[Editorial] O FIQ e as veias abertas da cultura nacional

Você sabe que o tema deste editorial, abrindo esta semana, só poderia ser o iminente fim do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), que, em 2017, se ocorrer, completará 20 anos de existência. Para conduzi-lo por este assunto, primeiramente é necessário um pouco de contexto.

O evento foi oficialmente colocado em xeque na última quarta-feira, 5 de abril, quando ocorreu audiência pública da Comissão de Orçamento e Finanças Públicas da Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte (MG). Na ocasião, houve reivindicações de artistas, servidores, gestores culturais e parlamentares para a revisão orçamentária da Fundação Municipal de Cultura (FMC), que tem previsão de verba de R$ 62 milhões, conforme a Lei do Orçamento Anual para 2017. Ocorre, no entanto, que o FIQ, apesar de continuar no calendário de eventos da cidade, não está contemplado com verba municipal para este ano.

Audiência pública realizada na Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte (MG), em que foi revelada a falta de previsão orçamentária para a realização do FIQ em 2017.
Audiência pública realizada na Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte (MG), em que foi revelada a falta de previsão orçamentária para a realização do FIQ em 2017. Foto: Abraão Bruck-CMBH.

A notícia atingiu o mercado brasileiro de quadrinhos em cheio, trazida à tona pelo jornalista Paulo Ramos no dia seguinte aos fatos, via Facebook:

Em primeira mão: Prefeitura de Belo Horizonte não incluiu o FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos) na verba de…

Publicado por Paulo Ramos em Quinta, 6 de abril de 2017

O coordenador do festival, Afonso Andrade, divulgou na manhã de sexta-feira (7), pela mesma rede social, uma posição pessoal acerca do ocorrido:

Gente querida. Desde ontem tenho acompanhado todas as manifestações. As informações que tenho são as mesmas que foram…

Publicado por Afonso Andrade em Sexta, 7 de abril de 2017

Um dos curadores do FIQ, Daniel Werneck, na tarde de sexta, fez uma declaração também via Facebook, procurando esclarecer alguns pontos que, até aquele momento, estavam nebulosos para muitos:

Mais de 300 pessoas já reclamaram na página da prefeitura, meu chat aqui está lotado de mensagens, então deixa eu tentar…

Publicado por Daniel Leal Werneck em Sexta, 7 de abril de 2017

O texto de Werneck é esclarecedor em alguns pontos. Primeiro: a questão é prioritariamente financeira. Segundo: apesar do FIQ, recentemente, ter enfrentado problemas financeiros para sua realização, até aqui sempre superados, neste ano a situação é extrema. Ele também deixa claro que o FIQ não foi o único evento do calendário oficial da cidade a ser atingido pela falta de previsão orçamentária: também a Virada Cultura de BH e o Festival de Arte Negra (FAN) foram pegos em cheio.

A postagem que Werneck cita como tendo centenas de manifestações pró-FIQ em seus comentários foi feita pela Prefeitura Municipal de Belo Horizonte e, nela, é exaltado o fato da cidade ser multicultural. A postagem foi feita às 4 da tarde do dia em que houve a audiência pública em que foi revelada a atual não destinação financeira do Festival Internacional de Quadrinhos na capital mineira. Até o momento da redação deste editorial, mais de 800 comentários haviam sido feitos, em sua imensa maioria se referindo ao FIQ e escritos por pessoas atuantes, de algum modo, no mercado nacional de quadrinhos.

Uma cidade multicultural como BH tem que aproveitar esse potencial! 🎤🎭🎨🎸🎻Grupos conhecidos, como o Corpo e o 1º Ato,…

Publicado por Prefeitura de Belo Horizonte em Quarta, 5 de abril de 2017

Conforme apontado por Lucas Ed em um dossiê muito completo para a compreensão do caso para o site Melhores do Mundo, a situação financeira da Fundação Municipal de Cultura vem se degradando desde 2014, devido à perda do valor monetário do Real. O mesmo texto destaca o pedido de exoneração, no mesmo dia da audiência pública, do então presidente da FMC, Leônidas Oliveira. Foi a primeira baixa no alto escalão da atual gestão belo-horizontina.

A permanência de Oliveira no cargo, posição que ele ocupava desde 2012, era tida como positiva por fomentadores culturais de Belo Horizonte, após a eleição do atual prefeito da cidade, Alexandre Kalil (PHS). Porém, apesar da justificativa oficial de Oliveira ser a realização de um pós-doutorado em Portugal, é também possível que este movimento seja apenas mais um passo para a transformação, pela prefeitura, da FMC em Secretaria Municipal da Cultura, promessa de campanha de Kalil e algo novamente antecipado há onze dias, em 30 de março, pela colunista do jornal Hoje em Dia, Amália Goulart. Esse movimento permitiria, teoricamente, maior controle municipal aos aparelhos culturais da cidade. Também vale lembrar que, em janeiro, Kalil vetou a criação de um espaço cultural no bairro Savassi, algo que havia sido previamente aprovado pela Câmara de Vereadores. O prefeito mineiro deve anunciar o novo presidente da FMC, ou a nova destinação da pasta, nos próximos dias.

O prefeito Alexandre Kalil (PHS), no programa Cartão Verde, da TV Cultura.
O prefeito Alexandre Kalil (PHS), no programa Cartão Verde, da TV Cultura.

A repercussão entre os criadores de quadrinhos foi e continua sendo intensa, como é possível verificar nas timelines das redes sociais de centenas deles, nos últimos dias. Os quadrinistas de BH, especificamente, se reuniram no sábado (8) no Palácio das Artes (local que abrigou a edição de 2009 do FIQ), para traçarem um curso de ação em favor da realização do festival e do diálogo com a FMC e a prefeitura.

Até o momento, isto é o que você precisa saber para compreender minimamente o que está acontecendo em BH. Mas a questão é: isto está acontecendo apenas na capital mineira?

No dia 3 de abril, foi realizado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) , o Fórum “Gestão e Produção Cultural e Políticas Públicas de Cultura: o papel da universidade”. O evento, ainda que voltado para ações dentro de uma das mais respeitadas instituições de ensino do País, amplificou o debate para fora de suas fronteiras. Os debates iniciais convergiram para um ponto em comum, unânime, entre os especialistas convidados: o desmantelamento das políticas culturais.

Guilherme Varella. Foto: Divulgação
Guilherme Varella. Foto: Divulgação

Segundo o ex-secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura Guilherme Varella, isso se deve ao fato da ascensão do movimento conservador. Ele explica que “esse desmonte é impactante num momento em que há grande descrédito na política e na capacidade do Estado de formular políticas públicas para dar conta dessas questões”.

Ele também alerta para que a produção cultural não seja debatida apenas no âmbito financeiro, mas, também, de acordo com o direito à cultura que todos temos:

Se não avançar na nossa consciência de direito — quais são os diretos culturais, onde estão, qual a natureza, como se organizam, como são aplicados, como constam no ordenamento, qual a diferença para cada um dos setores –, nós vamos avançar pouco, porque vamos reduzir os debates das demandas culturais a esses debates de financiamento aos quais já estamos acostumados.

A questão da cultura nacional, em boa parte das vezes, não é percebida como política — na acepção mais pura da palavra (ou seja, de algo relativo aos cidadãos) e não no sentido hoje em dia mais comum, que é o partidário. As cobranças que há em outros setores, como o econômico, o educacional ou o de saúde pública, por exemplo, não são intensas por parte da sociedade em relação à cultura. Porém, o acesso da população à cultura — e seus mecanismos — é um ponto central para que a população mude sua mentalidade e sua relação com a coisa pública.

Também a percepção sobre o que é cultura por parte da população e de seus governantes é, muitas vezes, equivocada ou incompleta. No caso de Belo Horizonte, como o artigo do MdM ilustra bem, os eventos que tiveram previsão de verba para 2017 são representativos de artes com muitos séculos de existência, percebidas sem sobressaltos como manifestações artísticas, em detrimento de artes menos tradicionais. Mas não é uma exclusividade mineira: está acontecendo, por exemplo, com a cultura do grafite na cidade de São Paulo, com o corte de verbas para a cultura e o cerceamento do carnaval em Campinas e sei que você consegue pensar em um bom exemplo na região em que você vive. A política cultural também sofre este mesmo efeito em nível federal – nunca se esqueça que, há mais ou menos um ano, tentou-se simplesmente extinguir o Ministério da Cultura — e, novamente, é preciso entender política e cultura no sentido mais amplo das palavras: afetando o nível cultural da população e seu acesso à cultura, também são afetadas a cidadania e a autoestima dessa mesma população. Algo que soa tão grave como realmente é.

O primeiro dia do FIQ 2015 visto de cima. Foto: Pac Mãe.
O primeiro dia do FIQ 2015 visto de cima. Foto: Pac Mãe.

O FIQ, obviamente, precisa ser salvo. Mas será que apenas o engajamento dos envolvidos com quadrinhos é suficiente para mudar o estado das coisas? Toda a indignação de autores, artistas, imprensa especializada, editores e fomentadores culturais é suficiente?

O engajamento precisa ser, também e principalmente, do público geral. E esse público conhece o festival: O FIQ, desde 2003, possui ações conjuntas com as escolas municipais da cidade, fomentando tanto o hábito da leitura dos quadrinhos como o interesse das crianças na Nona Arte. Anualmente, dezenas de milhares de pessoas, de todos os pontos do país, frequentam o evento, o maior do gênero na América Latina. Mas este mesmo público tem a noção de que o FIQ pode, simplesmente, deixar de existir por uma questão financeira? Ele foi comunicado deste risco?

"Somos o que fazemos, principalmente o que fazemos para mudar o que somos." (Eduardo Galeano em "Vozes de nosso tempo", 1981)
“Somos o que fazemos, principalmente o que fazemos para mudar o que somos.” (Eduardo Galeano em “Vozes de nosso tempo”, 1981)

O escritor uruguaio Eduardo Galeano, cujo segundo aniversário de morte se dará nesta semana, escreveu em seu famoso livro As veias abertas da América Latina:

A primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la.

Muitas vezes, o mercado dos quadrinhos brasileiros, que nunca viveu uma fase tão boa em termos de vendas e de criatividade (e talvez o grande responsável por isso seja, de novo, o FIQ, que fez de Belo Horizonte um celeiro de grandes talentos da HQ nacional e uma vitrine para centenas de outros), parece se comportar como um organismo autótrofo, alimentando-se de si mesmo, sem grandes preocupações reais de expansão para um público maior. É preciso criar envolvimento. É necessário, enfim, fazer com que as pessoas em geral conheçam o problema. Comunicar a importância intrínseca do Festival Internacional de Quadrinhos para a cultura da cidade, para a sua população e para o turismo belo-horizontino. Porque há, e não é pouca.

Quadrinhos, sabemos, ainda fazem parte de uma cultura de nicho no Brasil. Mas há representantes dessa cultura com um grande alcance nacional, que rompem a fronteira que existe entre o nicho e o público geral. Fala-se aqui dos maiores nomes do quadrinho e do cartunismo nacional, cada um com uma legião de fãs; das maiores editoras sediadas no País, muitas delas que não publicam apenas quadrinhos; dos formadores de opinião que conversam com um público que ultrapassa o geek, o nerd e o fã de HQs. O engajamento público destes nomes é fundamental para a disseminação da atual condição do FIQ, para que possa haver pressão e clamor populares a favor de um evento poderoso, que reúne grande empatia em sua curadoria e em sua produção.

O FIQ, sabemos, já fez muito pelo mercado de quadrinhos no Brasil, mesmo porque não é nenhum erro dizer que esse mercado em franca expansão apenas existe graças à existência do FIQ. Acreditamos que é hora desse mercado devolver ao Festival Internacional de Quadrinhos tudo o que este fez de bom para toda uma cena cultural.

Não há como imaginar o mercado de quadrinhos, hoje, sem o FIQ. Porque, se a CCXP se tornou a parte visível deste mercado e o corpo tangível materializado do trabalho feito em Minas Gerais, o FIQ é a alma deste corpo, e apenas com esta alma tudo faz sentido.

  • “Não há como imaginar o mercado de quadrinhos, hoje, sem o FIQ. Porque, se a CCXP se tornou a parte visível deste mercado e o corpo tangível materializado do trabalho feito em Minas Gerais, o FIQ é a alma deste corpo, e apenas com esta alma tudo faz sentido.”

    Exatamente!
    Espero ansiosamente uma reversão dessa situação.

  • Pingback: #FicaFiQ! - POCILGA()

  • Marcelo Pereira

    O que eu tenho a dizer à muitos? Batam panela agora.

  • Heitor Pitombo

    Uma correção. Hoje está longe de ser o período em que se registrou as maiores vendas de quadrinhos no Brasil. Talvez estejamos vivendo um momento em que nunca houve tanta diversificação e qualidade, ao mesmo tempo em que nunca se registrou vendas tão baixas.

    • Delfin

      Eu esclareci melhor a que recorte do mercado eu me referia, Heitor.

  • Felipe Ribeiro Santa Fé

    Como belohorizontino e alguém que cresceu lendo Hqs, fico triste com a situação do FIQ e dos incentivos dados (ou não) à cultura no país. A partir da produção cultural podemos conhecer a nós mesmos e as pessoas e o espaço ao nosso redor, desenvolvendo uma consciência crítica a respeito da realidade e do que pode ser feito para melhorá-la, o que não é o interesse daqueles que estão/tomaram o poder.

  • Absolute Superman

    Rapaz, corte de verba estatal para serviços essenciais me faz ser o primeiro a reclamar. Mas pra um negócio de nicho e supérfluo, que nem dá retorno importante pra população de baixa renda (ao contrário do carnaval, por exemplo), nem deveria ter incentivo do governo. Nessas áreas, dinheiro público contínuo de mão beijada só faz reduzir a qualidade da produção cultural. Vide os ‘grandes artistas’ nacionais que receberam grana do ministério.

  • Andre Bufrem

    Acho muito complicado qualquer coisa sobreviver a base de dinheiro estatal. Não sou especialista, mas me parece que um evento como o FIQ pode sim ter ajuda da Prefeitura, pois gera movimentação nos hotéis, restaurantes, etc., além de divulgar o nome da cidade como propagadora de cultura. Quanto vale isso para a prefeitura? Difícil mensurar. O evento deveria se sustentar por conta própria, talvez cobrando ingressos (como a CCXP) ou através de patrocinadores. A Bienal de Curitiba (evento irmão do FIQ) teve um problemão para conseguir se viabilizar ano passado. Temos que começar a pensar como empresários, não como divulgadores de cultura, caso contrário dependeremos sempre de verba pública e do humor dos dirigentes.

    • Ermicão

      Cara, o problema é que as empresas são as primeiras a terem medo de fazerem algo que não tenha retorno imediato. Colocar ingresso exige toda uma logística que o resultado não vai ser um evento equivalente ao fiq, mas sim o da CCXP, com um perfil mais elitizado, mais voltado stand de grandes grupos de entretenimento, diminuindo o caráter autoral do FIQ. CCXP já tem duas ao ano, e precisamos é de um FIQ.

      • Andre Bufrem

        Tem toda razão. Mas podia cobrar R$ 20,00 e o resto ser coberto por patrocinadores. Defendo que não se dependa de dinheiro público. O evento deveria ser viável por si mesmo. Por outro lado divulga o nome da cidade ligando-o à cultura, além de promover o comércio local. Nesse ponto caberia uma ajuda pública, nem que fosse na disponibilização do espaço.

    • Ermicão

      A Panini podia se juntar a outras editoras e fazer uma grande feira, congregando todas as empresas do ramo? poderia Não faz por que? tem cagaço, não aposta tanto na cena de quadrinhos, prefere ir no garantido. Elas iam ser as primeira a buscarem parcerias com o Estado. Aliás, nada no setor privado do Brasil se movimenta sem o apoio do Estado.

  • Pingback: [Breaking] FIQ tem data! Evento é anunciado para 1º semestre de 2018 | Terra Zero - Notícias, Quadrinhos e ComicPod()