Tom King, Novos Deuses e o brilhante futuro do Quarto Mundo

[Nota do editor: superagradecimentos à Erika Atayde pelo esclarecimento mitológico no texto!]

Não é desconhecido de ninguém que Jack Kirby completaria 100 anos em 2017 caso estivesse vivo. O chamado Rei dos Quadrinhos deixou um legado tão grande quanto a duração de sua carreira, que começou na juventude e acabou na velhice, já entre os anos 1980 e 1990. Entre as criações mais incríveis do Rei estão alguns dos principais personagens do Universo Marvel, diversos personagens importantes no mundo independente e, claro, os Novos Deuses na DC.

Em 2016, quando se deu o Rebirth da editora, Geoff Johns (hoje diretor criativo e presidente do grupo DC Entertainment, apenas um cargo abaixo da chefona Diane Nelson) deixou claro em entrevistas dadas no ano passado que os Novos Deuses de Kirby estavam no plano da iniciativa. Contudo, eles ficariam para uma segunda ou terceira fase do projeto. Na noite de ontem, Tom King, um dos escritores mais badalados do momento nos quadrinhos de super-heróis, atiçou os fãs no Twitter com a seguinte imagem:

As mãos são do casal Grande Barda e Sr. Milagre, duas das principais criações de Kirby na mitologia dos Novos Deuses. A postagem dele também inclui uma citação do autor Thomas Wolfe (autor estadunidense do início do século 20 que escrevia poemas, contos e romances impressionistas e autobiográficos). Ela diz: “Não é este o verdadeiro sentimento romântico? Não fugir da vida, mas impedir que a vida fuja de você”. Faz todo sentido com quem Scott Free, o Sr. Milagre, é. A alusão é clara.

Maiores detalhes sobre o que será feito não foram revelados, mas a imagem contém também o dizer Verão de 2017. Ou seja, podemos ter novidades muito em breve, já que o verão no hemisfério norte começa em junho. No fim do ano, mais especificamente em novembro, o mundo inteiro poderá ver um dos Novos Deuses e seus asseclas, os Parademônios, enfrentando a Liga da Justiça no primeiro filme da equipe. Aliás, em termos de live action, esses vilões apareceram na série Smallville em sua última temporada.

Darkseid, o mais maligno dos Novos Deuses, em cena de Smallville.
Darkseid, o mais maligno dos Novos Deuses, em cena de Smallville.

Fãs da DC inevitavelmente gostam de (ou já se depararam com) coisas que envolvem os Novos Deuses. Desde que eles foram criados por Kirby em 1971, inspirados por astronomia, mitologia judaico-cristã e definições muito claras de bem e mal que precedem algumas das mais antigas culturas do planeta, todos os personagens apareceram em diversos momentos importantes para a editora nas décadas seguintes.

Para quem não os conhece, eles fazem parte de uma iniciativa editorial encabeçada pelo próprio Kirby que criava um mundo à parte chamado Quarto Mundo. Ele explicou o surgimento disso mostrando a batalha entre os Velhos Deuses, que resultou na extinção daquele planeta e deu vida ao Quarto Mundo e aos Novos Deuses, logo na estreia deste universo (em New Gods #1, de 1971).

Velhos deuses batalham na arte de Jack Kirby.
Velhos deuses batalham na arte de Jack Kirby.

No espaço, havia dois planetas que formavam um; uma metade boa, Nova Gênese, e uma metade ruim, Apokolips. A primeira, reinada pelo bondoso e sábio Pai Celestial; a segunda, pelo monarca da guerra Darkseid, o vilão mais poderoso do universo – o conceito de multiverso já existia na época, mas o termo não era usado. Pai Celestial e Darkseid fizeram uma troca. Simbolizando a trégua e a paz, um enviou ao outro seu próprio filho, para ser criado como se fosse parte do novo povo. Órion, filho de Darkseid, foi abraçado por Nova Gênese e criado como um igual; Scott Free, filho do Pai Celestial, foi criado em Apokolips como mais um dos escravos, com requintes especiais de crueldade.

A troca remete ao mito de Moisés, assim como ele primeiro cresce sob tutela dos Pesedjet para, só adulto, voltar ao povo hebreu e à tutela de seu deus, Jeová, e libertar seu povo da escravidão pelos egípcios. Aqui, Kirby divide o mito e cria a ideia de como seria se o povo egípcio tivesse dado um filho à um rei-profeta judeu, e recebido deles seu filho em um tratado de paz. Assim como Moisés encontra em chamas que não queimam a palavra de seu deus, Izaya (Pai Celestial) encontra em palavras de fogo a sabedoria da Fonte. Igualmente, assim como Moisés é criado entre o povo egípcio e seus deuses, para só então descobrir seu povo genuíno e ser dele alforriador, Scott Free (nome que remete a expressão da linguá inglesa para “sair livre, ileso, se libertar”) é o deus escapista e da liberdade contra o autoritarismo de Apokolips e Darkseid, que deveria ser seu “pai” mas nunca foi.

Órion, Pai Celestial e Darkseid.
Órion, Pai Celestial e Darkseid.

As revistas de Kirby foram canceladas poucos anos depois, supostamente por baixas vendas (esta informação sempre foi motivo de controvérsia), mas os personagens continuaram lá. O final que ele preparou para eles foi publicado anos depois na forma da graphic novel Hunger Dogs. A maior parte deste material é inédito no Brasil.

Seja em lendárias histórias como Odisseia Cósmica (Jim Starlin & Mike Mignola, 1988), nas animações dos anos 1990/2000 do Superman e da Liga da Justiça ou até nas controversas mas (comercialmente) muito bem-sucedidas Crise Final (Grant Morrison, JG Jones e Doug Mahnke, 2008/2009) e a nova Liga da Justiça (Geoff Johns e Jim Lee, 2011), as criações de Kirby foram fundamentais.

Darkseid (por JG Jones) em peça de marketing da Crise FInal.
Darkseid (por JG Jones) em peça de marketing da Crise FInal.

Elas não serviram apenas de apoio para os super-heróis ou como vilões para eles; na verdade, esses personagens pavimentaram caminhos para mudanças cruciais na DC nos últimos quase 50 anos. E no atual esquema das coisas, com a existência do multiverso na DC, Geoff Johns lançou a ideia de que eles não fazem parte das 52 Terras, vivendo fora do esquema do multiverso e tendo versões únicas em toda a cronologia da editora, o que foi reforçado por Grant Morrison em 2014 com sua obra The Multiversity.

A DC das últimas quatro décadas e meia seria completamente diferente se os Novos Deuses não existissem. Mesmo após o falecimento do Rei em 1994, muito se fez para que seu legado permanecesse vivo, como exemplificado acima. Foram poucos os escritores que fizeram um trabalho aquém do esperado com suas criações. Talvez o exemplo mais simbólico de um caso desses seja o retorno de Jim Starlin a este universo em A Morte dos Novos Deuses, publicada em 2008.

Peça promocional da Morte dos Novos Deuses com arte de Adam Hughes.
Peça promocional da Morte dos Novos Deuses com arte de Adam Hughes.

Tom King tem credenciais fortes na DC. Surgiu lentamente no começo da década e hoje é um dos nomes mais quentes da indústria, sendo responsável por nada menos que a principal revista do Batman desde o Rebirth. Previamente, ele colocou sua experiência de ex-agente da CIA na autoral e “semibiográfica” Sheriff of Babylon e na muito elogiada Grayson, que mostrou Dick Grayson como agente secreto da Espiral durante alguns meses antes de seu retorno como Asa Noturna.

Com a paixão que ele tem demonstrado pelo Universo DC em geral, tornando-se recentemente um contratado exclusivo da editora, fica difícil para o leitor não manter expectativas altas para o que vem por aí. O que quer que King esteja bolando, não será pequeno, e sairá bem no centenário do Rei, assim como o filme da Liga. Isso mostra que a luz de sua criação continua brilhando. Talvez mais do que nunca.

  • IDRIS ELBA RAMALHO

    Seja lá o que Tom King fizer, espero que seja melhor do que essa fase dele do Batman.
    Os roteiros são de uma preguiça que parece que ele tá escrevendo no piloto automático…
    Nem parece que é o mesmo cara que escreveu o Visão, ômega man e Grayson.

  • eu cretino

    A morte dos novos deuses é ótima. – Sem mais.

  • Adriano DeSouza

    Só um King pra substituir outro!