[Review] X-Men Prime #1, de Guggenheim, Lashley e outros

A Marvel tem o costume de lançar edições únicas introdutórias ao iniciar uma nova fase nos títulos principais de sua linha de quadrinhos. As revistas seguem um modelo já meio padronizado, com uma história central guiando o leitor através desta nova proposta, com pequenas cenas apresentando os demais títulos da linha em questão. X-Men Prime trata-se justamente deste tipo de prólogo. Aqui vemos uma história central apresentando a equipe do vindouro título X-Men Gold de Marc Guggenheim e pequenas cenas intermediárias que dão amostras das novas X-Men Blue de Cullen Bunn Weapon X do autor Greg Pak – estes, os três primeiros títulos da linha mutante em 2017 pós-Inumanos versus X-Men. Portanto, para quem vai tentar novamente embarcar no Universo X da editora, este aqui é um aperitivo do que podemos esperar para 2017 nas franquias mutantes.

Na história central, Guggenheim mostra o retorno de Kitty Pride aos X-Men após sua longa estadia no espaço, vivendo aventuras com os Guardiões da Galáxia. Aqui, a personagem é retratada como uma adulta madura e ciente de suas responsabilidades como pupila de Charles Xavier. O recrutamento da heroína e feito por Tempestade, em diálogos simples e intimistas que mostram o quanto Ororo se arrepende de suas atitudes na guerra contra os Inumanos. Guggenheim conduz a história (que é praticamente só diálogos) de forma elegante e natural, demonstrando ter muita intimidade com o elenco e sem forçar cenas de ação gratuitas.

O passeio pelos eventos recentes na linha dos X-Men tem dupla função: familiarizar novos leitores com o panorama atual dos mutantes e direcionar a equipe principal para uma rota aparentemente mais positiva do que a trilhada no último volume da série. O retorno de Kitty culmina em sua ascensão como líder da equipe dourada dos Filhos do Átomo e uma mudança brusca e até inesperada da atitude do time daqui para frente, representada pela realocação da Escola para Jovens Dotados para uma localidade muito conhecida de Nova York. A arte de Ken Lashley não impressiona, mas corrobora bastante para o tom mais sereno e altivo deste retorno da Lince Negra aos X-Men. Nas horas que se faz necessário, o ilustrador consegue transmitir a emoção nos diálogos de Guggenheim sem maiores dificuldades. Além de uma caracterização que não compromete e enquadramento fotográfico sóbrio não há muito o que destacar na arte desta história.

A história de Greg Pak para Weapon X é protagonizada por Lady Letal. Temos cenas bem curtas mostrando um recrutamento involuntário da personagem para uma equipe de personagens mutantes agressivos, a contragosto dos mesmos. O tom da equipe fica bastante claro na história como um misto de Thunderbolts com Esquadrão Suicida, no qual os membros são forçados a cumprir missões arriscadas por uma força governamental ou para-militar. A arte aqui fica a cargo de Ibraim Roberson, que faz um trabalho bastante marcante na caracterização tanto de Yuriko Oyama quanto da nova personagem chefe da Arma X chamada Carla. Em poucas páginas e mesmo com uma premissa bem manjada a arte se destaca bastante pelo cuidado no acabamento e precisão fotográfica na cena de ação.

A história de Cullen Bunn apresentando a equipe azul dos X-Men é a mais curta e direta. Basicamente,i o autor reúne novamente os X-Men que foram “arrancados” dos primórdios da equipe por Hank McCoy (também conhecidos como A Primeira Classe ou “os X-Men novinhos”). A principal função da história de Bunn é reforçar o fato de que a liderança desta nova velha equipe fica a cargo de Jean Grey e mostrar que a personagem cresceu bastante desde sua chegada aos tempos atuais. Bunn escreve Jean muito mais racional e sensata nesta equipe, sem os trejeitos mimados e irritantes das histórias de Brian Michael Bendis. Outro ponto a ser destacado é a ruptura da equipe azul com o restante dos X-Men. Fica claro aqui que o grupo seguirá seu próprio caminho e terá histórias e decisões independentes da equipe que ficará na escola, liderada por Kitty Pride. A arte de Leonard Kirk não impressiona mesmo tendo em suas mãos uma pequena história que se passa praticamente por completo dentro da sala de perigo durante uma simulação de combate. Temos aqui muita ação super-heroica genérica e sem apelo visual algum, apesar de bastante eficaz para este tipo de roteiro.

Quem acompanha a linha de títulos dos X-Men sabe que a franquia nos quadrinhos vem amargando um marasmo narrativo pontuado por pequenos arcos aceitáveis desde antes da saga Vingadores versus X-Men. Entra equipe e sai equipe e a Marvel não consegue emplacar algo que de fato empolgue os fãs com estas leituras ou que atraia novos leitores. X-Men Prime nos mostra uma proposta honesta de quadrinhos mutantes: duas equipes de X-Men distintas; um direcionamento simples e claro para cada uma delas e, correndo por fora, um novo título na forma de Arma X que pode surpreender por ter um elenco muito forte em histórias um pouco mais sombrias. Não temos aqui a salvação dos mutantes, mas, para os fãs quem tem boa vontade, o discurso final de Kitty Pride acalenta o coração momentaneamente e injeta certa dose de ânimo para quem quer voltar a acompanhar estes quadrinhos.