DC, Flashpoint e Watchmen: O que aprendemos em Flash #21

Algumas histórias começam com uma tempestade e faz sentido ser assim também em The Flash #21, lançada ontem nos Estados Unidos. Não só pela relação do personagem com raios e trovões, mas também pela velocidade e intensidade destes efeitos naturais que simbolizam não somente os poderes do protagonista mas também a tonalidade desta história. Tudo acontece muito rápido, cabendo ao esforço conjunto de Joshua Williamson (roteiro) e Howard Porter (arte) garantir a compreensão da história, o que conseguem com maestria.

Ambos estão trabalhando em conjunto com Tom King e Jason Fabok, autor e artista da mensal do Batman, neste crossover intitulado The Button. Como dito anteriormente, o objetivo dele é dar nós nas pontas que Geoff Johns deixou na edição Universo DC: Renascimento envolvendo toda a história do UDC e sua relação com Watchmen, a obra seminal de Alan Moore e Dave Gibbons. Como em um episódio de Lost (alguém ainda lembra dessa série?), as coisas começam exatamente de onde terminaram na semana anterior.

O segundo capítulo mostra o Flash, ou melhor, Barry Allen, fazendo que ele sabe fazer: ser um cientista forense. Barry vai até os pontos mais profundos da cena do crime que se tornou a Batcaverna e busca entender o que causou a morte do Flash Reverso. A única testemunha é seu colega de Liga da Justiça, Batman, que está em recuperação numa cama da Mansão Wayne enquanto Alfred ajuda Barry na investigação.

Williamson demonstra mais propriedade e segurança enquanto escreve o diálogo entre os dois heróis, fazendo uma das melhores cenas de interrogatório do ano. Aliás, é uma cena rara, uma em que o Batman é o interrogado. Logo de cara o autor estabelece que o Batman não está lá apenas por ser o personagem que mais vende na DC; tampouco é um coadjuvante de luxo também, já que ele e Barry são os únicos entre os justiceiros que sabem do Ponto de Ignição e da carta de Thomas Wayne. Juntos na base da Liga, Batman acompanha o Flash enquanto ele corre na Esteira Cósmica em busca de respostas no passado do Universo DC e ambos descobrem coisas inimagináveis, como as versões antigas da Liga (anos 1960; anos 1990 com Grant Morrison; época da Crise de Identidade de Brad Meltzer; Crise nas Infinitas Terras em 1985) e vários outros easter eggs importantes para definir o futuro do UDC.

Flash relembra do contato que teve com o elmo de Jay Garrick em edições anteriores. Arte de Howard Porter.
Flash relembra do contato que teve com o elmo de Jay Garrick em edições anteriores. Arte de Howard Porter.

Isso por si só já garantiu uma ótima história e uma sequência bem mais interessante (e intrigante) para o capítulo anterior de The Button. Porém, o conto de Williamson e Porter não se resume a isso. Pelo contrário, ela mergulha no formato do crossover sem perder sua identidade, seja ela narrativa ou visual. Diferente do que aconteceu em Batman #21, essa edição do Flash não faz uso da grade de Watchmen para compor páginas; Porter mantém-se fiel ao seu estilo dinâmico, que casa perfeitamente com a proposta do Flash e da história em si, que requer mais velocidade narrativa e dinamismo nos quadros.

O que The Flash #21 pega do capítulo anterior é o formato narrativo; se Batman #21 começou com a Satúrnia lembrando-se de sua identidade e da Legião dos Super-Heróis (bem como de várias outras tragédias), essa começa com Johnny Trovoada à beira de uma varanda no hospício pedindo pela volta do Relâmpago com a clássica chamada “cei-u. Ele ainda diz que “o relâmpago [em minúsculo mesmo] disse que precisamos encontrar meus amigos! Nós perdemos a Sociedade da Justiça! É culpa minha”.

Johnny Trovoada está de volta! Arte de Howard Porter.
Johnny Trovoada está de volta! Arte de Howard Porter.

Falando de culpa, Williamson também levanta um questionamento interessante que pode ser explorado no futuro; Flash pode ter sido o assassino do Flash Reverso. Ao contrário do que aconteceu com Barry na Crise original, em que ele morreu para salvar a criação das mãos do Anti-Monitor (fora se dissipar bem na frente do Batman), pode ser ele que tirará a vida, em algum momento, do homem que matou sua mãe e provocou diversas alterações no tempo ao bel prazer. Leitores mais novos podem não saber disso, mas, na cronologia antiga, que chamamos de pré Crise, o assassinato aconteceu.

Em um arco de histórias chamado Trial of the Flash (Julgamento do Flash), escrita pelo lendário Cary Bates e desenhada por ninguém menos que Carmine Infantino (cocriador do Barry Allen), o herói foi julgado pelo assassinato de Eobard Thawne. Isso até gerou uma lenda urbana entre os fãs (que foi confirmada mais tarde, como dito neste artigo de 2014 do Terra Zero) de que Barry Allen seria considerado culpado e, sem seguida, se tornaria um herói fugitivo.

Capa de The Flash #340 por Carmine Infantino e Klaus Janson.
Capa de The Flash #340 por Carmine Infantino e Klaus Janson.

Ou seja, o mistério fica profundo tanto para o personagem como para os leitores, principalmente depois que Flash e Batman se unem para viajar pelo tempo em busca do button do Comediante e das respostas para as perdas temporais que todos os heróis sofreram (mostrada em Universo DC: Renascimento). Como se isso não bastasse, a quantidade imensa de easter eggs existentes na base da Liga (no melhor estilo Sala de Troféus, mas com outro nome, que contém elementos de diversas versões da Liga e artefatos esquecidos até pelos fãs mais antigos), ambos se deparam com versões de si mesmos que, na verdade, não são alternativas. A história deixa claro que aquilo tudo aconteceu de verdade.

Estão lá a Liga da Justiça de Grant Morrison, as Ligas da Era de Prata, os traumáticos eventos da Crise de Identidade (até então não referenciados na DC pós Novos 52) e muitos outros. Com ajuda de Geoff Johns, Joshua Williamson e Tom King estabelecem que tudo vale na nova DC, só falta aparar algumas arestas.

 

A nova "Sala de Troféus" mostrada na revista do Flash. Arte de Howard Porter.
A nova “Sala de Troféus” mostrada na revista do Flash. Arte de Howard Porter.
Arte retrô de Howard Porter enriquece seu trabalho e a narrativa da HQ.
Arte retrô de Howard Porter enriquece seu trabalho e a narrativa da HQ.
Arte retrô de Howard Porter enriquece seu trabalho e a narrativa da HQ.
Arte retrô de Howard Porter enriquece seu trabalho e a narrativa da HQ.

Mesmo que o final seja esperado, ele não deixa de ser emocionante. As visões que o Batman teve de seu pai de outra Terra se tornam realidade; Bruce e Barry caem na Batcaverna de Thomas Wayne, o Homem-Morcego de Ponto de Ignição. Lembrando, foi comprovado que essa realidade se manteve intacta após os eventos de Convergência em 2015.

Isso casa com o que foi mostrado em Batman #21, e vai ao encontro dos comentários que fizemos na semana passada sobre a relação paterna do Batman ser finalmente explorada a níveis mais profundos. Enquanto isso, tudo indica que os personagens de Watchmen (o Dr. Manhattan mais especificamente) estão relacionados com o “roubo temporal”. Contudo, o mais importante é que há memórias de diversas linhas temporais convergindo (olha aí!) em uma única Terra ao mesmo tempo em que velocistas e viajantes do tempo emergem de seus torpores. Uma Crise está chegando.

Ok, isso é emocionante, não dá pra negar.
Ok, isso é emocionante, não dá pra negar.
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