[Terra 10] O que achamos do caso Marvel vs Diversidade

O Terra Zero vem repercutindo o que vem acontecendo com a Marvel desde o encontro Marvel Retailer Summit onde aconteceu a polêmica em que lojistas falaram sobre “diversidade não vender HQs“. Desde então, houve vários textos em sites internacionais mostrando que os problemas da Marvel não são nem de perto apenas a diversidade e as mudanças de seus personagens. Como você vai ver em vários artigos no site ao longo dos próximos dias, Zeronauta. Porém, a equipe do TZ queria púlpito para tecer algumas opiniões. É para isso que serve o Terra 10! A seguir, algumas breves palavras dos nossos redatores sobre o assunto.

Vlad

Eu tenho uma teoria sobre os leitores de quadrinhos americanos. Por causa de problemas como esse da Marvel agora, muita gente começa a tachar os leitores como conservadores, racistas e homofóbicos. Eu acho que não é necessariamente o caso.

Pra mim, o público que compra quadrinho de super-heróis nos EUA é quase sempre o mesmo. É fato que a renovação de leitores dessa indústria é mínima há anos. Portanto, quando o gibi X ou Y de um personagem antigo começa a vender mais, não significa que ele atingiu novos leitores, mas que (1) leitores que acompanhavam esse personagem antes e pararam, voltaram a comprar agora, e/ou (2) que leitores de outros personagens resolveram dar uma chance para este agora. Uma terceira opção, que leitores que nunca leram super-heróis começaram a acompanhar agora por este personagem, é tão ínfima que pode ser desprezada.

Portanto, a primeira parte da teoria é essa: os leitores americanos de quadrinhos de super-heróis ficam se revezando entre títulos, ou param de ler por um tempo e depois voltam quando algo chama a sua atenção. Estabelecido esse ponto mais fácil, vamos para um mais especulativo.

Pra mim, a grande maioria desse público começou a ler quando criança/adolescente, e mantém uma memória afetiva dos personagens da maneira como eles eram na juventude do leitor, em seus primeiros contatos com eles. Portanto, retornos aos clássicos sempre chamarão a sua atenção. E é exatamente nesse ponto que entra a questão da diversidade. Antigamente, quando esses leitores começaram a ler quadrinhos, existia pouca diversidade. Por isso, quando eles veem um quadrinho estrelado por uma mulher, ou que trata de questões como diversidade de gênero, eles não compram. Não por serem contra isso, mas porque não é o que eles estão procurando em um quadrinho, isso não desperta a sua memória afetiva.

Resumindo, a segunda parte da teoria é: os leitores americanos de quadrinhos de super-heróis buscam gibis que despertem a sua memória afetiva. Dado isso, vamos para o ponto conflituoso.
Pra mim, esse público enjoa muito fácil de um gibi. Eles não são mais adolescentes com tempo sobrando, as responsabilidades da vida já estão cobrando demais o seu tempo, e passada a euforia inicial com um título, a sua tendência é parar de acompanha-lo, a não ser que sejam muito fãs do personagem. Na verdade, eu acho que eles querem parar de ler mas não conseguem, é como um vício que você tenta largar mas sempre acaba voltando pra ele.Então, a terceira e última parte da teoria é: os leitores americanos de quadrinhos de super-heróis não conseguem acompanhar um título por muito tempo.

Juntando as três partes dessa teoria, temos que: leitores que não se renovam compram gibis que despertam a sua memória afetiva, porém não conseguem continuar comprando-os por muito tempo.
Considerando que isso seja verdade (não estou dizendo que é, é só uma teoria), o problema maior da Marvel hoje cai no ponto 2, porque eles mudaram tanto os seus personagens que eles não despertam mais a memória afetiva dos leitores, que não se sentem compelidos a comprar. Aliás, esse é o mesmo problema dos Novos 52 e do DC You. Parece que a DC entendeu isso, e está fazendo uma coisa bastante interessante no Rebirth, que é trazendo interpretações clássicas de volta, que despertam a memória afetiva do público, ao mesmo tempo em que mesclam com elementos novos, introduzindo diversidade e outros conceitos novos sem ser muito radical nisso. Mas com o tempo eles fatalmente vão cair no ponto 3, quando os leitores começarem a enjoar de novo. Como resolver esse conflito? Essa é a pergunta de um milhão de dólares, que dá base pra outro textão, mas que seria mais especulativo que esse.

Débora Albuquerque

A minha opinião é que a Marvel está sofrendo o efeito dominó de más decisões editoriais, com os sucessos dos filmes, muita gente começou a comprar quadrinhos, mas poucas continuaram, afinal, ler quadrinhos exige certa dedicação, e para manter este público, a editora resolveu manter sempre a numeração das hqs baixas e assim fazer o público novo sentir que pode ler, porque não tem tanta cronologia por trás. Mas para manter este sistema de constantes renumerações, são necessários eventos que mudem o status quo dos personagens, logo, todo ano tem um mega evento que muda tudo. Porém, os leitores novos não continuaram como eles esperavam, e os antigos começaram a se desgastar do excesso de eventos, títulos e renumerações. Vendo que o público não estava se interessando tanto por esta estratégia, ela resolveu ir para as minorias, uma vez que Kamala e Miles ganharam muita popularidade, por que não apostar nas minorias para ganhar dinheiro? Daí veio a decisão de mudar quase todo seu panteão de heróis por novos, em pouco tempo a Marvel substituiu Wolverine, Hulk, Homem de Ferro, Thor, Gavião Arqueiro e parcialmente o Capitão América, heróis extremamente populares. Algumas mudanças até tiveram impacto como da Thor, mas a maioria não foi bem sucedida, porque não dá pra você colocar um personagem novo do nada para substituir um clássico, sem preparar o leitor antes, leitor de hqs é apegado, tanto a cronologia quanto a personagens.

Soma-se isto a tentativa da Marvel de tentar substituir os mutantes pelos inumanos no coração do público, algo que não deu certo,uma vez que são equipes diferentes, tanto em conceito quanto em execução, querer substituir uma pela outra, seria como trocar bananas por maças, e o evento Inumanos v X-Men não foi tão bem sucedido quanto o esperado. Como tentar substituir os mutantes não deu certo, vemos que a editora está querendo voltar com a equipe ao auge dela nos anos 90, porém, sem trabalhar questões sociais, e X-Men que não discute questões sociais são só uma sombra da equipe, sem falar que as equipes criativas são bem fracas para os “novos” títulos dos mutantes.

Há também o fator da Marvel tentar aproximar as HQs dela com os filmes, algo que tem desagradado aos antigos leitores e também não conquistou fielmente o público dos filmes.

Então, a Marvel tem sofrido por uma série de decisões erradas, e como diria a minha mãe ” a corda sempre pende pro lado mais fraco” assim, é mais fácil culpar que tem mulheres, negros, latinos, asiáticos e lgbts nas capas do que assumir a falha no planejamento.

Diego Bachini

Fui olhar o que sempre gostei. Números. E números mentem. muito. Já fazia um bom tempo que eu falava que queria pegar uma série e analisar o real comportamento de vendas delas. Selecionei Old Man Logan, uma das poucas séries com numeração mais alta na Marvel e peguei todos os números da Diamond.

Fiz três comparações em porcentagem. Em uma a relação com o mês anterior que é o que normalmente as pessoas só olham. Uma em relação a edição 1 pra saber quanto da venda estratosférica da primeira edição se mantêm. E uma em relação a 3 meses antes, o que indica o tempo que o lojista teve pra pedir a revista (agora em abril por exemplo, se pedem as revistas de julho, então nesses pedidos temos uma noção do que é sucesso ou o que vende até esse mês). O que é possível observar nos gráficos:

Hoje a média de vendas de Old Man Logan é de aproximadamente 38% do número de vendas da edição 1, quase 40 mil;

No terceiro mês os lojistas solicitaram 35% das revistas comparando com o primeiro mês, 58% das que foram pedidas no segundo. Ou seja, nos dois primeiros meses após o lançamento, os lojistas preveem uma queda de 60% em relação ao anterior. Os pedidos são sempre feitos 3 meses antes do lançamento das hqs. Quando chegamos em abril, as vendas em fevereiro fazem a hq voltar a subir as vendas. Esse valor se reflete com pouca diferença em maio. Ocorre, porém uma brusca queda em junho, o que significa um reflexo de abril.

No caso de Old Man Logan, o primeiro arco/encadernado fecha em abril justamente na edição 4. Em abril, julho, novembro e fevereiro (17), aonde tivemos 2 edições por mês, os valores são idênticos de vendas, sempre com a segunda edição do mês com valores menores. Justamente esses meses são os de fechamento de encadernado, e por isso a edição que abre o encadernado seguinte é lançada. O motivo não posso afirmar, mas parece ser para segurar as vendas da revista, não deixando a mensal morrer em prol dos encadernados. A Marvel lança encadernados na sequência do fechamento do arco, então faz com que as edições de abertura do seguinte estejam frescas nas lojas.

O final do segundo encadernado na 8 já vemos que os lojistas têm uma noção melhor que a série é capaz, em maio eles perceberam isso e dali pra frente temos uma constância.

Old Man Logan ainda por cima não teve a “capa da edição que tem um número 1 na frente mesmo não sendo número 1”. Por isso mesmo é um exemplo mais sólido de como ver não só como funcionam as vendas americanas, mas o que representa as vendas de um número 1 e quanto tempo leva para o mercado definir qual é o real número de vendas de uma revista.

É possível aplicar todo esse conceito com outras séries. Veja por exemplo Spider-Man do Miles Morales. Quedas como a do mês de março de 2016 são totalmente justificadas pelas lojas avaliando situações de risco. Na edição 6 a revista começa a se estabilizar e com isso temos seus valores mais reais de venda. A entrada de Miles para o Universo 616 subiu bastante as suas vendas se comparadas com suas fases anteriores. Enquanto sua série de 2011 tem uma média final de 29331 (considerando a mini de Cataclismo parte da série), na de 2014 tem 30467, a atual está em 40773, e mesmo se for feita a média apenas da 6ª edição para frente quando chegamos ao patamar estável, ela ainda supera em mais de 5 mil as anteriores.Com isso podemos afirmar que a chegada de Miles ao universo 616 ampliou ainda mais suas vendas.

Outra coisa, os dados de março: A capa de Spider-Man Vol 2 12 tem o número 1 na capa por ser parte do Marvel Now. É uma informação que ainda não temos e veremos o quanto o número 1 “falso” influencia.

Leandro Damasceno

O grande problema dos reiniciamentos constantes é que fica difícil demais acompanhar as séries. Não dá pra saber quando uma parada terminou, apesar de, em teoria, sempre sabermos onde uma nova história começa. Só que este “começo” não é um começo de fato, uma vez que o nº1 é um stunt de vendas mais do que o início de uma temporada. A nº1 dá continuidade à linha narrativa que já vinha acontecendo. Então, por exemplo, Invincible Iron Man #1 tem a Riri Williams como IronHeart e dá pra ler numa boa, mas a história dela não começa em Invincible Iron Man #1, começou muito antes. Assim acontece com quase todos os títulos da editora. Até eu, que sou leitor antigo, não sei muito bem por onde começar se eu quiser ler, por exemplo, Inumanos.

Inumanos de Paul Jenkins e Jae Lee.

Felipe Morcelli

Meus dois centavos:

Há várias coisas que soam engraçadas em ver o Terra Zero comentar, com profundidade e profissionalismo, a situação editorial de uma empresa que sempre foi motivo de tiração de sarro nos primeiros seis anos de vida do site, quando falávamos só de DC. Mas não tem graça nenhuma no que está acontecendo agora, e não é porque o site hoje cobre quadrinhos em todas as suas formas e idiomas; é porque a crise da Marvel ultrapassa qualquer rivalidade (saudável ou não) entre fãs e empresas. Ela é um reflexo da complicada relação, inexistente no Brasil, entre consumidores, varejistas, distribuidora (só existe uma lá fora, a Diamond) e editoras.

Mais jovem, quando estudava administração de empresas no colégio, um professor mostrou um vídeo do Professor Marins dizendo que, se o McDonalds fosse ouvir o que o brasileiro quer antes de chegar aqui, eles seriam a maior franquia de arroz e feijão do mundo. Ele tem razão. A maioria dos leitores médios de quadrinhos de super-heróis quer (e o trocadilho é proposital) o arroz e feijão. Querem que Clark Kent seja o Superman, que Peter Parker seja o Homem-Aranha etc. Isso não mina o esforço dos editores e artistas de quererem que representatividade seja o nome do jogo, mas isso não vai resolver quando se fala de representar todo o espectro de leitores que consomem HQs de super-heróis. Se resolver, será a curto prazo, como tem acontecido na Casa das Ideias. O nome do jogo deveria ser equilíbrio.

É equilíbrio para a Marvel (que é o tema deste texto, mas isso vale para qualquer outra editora) dar: aos seus personagens, novos e antigos; à contratação de profissionais e o devido respeito por eles; aos preços, para ser competitiva no mercado; aos leitores, pesquisando com ferramentas sólidas quais parcelas do público querem o quê.

Em poucos meses, a Marvel fez todo mundo engolir, de uma só vez, uma nova “Homem” de Ferro, um novo Homem-Aranha, um novo Capitão América, uma nova Thor etc. Chegou ao ponto de o Homem de Gelo “virar” gay, o que não fazia sentido nenhum com o legado do personagem.

Todos esses super-heróis, porém, são interessantíssimos. Aqui no site comentamos em diversos ComicPods, resenhas e tudo mais como Miles Morales era um Homem-Aranha mais interessante que o Peter para o mundo de hoje, por exemplo; o mesmo com Jane Foster, a maravilhosa Kamala Khan e assim por diante. O problema não está no que foi feito, está em como foi feito. Empurrar goela abaixo diversidade em quem nunca teve educação pra isso (o típico leitor médio de quadrinhos) gera revolta e até repugnância. Alguns são mal-intencionados, sim; intolerantes. Mas outros, não. Outros precisam entender por que aquilo está acontecendo, pois eles não conseguem ver o tempo todo como os quadrinhos refletem o que acontece no mundo lá fora.

Acredito de verdade que a diversidade precise permanecer, ela é fundamental! Acredito também que ela não seja a principal causa da crise comercial-editorial da Marvel. Porém, sou da opinião de que a abordagem precise de outro sentido: educação. Ensinar às pessoas que não tiveram educação para pensar de forma mais aberta ou que são intolerante sem realmente saber por quê. As coisas só mudam com boa educação e, desta vez, diferente do que aconteceu nos primeiros 20 anos da empresa, o público não foi educado para as novas mudanças. Não houve explicação. As coisas simplesmente aconteceram, sem razão, sem satisfação. Ninguém é obrigado a aceitar as coisas de forma tão brusca.

Portanto, público, exija da editora o que eles podem dar; editora, não exija do público que eles mudem de ideia do dia para a noite. Não vai funcionar.

Arte de divulgação para Generations com as duas versões do(a) Thor.
Arte de divulgação para Generations com as duas versões do(a) Thor.

Pedro “Ninfeto” Kobielski

Desculpem pelo textão, mas eu precisava desabafar no ombrinho de vocês. <3

Bom, em primeiro lugar é importante pontuar que a diversidade não é o principal problema. O primeiro e maior problema de todos é o excesso de eventos que reiniciam toda a cronologia da Marvel de 6 em 6 meses. Isso torna praticamente impossível para um ser humano normal acompanhar algum título da Casa das Ideias e não, isso não é exagero.

Imagine uma pessoa que teve que deixar de acompanhar quadrinhos por um ano apenas. Imagine que esse leitor teve um filho, passou por um aperto financeiro, juntou dinheiro para comprar uma casa ou um carro; ou seja, imagine que esse leitor é um ser humano normal e sujeito a qualquer uma dessas situações. Se ele tivesse abandonado a Marvel um ano atrás e retomasse suas leituras agora, ele encontraria uma Marvel onde [SPOILER] Ciclope está morto, Tony Stark foi substituído por uma adolescente negra, os Inumanos não estão mais presentes, o Capitão América é um agente da Hidra e o Magneto é nazista. TUDO isso aconteceu no últimos 12 meses. Ninguém pode discordar que se trata de um exagero editorial, que eventualmente desgastará os leitores. Sejam eles antigos ou não.

Outra questão é a desvalorização do papel do criador, o que não é novidade para ninguém que acompanha minimamente a Marvel. Desde os anos 1970, quando a rixa entre Jack Kirby e Marvel se tornou pública, a editora tem sofrido severas críticas quanto á sua política de valorização de artistas, movimento que teve seu ápice no início dos anos 1990, quando McFarlane e cia abandonaram o barco e deixaram a Marvel com as calças na mão. Desde então, parece que a Casa das Ideais pouco aprendeu com seus erros. Artistas continuam sendo pouco valorizados e tratados como meras peças substituíveis, já que todas as histórias vem encomendadas e há pouco espaço para autoralidade. É um problema histórico, mas que talvez agora, devido aos “vazamentos” (ponho entre aspas pois me recuso a acreditar em ingenuidade nesse meio de cobras criadas), possa finalmente receber atenção dos executivos.

E, finalmente, vem a questão da diversidade – mais especificamente, a substituição de personagens consagrados por outros, mais jovens e pertencentes a minorias. Creio que os leitores tradicionais de quadrinhos (estes que foram tão massacrados por David Gabriel) até aceitam personagens desse tipo substituindo outros, desde que:

1) O personagem “substituto” seja bem estabelecido e popular;
2) O personagem “original” não seja totalmente esquecido.

Exemplos bem sucedidos não faltam, mas os dois que vem á cabeça de imediato são Wally West e Dick Grayson, que substituíram, por um tempo, respectivamente Barry Allen e Bruce Wayne.

Wally foi moldado durante décadas como um aprendiz, conhecendo tudo sobre ser um herói com seu maior ídolo de infância. Aí quando Barry se sacrifica heroicamente para salvar a humanidade da Crise nas Infinitas Terras, é natural que o Wally assuma seu posto. Tanto que Wally foi o protagonista das histórias mais queridas pelos fãs do Flash até hoje.

E Dick Grayson é um caso semelhante, mas ainda mais emblemático. Quando Bruce Wayne se sacrificou para derrotar Darkseid e salvar a humanidade da Crise Final (notaram um padrão?), Dick Grayson tinha quase sete décadas de caminhada, passando por um longo período de provação como Robin até virar o Asa Noturna – um dos heróis mais queridos dos fãs da DC. Ou seja, novamente, houve uma preparação para que o Dick assumisse o manto do homem-morcego.

Ou seja, fãs de quadrinhos até são capazes de aceitar essas mudanças, mas não aceitam que elas sejam feitas de maneira brusca, ainda mais sacrificando os personagens clássicos de maneira grosseira (que, cá entre nós, foi como a Marvel desativou Bruce Banner e Tony Stark).

A Marvel tem todas as condições de mudar seus rumos narrativos e apresentar histórias mais competentes aos seus ávidos fãs. Mas, para isso, precisa repensar o exagero editorial das fáceis e desinteressantes megasagas, valorizar seus artistas e tratar com respeito tanto os velhos quanto os novos personagens. Que foram, basicamente, os fatores que levaram aquela nanica editora de Nova York a virar a maior referência em qualidade de histórias em quadrinhos no mundo inteiro. É tempo de recuperar esses valores.

Delfin

Vamos lá. Eu acho que os argumentos colocados no Marvel Retailer Summit são estranhos, pra começar. Acho ainda mais estranho uma reunião desse porte ser feita na sede da editora, mas eu não conheço os meandros que levaram as coisas a serem assim. Enfim, eu gosto de estranhar as coisas e este é um bom começo para perceber que tem coisas esquisita ali.

Existe, me parece, um processo de culpabilização do inocente. Nesses tempos de recrudescimento do espectro ideológico de direita, eu deveria achar incrível isso acontecer, mas não acho. Acho só tosco. Afinal, estamos em 2017 e o que me choca (não deveria, mas choca) é o fato de muita gente ainda andar com o freio de mão puxado, tentando parar um carro com potencial de velocidade incrível. O nome do carro é diversidade e o nome do freio pode ser conservadorismo, status quo, perenidade, encaixe aí que você já entendeu.

Parece, para mim, que há setores da Marvel que não querem assumir suas próprias culpas e culpabilizam outros fatores, criando uma pós-verdade na qual ela está certa e o resto do mercado é que está errado. O processo de legado da Marvel é correto, mas atômico, ultrassônico, forçado. O excesso de megassagas é exaustivo. A mudança constante nas equipes criativas fazem o leitor ficar tenso, confuso e, muitas vezes, com birra. Leitor pode ter birra. A questão é entender os motivos e não sei se eles entendem.

Sobre ouvir os lojistas: tá, é importante, mas deixar que opiniões comerciais ditem um negócio que depende da criatividade, de ideias, de conceitos, de inovação? Departamentos comerciais classicamente são conhecidos como inimigos da criatividade, com conceitos bastante ortodoxos e que, quando desafiados, não se saem bem no quesito “ouvir o outro lado”. Acontece muito mais do que se deveria em empresas de comunicação. E isso nunca é bom.

O legado, a inclusividade, são caminhos corretos, necessários e que são o futuro. Resta à Marvel entender como fazer com que as mentes que recebem esta informação, os leitores, aceitem este futuro. E aí tenho de concordar plenamente com o Felipe: educação. Senão, é a vitória da pós-verdade, dos que acham que o mundo tem de continuar a ser como era no passado. E cada um que encaixe sua caveira do passado aqui.

Pablo Sarmento

Normalmente eu tento ter uma visão mais analítica do que vem acontecendo. Falei sobre isso várias vezes em textos diferentes e em um vídeo do 2 Quadrinhos. Em ambos os casos sempre teve alguma crítica e dizendo que estava procurando pelos em ovos. Os movimentos da Marvel eram bastante previsíveis e agora tudo está estourando junto. Mas vamos aos fatos:

1) Diversidade é a culpada?

Não! Não é. Existem vários ótimos personagens criados na Marvel que funcionam muito bem dentro da editora, criaram novos leitores e conseguiram se aproximar bem de minorias que não tinham espaço nos quadrinhos.

2) O lojistas estão errados em criticar essa diversidade?

Sim. Estão. O formato de comic shop se mostra defasado e essas empresas não conseguem vender bem novas ideias. Você pode ter um excelente gibi sendo feito e não emplacar nas lojas apenas pelo motivo que não existe um “vendedor” na loja para apresentar novidades ou indicar algo de acordo com o que o leitor está procurando.

Porque vamos lembrar que o público de HQs não se atualiza tem tempos. É difícil uma pessoa passar à comprar HQs em um mercado tão fechado como o do EUA em comic shops. Criar novos leitores demanda tempo. Marvel tentou uma iniciativa que necessita de um longo prazo, porém o varejo e diretores da Casa das Ideias querem resultados rápidos.

3) Falta boas histórias e a cronologia tá bagunçada?

SIM! ISSO! Desde Guerras Secretas você precisa de um manual de instruções para entender o que está acontecendo dentro da Marvel. Imagina que você parou de ler 3 meses a editora e volta, não tem Quarteto Fantástico, Peter anda de bug-aranha, o Miles agora tá no 616 (não que isso seja ruim), e Wolverine está morto e a X-23 é a atual dona do manto. Isso tudo acontecendo em menos de 6 meses. Isso cria um ranço dos velhos leitores que vão culpar a diversidade e dizer que tudo está errado. Quando na verdade é tudo nostalgia gritando em seus ouvidos ou algum tipo de conservadorismo besta, para ver homens de collants.

Acho que podemos ir além disso. O mercado de quadrinhos não absorveu bem esses monte de mudanças anuais da Marvel. Ela vende a ideia que quer fazer HQ com “temporadas” mas o problema é que você é obrigado a ler 10 revistas para estar pelo menos entendendo o que se passa lá. Fora as mega sagas sem noção (Guerra Civil 2, abraço), feitas apenas para capitalizar em cima dos filmes.

A diretoria da Marvel cisma em achar um culpado, quando na realidade tudo tem a ver com simplificar as coisas e atender melhor todos os públicos. Ao mesmo tempo que os varejo tem que se modernizar e buscar atender melhor esses neófitos que chegam no mundo das HQs.

Phelipe “Lib” Peregrino

Vou tentar não me estender muito, então vamos lá… No que diz respeito ao argumento de que “os leitores não querem saber de inclusão”.
A Marvel está culpando o elo mais fraco nessa história, na minha opinião. As histórias estão fracas. Mas… “Ninguém compra porque os heróis são de legado e de minoria”. Não… Ninguém compra porque as histórias estão fracas!A Marvel se embriagou de uma fórmula que deu certo. Agora está curtindo a ressaca e culpando a pessoa errada. Ora, lá atrás, há alguns anos, a Marvel introduziu o Miles Morales e alguns anos antes, a DC tinha introduzido o Jaime Reyes como Besouro Azul. Só para citar um exemplo de cada editora de um personagem de minoria assumindo o manto. Os dois casos, eu acho que posso dizer com segurança, foram grandes sucessos.E aí veio a majestade: Kamala Khan. Cara! Que acerto lindo! Que personagem incrível! Que HQ foda! Ela “criou um gênero”. Veio uma galera de carona nesse “hipster way”: Batgirl, Spider-Woman, Canário Negro… Só que aí a gente caí no que eu disse do “embriagar”.
Há muito tempo, lá na faculdade, um professor meu falou uma vez: “quando se tenta dar destaque pra tudo, nada ganha destaque”. Com o DC You a DC tentou fazer com que toda a sua linha editorial tivesse esse “toque”. Fracassou. Agora, a Marvel caiu na mesma armadilha. Fracassou.

De quem é a culpa?

Dos personagens de legado? Das minorias? Ora, porque enquanto as histórias estavam boas e interessantes, esses personagens se destacavam e se popularizavam rumo ao horizonte, mas as vendas caindo por conta da qualidade questionável das histórias joga a culpa nos personagens?

O mais triste disso é ver que, agora, as duas editoras vão poder alegar que “nós tentamos dar uma chance para esse tipo de história e não deu certo, por isso, toma aqui, mais uma saga Homem-Aranha vendendo a alma pro diabo”.

Spider-Woman #1 - Javier Rodriguez - Marvel Comics
Mulher-Aranha #1, por Dennis Hopeless e Javier Rodriguez

Igor Tavares

É difícil comentar algo novo sobre o assunto da proverbial “Crise” na Marvel. Primeiramente, porque temos uma equipe ótima no Terra Zero que já apontou as principais causas da perda de mercado para DC e outros concorrentes de forma extremamente precisa. Segundo porque as tais causas são tópicos que nós, entusiastas e profissionais do meio, estamos carecas de falar semanalmente. Portanto quando há admissibilidade por parte da empresa de que há um problema e o apontamento de fatores que levam a esta “crise” vem à tona, fica difícil não levantar o estandarte do “Eu já sabia!”.

A Marvel nos últimos anos tem adotado um modelo de auto mimetização em estratégias editoriais: Isso significa que se algo tem boa aceitação, a empresa repete a prática a exaustão visando maximizar o lucro até o esgotamento da ideia. Isso ocorreu com sagas e tie ins, relançamentos em sistema de temporadas, linhas narrativas baseadas em premissas polêmicas sustentadas por marketing massivo e finalmente legados e diversidade. Em 2017 na Marvel portanto, temos tudo isto ao mesmo tempo sendo jogado na cara de leitores que, em sua maioria, só querem boas histórias para passar seu tempo livre. Quando as histórias ficam em segundo plano em favorecimento de uma estratégia de vendas que não escuta público e lojistas (ou escuta de forma unilateral) este é o resultado: Uma evasão gradativa.

É muito importante para nós como público no entanto, identificar através de leitura de fatos (por meio de veículos sérios) e interpretação de informações, que a empresa não atribui exclusivamente a queda de vendas a um público que não quer diversidade em seus quadrinhos. Há sim uma interpretação binária e simplista da Marvel de números fornecidos pelo varejo, o que, infelizmente resultará em medidas ainda mais simplistas e retrógradas por parte de uma editora que vinha sim, de forma desordenada e muitas vezes apelativa, fazendo esforços notórios pela diversidade não só em seus personagens, mas em suas equipes criativas. Em horas como essa, é importante ponderar e identificar onde a Marvel acerta e onde exagera ao invés de simplesmente condenar práticas que poderiam funcionar bem se usadas com parcimônia.

Essas são as opiniões da nossa equipe. Fique ligado no Terra Zero que vai ter mais textos aprofundando nas causas do que vem acontecendo na Marvel.

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