[Review] Divinity III: Stalinverse, de Kindt e Hairsine

Universos e linhas temporais alternativas se tornaram um tema tão comum em quadrinhos que, muitas vezes, os próprios leitores tem dificuldade em identificar em qual “Terra” se passa qual história se não houver uma descrição precisa. Desde sua reformulação em 2012, o Universo Valiant destoa de outras editoras adotando um universo unificado e com estrutura temporal relativamente linear em suas publicações. E se você acha que Divinity III com o sugestivo subtítulo Stalinverse é um universo alternativo, está redondamente enganado, camarada.

Divinity III é uma minissérie em quatro partes (e mais quatro edições únicas aprofundando alguns personagens marcantes) que encerra a trilogia iniciada em 2015 pelo autor Matt Kindt (Mind MGMT, Ninjak) sobre os três cosmonautas soviéticos, Abram Adams, Valentina Volkov e Kazmir. Os astronautas partiram em uma missão de exploração espacial no auge da Guerra Fria e adquiriram poderes quase ilimitados de alteração de realidade. Atualmente, os três soviéticos são os personagens mais poderosos do Universo Valiant e considerados uma ameaça, no contexto da editora.

Enquanto a primeira parte da trilogia nos mostrou o retorno de Abram Adams a Terra e Divinity II seu reencontro com Valentina, Divinity III é uma guinada completa de narrativa. Aqui temos um planeta Terra no qual, em 1922, Joseph Stalin assassina Vladimir Lenin e se torna o líder supremo da União Soviética. A partir daquele momento, o estado soviético caminha a passos largos e se torna, gradativamente, a única potência mundial por meio da força. Matt Kindt demonstra, de forma muito clara e resumida, a linha temporal do Stalinverso nas páginas de recapitulação da série, como visto abaixo.

Ao contrário do que se possa imaginar, Divinity III não é tão focada nos personagens que dão nome a série (Adams, Valentina e Kazmir). Aqui vemos Colin King, o Ninjak, como um inusitado protagonista. Ao contrário do que se possa pensar também, este não é um universo alternativo e, sim, o universo Valiant alterado de fato pelos poderes de manipulação de realidade de um dos antagonistas. Aqui, Ninjak é o único personagem que se lembra da Terra antes da alteração de realidade e, agindo como um espião (que de fato é) na KGB, arquiteta um plano para tentar trazer tudo de volta a normalidade. O plano envolve resgatar a memória dos principais heróis da Valiant, agora agentes de opressão da União Soviética.

Divinity III tem um escopo muito mais amplo que as partes anteriores da saga. Aqui, vemos um mundo inteiro dominado pela doutrina socialista soviética e versões extremas de Bloodshot e X-O Manowar, além de uma aparição de Shadowman (mais aprofundada na edição única Battle of new Stalingrad). O roteiro de Kindt é veloz e não faz rodeios. Tudo é muito urgente e direto em Stalinverse. O artifício usado para justificar a alteração de realidade na Valiant é bastante simples, sutil e óbvio. Isso torna este universo natural para todos os envolvidos, menos para o deslocado Ninjak. A caracterização de Kindt para o espião e todo o elenco é muito precisa e é muito divertido ler cenas com o líder Vladimir Putin dando ordens ao novo grupo de seres superpoderosos chamados de Brigada Vermelha.

Ao contrário do que possa parecer, Divinity III é uma leitura de assimilação relativamente fácil para uma audiência não familiarizada. Logicamente, se o leitor quiser se aprofundar mais nas origens dos protagonistas (e aproveitar 100% as versões “comunas” deste universo) é recomendada a leitura das partes anteriores da saga e conhecer os heróis da Valiant através de seus títulos periódicos. No entanto, usando Ninjak como ponto de referência e apresentando o básico deste universo simultaneamente às cenas de ação, Matt Kindt consegue prender a atenção mesmo de um leitor de quadrinhos que talvez não conheça tão bem este universo.

A arte de Trevor Hairsine é funcional, mas tem um ar clássico no decorrer de todo a minissérie. O ilustrador já é velho conhecido entre os fãs da Valiant e leitores de Divinity por sua consistência e atenção à cenários. Aqui, em um roteiro com um elenco mais numeroso, o artista mostra muita intimidade com o universo Valiant, nos presenteia com caracterização icônica destas versões dos personagens, dá dinamismo e brutalidade às cenas de ação e capricha nas referências sci-fi no confronto final da última edição. Uma arte que pode parecer relativamente simples, mas exige cuidado e precisão pois lida com diversas localidades e um roteiro que trata temas abstratos como alteração de realidade.

Divinity III é uma leitura bastante rápida (incluindo seus tie-ins). Matt Kindt consegue abordar o tema de uma realidade alterada de forma simples e eficaz. Um problema detectado nos volumes anteriores, que seria o de que Divinity, Myshka (Valentina) e Kazmir são muito poderosos, é solucionado de forma inteligente, detalhando como funcionam seus poderes de forma breve e objetiva. O autor justifica bem sua premissa, não perde tempo com explicações demasiadas, nos entrega boas caracterizações, apresenta novos personagens muito interessantes, tudo em um roteiro que tem pegada cinematográfica, ação e ritmo para sustentar uma leitura divertida no gênero de sagas super-heróicas. Sustentado por uma equipe de arte que sabe o que está fazendo, isto torna Stalinverse uma leitura muito divertida para fãs da Valiant e um bom convite para novos entusiastas deste universo.

  • Banzé Menezes

    Legal, infelizmente duvido que nós leitores brasucas vamos ler este material em português.

    • Cara, tudo indica que vai sair pela Jambô e com certeza sai no Social Comics. :D

  • Moroni Machado

    Matt kindly bom como sempre