DC, Renascimento e Watchmen: O que descobrimos em Batman #21

Aconteceu. Após quase um ano do lançamento de Universo DC Especial: Renascimento, a DC decidiu dar andamento aos mistérios da edição. Todos eles estão ligados às mudanças cronológicas da editora executadas nos últimos anos e à seminal HQ Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons.

Levando-se em conta que uma das principais charadas deixadas na revista foi o button sangrando do Comediante em uma parede da Batcaverna, a história de hoje, publicada em Batman #21 (de Tom King e Jason Fabok), lida diretamente com a conexão entre o Universo DC e o universo de Watchmen.

Capa de Batman 21 por Jason Fabok.
Capa de Batman 21 por Jason Fabok.

Para situar o leitor que está chegando aqui neste momento, a revista (que sairá no Brasil em breve) Universo DC: Renascimento foi o último trabalho de Geoff Johns nos quadrinhos por um longo período (já está durando um ano). Todos sabem a máquina de criar roteiros que ele é, especialmente na DC, onde está há quase 20 anos seguidos como profissional exclusivo e, mais recentemente, diretor de criação (editorial) e presidente do grupo DC Entertainment.

Com Renascimento, Johns tomou as rédeas do Universo DC uma última vez para organizar as coisas. Desde que a editora resolveu reiniciar sua cronologia e atualizar seus personagens na iniciativa Novos 52, em 2011, o público foi criando um pouco ojeriza a certos personagens. Um dos que mais sofreu com isso, por exemplo, foi o Superman, mas, mais importante, foram os personagens jovens, aqueles que carregavam consigo o futuro da DC.

Batman no melhor estilo Watchmen em arte de Jason Fabok e Brad Anderson.
Batman no melhor estilo Watchmen em arte de Jason Fabok e Brad Anderson.

O velho Wally West foi tirado da cronologia; uma nova família West foi criada (usada, inclusive, no seriado televisivo); o Gladiador Dourado passou a ter uma versão alternativa, que vinha do velho universo e se lembrava de tudo; uma parte da Legião dos Super-Heróis estava perdida entre as cronologias; havia Pandora, alguém que parecia ter propulsionado a criação dos Novos 52 após a saga Ponto de Ingnição, que serviu de ponte de entre as cronologias. Muita coisa precisava ser arrumada, com vários desses mistérios deixados sem explicações por todos esses anos. Era hora de dar um basta e, utilizando elementos (corretos) de Watchmen sem mexer na obra original, Johns deixou o campo aberto para seus sucessores amarrarem as pontas e ajeitarem o universo DC de uma vez.

E tudo começou hoje em Batman #21.

Atenção, Zeronauta: a partir daqui haverá spoilers – e não são poucos!

A primeira coisa a ser notada na revista é sua construção visual. Jason Fabok, o artista (um dos melhores que o Batman já teve desde os Novos 52), vem de uma escola parecida com a de Jim Lee e outros artistas na época, mas sua influência clássica de nomes como Neal Adams e George Pérez é facilmente perceptível. Nesta HQ ele sai da zona de conforto em favor do efeito narrativo desejado, um que presta as devidas homenagens à grade de nove quadros de Watchmen, mas que também não o faz perder sua identidade. Confiram algumas páginas de Batman #21 para terem uma noção de como ficou o trabalho dele:

Impressionantes, não? Muito nostálgicas também. Aliás, este é o primeiro elemento que podemos estudar: nostalgia. A HQ segue a característica de sua precedente edição especial e faz referência a muita coisa que aconteceu no passado longínquo da DC. Além de brincar com o elemento saudade na história mostrando um breve encontro entre Bruce e Thomas Wayne (ambos Batmen, um do Universo DC e outro, de Ponto de Ignição), a HQ também aposta no conhecimento do leitor em relação ao passado da editora.

Mais do que dispor a máscara do Pirata Psíquico na Batcaverna (o único personagem da DC que se lembra de todas as cronologias da editora), King e Fabok também fazem o Flash Reverso retornar de sua visita ao futuro da mesma forma que o Flash na Crise nas Infinitas Terras. Ou seja, um velocista moribundo, espantado com o que vem a seguir.

Cena clássica de Crise nas Infinitas Terras protagonizada por Batman e Flash (Barry Allen). Arte de George Pérez.
Cena clássica de Crise nas Infinitas Terras protagonizada por Batman e Flash (Barry Allen). Arte de George Pérez.
Adeus, Flash Reverso. Arte de Jason Fabok e Brad Anderson.
Adeus, Flash Reverso. Arte de Jason Fabok e Brad Anderson.

Batman também fica abalado. Algo muito interessante que King explorou nessa história (e merece ser explorado mais adiante, pois aqui o tempo foi muito curto, como o contador de 60 segundos mostra durante os quadros da narrativa) é o lado emocional do Homem-Morcego. Qualquer fã sabe que ele tem emoções conflitantes e, de modo geral, suprimidas pelo seu estilo de vida, promessas e outras coisas que ele colocou na cabeça para evitar lidar de verdade com cada um de seus traumas.

O momento em que ele e Thomas Wayne se encontram o faz não apenas se lembrar daquela carta destinada a ele, escrita pelo pai de outro mundo, entre o final de Ponto de Ignição e o início dos Novos 52; faz o Batman se lembrar de que ele é humano, é um filho. Um órfão que sente muita falta das figuras paterna e materna. A frangilidade de um órfão nunca deve ser ignorada (como mostrado por Batfleck, com Matt Damon, em Gênio Indomável – lembram?) e seria interessantíssimo (e corajoso) se a DC permitir que King vá bem fundo nesse aspecto do personagem.

A emocionante cena em que Bruce Wayne vislumbra seu pai (de outro universo). Arte de Jason Fabok e Brad Anderson.
A emocionante cena em que Bruce Wayne vislumbra seu pai (de outro universo). Arte de Jason Fabok e Brad Anderson.

Encontrar-se com o Flash Reverso não é uma tarefa fácil também. Aqui entra o aspecto narrativo da história. King fez um roteiro que permitiu a Fabok se desafiar para criar uma estrutura visual que prestasse as mais respeitosas homenagens a Watchmen. Há muita resistência quando se mexe com obras desse calibre, mas nenhum dos responsáveis por Batman #21 comete um crime dessa magnitude.

Algo bacana que o artista faz é aproveitar ao máximo as chances que tem de fazer splash pages para vislumbrar o leitor com takes cuja grandiosidade transcende o limite da página. É muito difícil um artista conseguir isso, mas Fabok o fez muito bem. Destaque também para o momento da luta entre Reverso e Batman, em que alguns quadros da grade têm cores invertidas para beneficiar um ou outro personagem. Jogada do colorista Brad Anderson.

Flash Reverso e Batman caem na porrada na Batcaverna. Arte de Jason Fabok e Brad Anderson.
Flash Reverso e Batman caem na porrada na Batcaverna. Arte de Jason Fabok e Brad Anderson.
Batman, o button e a máscara. Arte de Jason Fabok e Brad Anderson.
Batman, o button e a máscara. Arte de Jason Fabok e Brad Anderson.

Percebam que há um contador em cada quadro. É proposital. Quando o button do Comediante e a máscara do Pirata Psíquico entram em uma espécie de curto, causando a aparição repentina de Thomas Wayne e a chamada do Flash Reverso, o Batman liga para Barry Allen pedindo ajuda para investigar “coisas estranhas que estavam acontecendo naquele momento”. Com ele estão não apenas estes itens, mas também a carta de Thomas já citada no texto. Barry promete que estará lá em 1 minuto, mas o Reverso chega antes e tudo vira de cabeça para baixo.

Apesar de todo o cuidados nas representações visuais de Watchmen (vejam mais delas no artigo feito pelo CBR), o mais interessante para este mistério e o Universo DC como um todo está no começo da revista. Está no ponto em que Fabok ainda está construindo a identidade visual; no ponto em que Imra Ardeen aparece.

Satúrnia presa no Asilo Arkham (arte de Jason Fabok e Brad Anderson).
Satúrnia presa no Asilo Arkham (arte de Jason Fabok e Brad Anderson).

Este é o ponto mais importante da HQ, mas pouca gente percebeu (eu fui uma dessas pessoas, corrigido pelo Pablo). Apesar de Batman e Flash estarem escalados para resolver o mistério, muito graças à popularidade dos personagens, os segredos de verdade estão espalhados entre outros heróis, outros vilões. A Legião é fundamental. A gente fala pouco dela no Terra Zero e não é à toa; a DC costuma deixá-la de lado faz uns bons anos. Até na época dos Novos 52, quando eles tinham duas revistas mensais (Legião dos Super-Heróis e Legião Perdida), eles não ganharam a popularidade esperada, tampouco quando apareceram no seriado Smallville ou quando tiveram sua própria animação.

Porém, como não estamos aqui para analisar como e por que a Legião não tem tanto apelo hoje como antigamente, vamos direto ao ponto: Satúrnia, assim como milhares de pessoas pelo país, está acompanhando o jogo de hockey entre os times de Gotham e Metrópolis. Ela está presa no Asilo Arkham desde a edição Universo DC: Renascimento, o que ainda não foi esclarecido. O Batman também está vendo o jogo (há muitos fãs de hockey no UDC) e é no meio de uma jogada delicada que ela tem um ataque. Gritando “Esperem, esperem! É neste jogo! É neste jogo que o matam! Eles vão matá-lo! Não estão vendo? O Superman não virá. Nossos amigos vão morrer. A Legião morrerá. Ninguém pode impedir! Ninguém vai nos salvar!”

A Legião Perdida dos Novos 52.
A Legião Perdida dos Novos 52.

Dá pra pensar em algumas coisas aqui. A primeira delas é o papel da Legião em tudo isso; no século 31, onde a Legião vive, existe uma avançada tecnologia para que algumas falhas cronológicas da DC sejam resolvidas. Porém, o grupo vem tentando salvar a parte de seus membros que está perdida após os eventos de Ponto de Ignição. Satúrnia é uma delas, e sua localização atual é o Asilo Arkham. Por se lembrar das duas linhas temporais, ela parece ter ficado quase tão afetada quanto o Pirata Psíquico ficou por conhecer tudo, o acarretou seu confinamento. Ou seja, a memória dela será fundamental para o encerramento desta história. Se isso fará com que Satúrnia e a Legião finalmente se rencontrem e o espaço-tempo fique correto, isso já é outra história.

A segunda coisa é o papel do Flash. Como dissemos acima, ele foi fundamental em alguns dos momentos supracitados, mas, mais importante que isso, é sempre um Flash que traz consigo uma Crise. Tanto ele como o Batman estão investigando os mistério do button do Comediante, dos eventos de Ponto de Ignição e da perda cronológica vista em Universo DC: Renascimento. Mas é mais do que isso. Se o ladrão de tempo mostrado nessa HQ, aquele que tirou minutos ou segundos vitais da antiga cronologia da DC causando todo o rebuliço que foram os Novos 52, o evento Convergência e o DC You, for mesmo o Dr. Manhattan, coisas muito grandes podem acontecer. Uma nova Crise, por exemplo.

Montagem do Doutor Manhattan como Monitor, um dos mais importantes personagens das Crises.
Montagem do Doutor Manhattan como Monitor, um dos mais importantes personagens das Crises.

Por fim (e isso não foi mostrado nessa história, mas está acontecendo ao mesmo tempo que ela), membros da família Flash que estavam presos na Força de Aceleração têm voltado desde a volta do Wally original. Com ele, o maior símbolo do Renascimento, os Titãs também estão investigando as perdas temporais notadas no especial que precede a HQ de hoje. Isso reforça a teoria da Crise, já que há muitos elementos espalhados por muitos personagens relacionados ao longo histórico de Crises da DC.

Tudo isso significa que a nova Crise vai mesmo acontecer? Impossível dizer. Há evidências, mas prever o futuro com as poucas informações que temos agora seria um erro. O que é bom de se fazer é ficar atento, muito atento, a qualquer indicação de elementos cósmicos em futuros capítulos dessa história. Eles vão ditar o futuro.

  • Pedro Amaro Lima

    Olá, Morcelli. Infelizmente não li a parte do spoilers. Ainda lerei a edição.
    Após isso volto aqui.

  • Ué, mas uma nova crise tá sendo plantada pelo Hitch desde a liga da justica da América, e tbm nesse título mensal dá liga no rebite.

  • ALBN

    Provavelmente,a linha do tempo original dela do século 31 foi apagado.O Modus Operanti do nosso Doutor visa proteger a terra,isso significa apagar qualquer possibilidade de escolha,todos eles estão em uma ilusão de acreditarem que tem livre arbítrio,só a família Superman,essa membro da Legião e as pessoas que entraram em contato com o bottom não tem sua possibilidade de escolha protegida,o por quê não faço ideia.Ele vai apagando todas as variáveis possíveis até perder completamente o interesse e abandonar essa terra para sua própria calamidade,como aconteceu com o mundo natal dele,o que explicaria o motivo de Mister Oz tê-lo seguido para parar um Deus,lançando mão de capturar seres poderosos ou pessoas chaves na tentativa desse intento impossível. O Beforre W do Doutor deve ser a linha que a DC vai seguir,a existência dele elimina o livre arbítrio pelo medo de perder tudo. Se for pra comparar,lembra um pouco Doutor Destino de Hikman em Guerras Secretas,mas dá trabalhar o potêncial enorme com o Doutor. Essa saga deve terminar com ele simplesmente abrindo mão desse poder,se tornando apenas um homem,aceitando o desconhecido, e vivendo a vida no que ela vale,deixá-la solta e permitir que um mundo possibilidades desabrochem além do preto no branco.

  • IDRIS ELBA RAMALHO

    DC mais uma vez revirando o lixo do Alan Moore?
    Merda à vista.

    • Felipe Morcelli

      Vou falar que mesmo não sendo lá muito fã do Moore e mesmo comentando no texto que não estão mexendo na obra principal (ainda bem), essa porreta aí de ficar usando Watchmen loucamente agora tá ficando chato mesmo.

      • IDRIS ELBA RAMALHO

        Mas a questão não de que “Watchmen” é intocável e imaculada.
        Como o próprio Moore diz, é meio que preguiça da DC mesmo.

        Anunciaram que vai ter uma animação de Watchmen e tal…
        E assim como A Piada Mortal e The Dark Knight Returns é bem capaz de sair algo pasteurizado, bem aquém do original.

        Acho que a questão é parar de ficar revirando os clássicos(que a Marvel não tem, XD ) e fazer coisas novas.
        Nas animações mesmo, a melhor coisa que saiu da DC recentemente foi Gods and Monsters, que é coisa nova, diferente, com mais veia criativa. Ficar só regurgitando as coisas antigas fica repetitivo e acaba cansando.

    • Neo

      A obra é da DC. Não vejo problemas em utilizar. Até agora são apenas referências, os personagens ainda não foram utilizados, se é que vão utilizar. Grandes obras tem que inspirar outras. O importante é que os leitores gostem, assim como eu amei essa edição.

      • IDRIS ELBA RAMALHO

        Se não passar de referências eu acho legal.
        O que me deixa meio assim com a DC não é Watchmen ser a “obra perfeita e imaculada”. Não sou desses. Gosto muito, pra mim é uma história fechada fantástica.
        Mas eu concordo com o Moore quando ele afirma que é preguiça ficar sempre regurgitando o velho, em vez de criar coisas novas.
        Se inspirar é uma coisa totalmente válida, mas se eles caírem na armadilha que eles já caíram uma vez, de ficar patinando nos mesmos conceitos e pegando do glamour das hqs clássicas, só pra dar alguma relevância pras atuais, vai ficar chato e cansativo.

        • Neo

          Sim, entendo. Até agora está indo bem. Essa primeira edição de The Button foi muito boa. Concordo que tem que criar coisas novas, Mas um pouquinho de inspiração nas clássicas ajuda também. Muita gente sente falta disso.

  • Felipe Ribeiro Santa Fé

    Alguém reparou que um símbolo idêntico ao botton do Comediante aparece na parede do Arkhan, quando o pessoal está assistindo ao jogo?

  • Adriano de Oliveira Ferreira

    artigo foda, pena q em papel vai demorar a chegar no brasil