[Entrevista] Thais Aux e a aventura da tradução

Thais Aux já fez bastante coisa no meio editorial. Ela trabalhou na Editora Abril, na revista Atrevida e na Folha de S. Paulo, como designer e jornalista. Convidada para ser tradutora na Panini, é responsável por quadrinhos das franquias Star Wars, Mortal Kombat e Hora de Aventura. Criou o site Doctor Who Brasil. Entre seus gostos pessoais: cinema alternativo, sitcoms, Netflix, Clarice Lispector, Madonna, bonecos Funko, café, entre outras coisas.

Thais mora na cidade de São Paulo com o namorado e dois gatos. O Terra Zero a procurou para bater um papo sobre sua formação, seu processo de tradução e o mercado de quadrinhos no Brasil. O resultado, você confere a seguir.

Terra Zero: Como foi a tua jornada até se tornar tradutora?
Thais Aux:
Uau, pergunta supercomplexa! Vamos lá. Sou formada em Publicidade e fui trabalhar na Abril como designer. Mas lá, acabei virando jornalista, e eles começaram a me passar materiais para traduzir também. Sempre tive facilidade com tradução, e depois de alguns anos, acabei me dedicando exclusivamente a essa atividade.

Como é o processo de tradução de uma HQ?
Cada produto editorial requer cuidados específicos na hora de traduzir, e nas HQs, não é diferente. Pra começar, a maioria das HQs de super-heróis é tudo feito com letra maiúscula! Parece que estamos gritando com todo mundo. As marcações também são super importantes, a gente tem que entender que existem várias etapas no processo, que o letrista precisa saber se vai ter que mexer em algo dentro do cenário, por exemplo. E é muito importante também prestar atenção na arte, muitas vezes ela é que te ajuda a entender o que cada personagem está querendo dizer.

Algumas expressões são extremamente regionais e/ou próprias de uma língua, como você lida com isto numa tradução?
Independente de ser HQ ou qualquer outra tradução, sempre temos que alinhar com o editor se vamos localizar, ou seja, “abrasileirar”, ou manter mais próximo do original. Vai depender do caso. Em Lando, por exemplo, usamos um palavreado mais solto para o personagem. Hora de Aventura também permite brincar mais. Quando o material é mais sério, temos que tomar um pouco mais de cuidado.

Você trabalha com dois extremos na tradução, Hora da Aventura que tem um público infantil como alvo e muitas expressões coloquiais e Star Wars que é uma saga de muitos anos e com um público jovem/adulto. Como é trabalhar com estes materiais e as diferenças entre eles?
Eu não vejo os dois como coisas tão distantes assim. Ambos fazem parte do imaginário popular e têm um público fiel, então é importante conhecer bem todas as referências e ter a voz dos personagens bem claras na cabeça. Em Hora de Aventura, eu simulo tudo na voz do Finn, do Jake, da Jujuba, da Marceline… e com Star Wars, eu penso nas versões dubladas dos filmes também. Esse exercício facilita bastante o trabalho na hora da tradução. O tradutor tem que saber trabalhar com qualquer coisa. Nessa profissão, se traduz desde cardápio de restaurante a manual de instruções de máquinas pesadas. A tradução editorial é só uma entre muitas possibilidades da profissão.

Eu sei que você é muito fã de Star Wars, como é pra você traduzir as HQs desta saga e estar envolvida no processo de trazer este material pro Brasil?
Traduzir as HQs de Star Wars é uma honra e um privilégio, e agradeço ao meu editor, o Levi Trindade, por confiar essa tarefa a mim. Ele é o grande responsável por trazer esse material pra cá. Além do mais, é muito bom trabalhar com toda a equipe da Panini, incluindo a Germana Viana, que é minha amiga pessoal e faz as letras das edições. São pessoas comprometidas e apaixonadas pelo que fazem. Isso faz toda a diferença.

Qual HQ você sonha que venha para o Brasil?
Doctor Who
, é claro!!!

doctor who titan
Quem sabe? A gente torce por esta HQ no Brasil tanto quanto a Thais. E não só do Décimo!

Recentemente você traduziu a HQ Super Hero Girls: Escola de Super-Heróis. Como você vê a importância de um gibi como este?
Eu acho que tanto a DC quanto a Marvel estão conseguindo trazer seus personagens para públicos de várias idades. Os filmes do cinema atendem um público mais adulto, enquanto as animações atingem mais o público infantojuvenil — e isso é muito positivo. Estamos na era do feminismo e do empoderamento, e a iniciativa de levar essas personagens históricas da DC para as meninas é mais do que certeira, desde pequenas elas já tendo contato com exemplos positivos e mais pra frente, podem se interessar pelos quadrinhos e filmes, conhecendo as histórias mais a fundo. É sucesso!

Como você vê a inserção de mulheres no mercado de quadrinhos, tanto na produção quanto na execução deles?
Eu acho positivo, mas acho que ainda tem pouca representatividade. O mundo dos quadrinhos sempre foi predominantemente masculino. Nos últimos anos, têm aparecido mais mulheres como Gail Simone, Kelly Sue DeConnick, Babs Tarr e G. Willow Wilson. Ainda assim, o público de HQs continua sendo, na maioria, homens. Temos uma ou outra mulher perdida por aí lendo, e menos ainda produzindo. Temos uma iniciativa incrível acontecendo no Brasil, que é o selo Pagu Comics dentro da plataforma do Social Comics, liderado por Ana Recalde e com nomes grandes das HQs brasileiras, como Germana Viana, Cris Peter e Milena Azevedo. Porém, sinto que quadrinhos só são consumidos no Brasil por quem também produz, e não deve ser assim. Quadrinhos brasileiros deveriam estar sendo consumidos em larga escala, sendo vendidos na banca, tanto quanto a Mônica, Marvel e DC e mangás. Mas isso ainda não acontece, por uma série de fatores.

Você tem dicas para quem quer seguir o ramo de tradução?
Para ser bom tradutor, é preciso conhecer muito bem a língua portuguesa (sim, a nossa língua!), principalmente no quesito escrita. Ler muito e sempre procurar referências. Ser curioso, saber caçar informações, perguntar detalhes técnicos para especialistas, enfim, tudo isso é muito mais importante do que simplesmente saber falar a língua que se está traduzindo. Realizar cursos também é uma ótima oportunidade de se manter atualizado. Estar sempre por dentro dos assuntos da área, como os eventos da Abrates [Associação Brasileira de Tradutores], da Casa Guilherme de Almeida, entre outros. Não acho que uma formação em Letras seja absolutamente necessária — conheço muitos tradutores que são de áreas completamente diferentes, como química, engenharia e até comunicação, como é meu caso –, mas ajuda. E saber que a rotina de trabalho vai ser geralmente como home office, ou seja, gerir a própria profissão, ser um pouco empreendedor e de vez em quando trabalhar de fim de semana ou feriado — mas tem vezes que você fica com os dias da semana livres. Mas acima de tudo: curtir o que se faz. Esse é o segredo do sucesso, pra tudo.

E quais teus quadrinhos favoritos, que você recomenda pro pessoal?
Olha, vou confessar que sou Marvete, viu? Gosto muito das Runaways, do Demolidor do Mark Waid, da Kamala Khan, da Capitã Marvel, da Feiticeira Escarlate e da Viúva Negra. Gosto dos grandes eventos também, como Avengers vs X-Men, que reúnem todos os heróis. Da DC, a Mulher-Maravilha é minha queridinha, assim como a Zatanna. Gostei muito da HQ Liga da Justiça Dark. Também gosto do Flash, do Superman e dos Lanternas Verdes. E claro, dos grandes eventos, como Renascimento, que tá incrível. Do Brasil: todos do selo Pagu Comics, que em breve também terá um título meu! As graphic novels do MSP também estão ótimas. Lizzie Bordello, The Fewand Cursed, Valente, todas essas são incríveis. E claro, impossível não recomendar Sandman, né? Neil Gaiman é um dos meus autores favoritos!

Thais, muito obrigada pela entrevista, foi muito bom conhecer mais do teu trabalho como tradutora, e obrigada por ajudar a trazer os quadrinhos de Star Wars para a gente. Tem algum recadinho que gostaria de deixar?
Meu recado é apenas: continuem a ler quadrinhos e a divulgar a 9ª Arte por aí. É um mundo riquíssimo e vasto para ser explorado por mentes curiosas e que buscam algo além.

  • Olha só, não sabia que aquela guria que conversei algumas vezes online por conta de Doctor Who tava fazendo tanta coisa. Parabéns Thais!