possuem o árabe como língua nativa. Segundo ela, o Alcorão em momento algum diz que cristãos e judeus não podem ser “tomados como amigos” por muçulmanos, e que tal confusão se dá devido à tradução equivocada do árabe. Confira um trecho do seu artigo:

Aqui está o problema: a palavra árabe nesse verso que é traduzido de várias maneiras, como líder, conselheiro, amigo, íntimo etc. é أولياء (awliya ‘), o plural de ولي (wali). E não significa nenhuma dessas coisas.

Awliya ‘, neste contexto, significa algo muito específico e, entre os que falam árabe, esse significado mudou muito pouco ao longo dos últimos 1400 anos. Um wali é um conselheiro legal ou às vezes um tutor legal. Alguns exemplos: uma menina solteira deve nomear um wali para agir em seu nome durante uma negociação matrimonial, de acordo com a lei islâmica. Seu advogado é o seu wali no tribunal. O executor de um testamento é o wali do falecido. Um pai é o wali de uma criança até que a criança chegue à maioridade.

A interpretação indonésia, nesse caso, é menos merda do que a tradução inglesa empurrada, principalmente, por algumas facções sunitas extremistas (cof cof sauditas cof cof) que tem pautado as discussões no mundo dos quadrinhos hoje: amigo. Um wali não é um amigo. Um wali não é nada relacionado à amizade. A tradução literal do amigo é siddiq. Você também pode usar sahib (companheiro). Wali nem sequer vem da mesma raiz que qualquer uma dessas palavras. O Alcorão nunca sugere que você não pode ser amigo de não-muçulmanos. O que faz sentido, porque, sabe, o Profeta tinha amigos não-muçulmanos.

Assim, no grande esquema das coisas, a interpretação indonésia é mais precisa do que a que está sendo empurrado por algumas outras facções, mas ainda é uma merda. Por quê? Porque tem pouca relevância para um estado democrático, multi-étnico e multi-religioso. Foi revelado em um momento em que a comunidade muçulmana incipiente estava envolvida em uma guerra comercial de fato (que rapidamente se transformou em conflito armado) com seus vizinhos não-muçulmanos. Em tal situação, nomear alguém do lado oposto como seu representante legal realmente parece uma ideia muito ruim.

A Marvel se pronunciou oficialmente sobre o assunto:

A arte mencionada em X-Men Gold # 1 foi inserida sem conhecimento dos seus significados intrínsecos. Essas referências implícitas não refletem as opiniões do escritor, editores ou qualquer outra pessoa na Marvel e estão em oposição direta da inclusão da Marvel Comics e o que os X-Men têm representado desde a sua criação. Estes trechos serão removidos das impressões subsequentes, das versões digitais e dos encadernados, e uma ação disciplinar está sendo estudada.

A polêmica catapultou a repercussão de X-Men Gold #1. A demanda pela compra da edição aumentou consideravelmente após a divulgação da notícia, e o estoque se esgotou de um dia para o outro. No E-Bay, o quadrinho está sendo vendido a U$$ 45, sendo que o preço de capa da edição é de U$$ 4,99.

O Terra Zero irá acompanhar todos os desdobramentos desse fato.