Marvel: Reunião-bomba com lojistas expõe crise editorial

No fim da última semana, diretores do alto escalão da Marvel se reuniram com lojistas de quadrinhos nos escritórios da Marvel, em Nova York. O objetivo do encontro era assegurar que a editora está trabalhando em conjunto com seus parceiros, com o discurso de que a Casa das Ideias utilizará uma comunicação mais efetiva, com o objetivo de atrair leitores casuais para as lojas. Ao todo, 14 dos maiores lojistas de quadrinhos, de diferentes localidades dos EUA (e um do Canadá), participaram da reunião, a primeira dessa grandeza desde a crise financeira da Marvel nos anos 1990.

A cobertura da atividade foi delegada a apenas um veículo de comunicação, o site de cultura pop e tecnologia ICv2. O que a princípio parecia ser apenas mais um encontro de cunho corporativo se revelou, no entanto, uma grande sangria de informações a respeito da conturbada relação entre os acionistas e a Marvel – e de como isso afeta e determina os rumos criativos da editora.

De acordo com Milton Griepp, repórter designado pelo ICv2 para a cobertura do evento, a Marvel impôs alguns embargos à cobertura, principalmente relacionados à divulgação de “planos editorais que ainda não foram revelados ao público”. Porém, não ofereceu nenhuma restrição quanto às pautas de discussão. O editor-chefe Axel Alonso e o vice-presidente de vendas e marketing David Gabriel conduziram os trabalhos, solicitando “franqueza” aos envolvidos no encontro.

Entre os principais pontos de descontentamento revelados pelos lojistas, estão:

  • Descaracterização dos personagens clássicos, e a consequente aposta em personagens de legado pertencentes a minorias;
  • Excesso de eventos grandiosos, que a todo momento reiniciam a linha de revistas da editora, gerando desgaste nos leitores;
  • “Gerenciamento de talentos”, ou seja, o recrutamento das equipes criativas que trabalham nas publicações carro-chefe da editora;
  • Políticas editoriais, como preços de encadernados e ausência de séries limitadas.

A cobertura movimentou a mídia especializada nos últimos dias, gerando uma série de repercussões na indústria de quadrinhos. Debates sobre o perfil conservador do leitor de quadrinhos, a influência do meio corporativo nas decisões criativas e os rumos editoriais da Marvel despertaram o clamor de figuras importantes para a cena dos quadrinhos mainstream dos EUA.

Top 15 de solicitações do mês de fevereiro escancara domínio da DC e de sua iniciativa Rebirth no mercado. Nos últimos 50 anos, em raras vezes isso aconteceu. Fonte: Comichron.

O Terra Zero preparou (e ainda prepara) uma série de artigos sobre o tema, que movimentarão o site nos próximos dias. Para começar, detalhamos cada um dos pontos principais do encontro. Você pode conferi-los, em tópicos, a seguir:


Descaracterização dos personagens

Um dos principais tópicos da discussão foi a quantidade de personagens de legado que estão habitando as páginas dos títulos carros-chefe da Marvel, seguidos da descaracterização de marcas clássicas da editora, como Capitão América, Homem de Ferro, Thor e Hulk.

Capa de Champions #1, equipe totalmente formada por personagens de legado. Arte de Humberto Ramos. Direitos: Marvel Entertainment.

A avaliação dos varejistas é de que os leitores de quadrinhos não querem isso, pois são apegados às caracterizações clássicas de seus personagens favoritos. Portanto, eles não estariam interessados em “mensagens políticas” inclusas nessas histórias.

Isso estaria afetando diretamente as vendas da Marvel, que não apenas tem caído nos últimos meses, como tem mostrado desvantagem em relação à sua concorrente direta, a DC Comics – que deixou de ser a Distinta Concorrência (termo cunhado para ironizar a eterna liderança da Marvel no mercado*) para ser, efetivamente, a líder consolidada de vendas no mercado estadunidense a partir da iniciativa Rebirth (Renascimento, no Brasil). Vale lembrar que Rebirth se propôs a recuperar antigos valores da DC e da indústria, valorizando as caracterizações mais clássicas de seus personagens, exatamente o contrário do que a Marvel tem feito.

Direitos: DC Entertainment.

Axel Alonso dissertou sobre o tema:

Passamos por um período na cultura pop, como um todo, em que há uma discussão maciça sobre inclusão e diversidade. Foi um tema maciço no Oscar. Isso varreu nossa cultura. Estávamos conscientes disso.

Mas a Marvel não é sobre política. Estamos contando histórias sobre o mundo. Acho que somos uma extensão do que Stan [Lee] fez. Quando olho para o que estamos fazendo, estamos contando histórias que importam neste momento. Essa é a coisa mais importante.

Alonso lembrou que um evento vindouro da Marvel, Generations, servirá como um anúncio de que os heróis clássicos estão lá, e ainda são importantes para a editora – uma espécie de aceno para os leitores tradicionais.

Porém, a declaração mais forte foi a de David Gabriel. Confira o que ele disse, respondendo à seguinte pergunta do ICv2: “Por que esses gostos dos leitores mudaram?”:

Eu não sei se isso é uma pergunta para mim. Acho que essa é uma pergunta melhor para os varejistas que estão vendo todos os editores. O que ouvimos foi que as pessoas não queriam mais diversidade. Eles não queriam personagens femininas lá fora. Foi o que ouvimos, acredite ou não. Eu não sei se isso é realmente verdade, mas é isso que vimos nas vendas.

Esse trecho da entrevista foi particularmente destacado pelo polêmico repórter Jude Terror, do Bleeding Cool. Isso gerou uma truculenta manifestação de Mark Waid, um dos principais autores da Marvel:

Numa tradução livre, Waid disse basicamente: “É um enorme feito para David Gabriel escolher, todos os dias, não esmurrar a cara pretensiosa de Jude Terror”.


Excesso de eventos e reboots

A discussão sobre as representações dos personagens clássicos evoluiu para as estratégias editoriais que a Marvel tem adotado nos últimos anos – mais especificamente, a de lançar periodicamente grandes eventos compartilhados, que invariavelmente reiniciam toda a numeração de suas publicações. Nos últimos seis meses, por exemplo, tivemos seis grandes sagas: Civil War II, Clone Conspiracy, Death of X, Inhumans vs X-Men, Monsters Unleashed e Avengers Standoff. Muitos desses eventos geraram novos títulos ou renumerações de títulos existentes.

Na avaliação de Alonso, a estratégia funciona num primeiro momento, já que os números #1 têm êxito, chegando até a 300 mil cópias vendidas. Porém, esse sucesso geralmente não é transferido para as edições seguintes, que apresentam quedas vertiginosas com o tempo – pelo menos até o próximo evento e o consequente novo número 1 da publicação. Isso força a Marvel a tomar algumas decisões ousadas, como aumentar o preço de capa de algumas publicações. David Gabriel citou o caso de Amazing Spider Man, que, em sua edição de número #25, subiu o preço de U$$ 3,99 para U$$ 9,99 – o que triplicou as vendas.

Capa variante de The Amazing Spider-Man #25. Arte de Alex Ross.

Mesmo assim, os lojistas não se sentem satisfeitos, já que a medida é apenas paliativa. Ou seja: para eles, o desgaste dos leitores é mais impactante para as vendas do que curiosidade de ler um novo número #1 a cada seis meses. Alonso tinha preparada uma resposta rápida ao problema apontado pelos varejistas. Segundo ele, nenhum grande evento está agendado após Secret Empire, que acaba em outubro. Ao que parece, a intenção de Alonso é que as coisas continuem assim por um tempo.


Gerenciamento de talentos

Um ponto que gerou convergência de opiniões entre executivos da Marvel e lojistas foi a manutenção de grandes talentos artísticos nos títulos da editora – ou seja, a dificuldade de se manter top creators produzindo as revistas por um longo período de tempo.

Isso aconteceria, principalmente, por conta das vantagens que os grandes criadores teriam ao embarcar em projetos autorais com outras editoras, como a Image. Esses contratos seriam muito mais lucrativos e vantajosos aos artistas.

Jeff Lemire malandrilson #soquenao
Jeff Lemire, que recentemente deixou a Marvel, onde escrevia a elogiada Old Man Logan, para se focar nos projetos autorais com a Image.

“[Os autores] me dizem que podem vender metade do número de cópias na Image e fazer o dobro do dinheiro que fazem num projeto da Marvel. Eu não sei se esses são números exatos, ou se eles estão exagerando. Isso soa para mim como se fosse, definitivamente, uma das coisas que torna o trabalho de vocês difícil na aquisição de talentos”, disse um dos lojistas. “Todo mundo tem que tomar uma decisão, e todo mundo tem um orçamento”, outro representante dos lojistas completou. Nenhum deles foi identificado pelo ICv2.

David Gabriel se defendeu:

Esse é assunto constante por aqui. Estamos sempre falando sobre criadores. Eu pessoalmente acho que Axel e nossos editores aqui são os melhores na indústria em pegar alguns desses pequenos caras que você nunca ouviu falar e impulsioná-los até grandes níveis.

Alonso complementou, dizendo que não é mais tão fácil medir o nível de popularidade dos artistas:

Não há nenhum aparelho lá fora. Não há mais nenhuma revista Wizard, que dizia quem eram os dez autores mais populares entre os fãs. Podemos promover nossos artistas tanto quanto queremos, mas não sabemos quantos artistas, além de talvez [Steve] McNiven e [Olivier] Coipel, fazem os fãs lerem qualquer coisa que desenhem.

Porém, o que se pode aferir dessas declarações é que os lojistas não estão satisfeitas com a qualidade média dos artistas que têm trabalhado nos principais títulos da Marvel.

Capa de Civil War II #1, por David Marquez, artista ainda não tão conhecido frente ao grande público.

Alonso ainda aproveitou a oportunidade para defender a ideia dos artistas rotativos, dizendo que este modelo “funciona”. Novamente citando os leitores, um fato que se repetiu várias vezes durante o encontro, Alonso disse que eles “se preocupam com a rapidez do envio. Eles querem que [os títulos] saiam na hora certa. Isso significa que você não tem que esperar um mês para o próximo capítulo.”

Erik Larsen, criador de Savage Dragon e um dos fundadores da Image.

Erik Larsen (Savage Dragon), um dos líderes no êxodo de artistas que, insatisfeitos, deixaram a Marvel para criar a Image Comics no início dos anos 1990 buscando autonomia artística, usou o seu twitter para provocar a Marvel. Segundo ele, “A Marvel tem dito aos lojistas que os artistas não importam desde que a turma da Image a deixou” e que o plano de minimizar a importância dos artistas, trocando-os de título regularmente, seria um plano executado desde o Êxodo da Image.

Confira abaixo os tweets:


Estratégias editoriais

Outro assunto que foi pontuado na reunião entre Marvel e lojistas foi o preço dos encadernados. Lojistas questionaram Alonso e Gabriel sobre o alto valor de capa de suas compilações. Um dos representantes chegou inclusive a fazer uma desconfortável comparação com a DC: “Vamos falar, por exemplo, de Inumanos. A minissérie de Paul Jenkins e Jae Lee custa U$$ 34,99. É uma graphic novel de 304 páginas. Por comparação (não é inteiramente uma comparação justa), Batman: O Longo Dia das Bruxas tem 340 páginas e custa U$$ 24.99″.

Inumanos, de Paul Jenkins e Jae Lee.

O assunto gerou uma reação diferente de Alonso e Gabriel, que não se mostraram sensíveis à ideia de redução de preços. Gabriel argumentou que tal medida incentivaria os leitores a comprar apenas os encadernados, o que diminuiria drasticamente as vendas do principal ganha-pão da Marvel: as revistas mensais. Porém, mantendo a postura política de se mostrar receptivo às interpelações dos lojistas, Gabriel disse que “não era contra” a diminuição dos preços, e acenou para uma possível mudança de postura da Marvel nesse sentido.

Ainda seguindo pelas estratégias editoriais da Marvel, Gabriel abordou o assunto das séries limitadas. Questionado pelos lojistas sobre a ausência desse tipo de material nas bancas, o VP disse que elas representam um “grito de morte” para a editora, e que elas só funcionam com os títulos da linha Star Wars.

Darth Maul #1 foi a HQ mais vendida na Marvel em fevereiro, ocupando o primeiro lugar das mais vendidas nesse mês.

Gabriel disse que, se “você chama qualquer outra coisa no Universo Marvel de uma série limitada”, você “morreu de saída”, embora não existam registros de maiores explicações por parte do responsável pelas vendas da editora. Mas ele lamenta o fato:

Eu adoraria poder lançar séries limitadas. Não haveria nada mais reconfortante do que isso, porque significa que eu posso juntar uma equipe e dizer: “Tudo bem, você tem dez, doze edições. Escreva. Você sabe qual é o seu final. Faça.”


*como o Poderoso Porco lembrou bem nos comentários desta matéria, o termo foi originalmente cunhado por Stan Lee e, no Brasil, a tradução é literal e com o mesmo significado.


Siga acompanhando o Terra Zero hoje e durante os próximos dias para não perder nenhum detalhe dessa crise na Casa das Ideias.

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