[ANÁLISE] Os diversos problemas da Marvel

Nos últimos dias, a crise editorial por qual passa a Marvel Comics tem sido o principal tópico de discussões entre a mídia especializada em quadrinhos, os criadores da indústria e os leitores. O momento, supostamente o mais mal-sucedido comercialmente da editora na última década e meia, é bastante peculiar. Todavia, o debate em torno dos motivos que levaram à atual situação foi, em maior parte, simplificado e polarizado ao redor de recortes de declarações feitas em uma única discussão — esta, muito maior e, ainda assim, limitada em escopo.
A Marvel tem diversos problemas no momento. A diversidade não é um deles, mas a discussão em torno dela acaba de se tornar.

As estratégias de curto prazo aplicadas a longo prazo

A Marvel é famosa por, entre todas as editoras dos Estados Unidos, ser a que melhor lê o mercado. Conseguiram, em 2008, eclipsar a morte do Batman apenas colocando Barack Obama na capa de Amazing SpiderMan #583, cortar a breve liderança que a DC obteve com os Novos 52 apenas com a preparação para a simples reorganização intitulada Marvel Now, emplacaram os Jovens Vingadores — recebidos como piada à época das solicitações — no momento exato em que os Novos Titãs de Geoff Johns perdiam o fôlego.

Também foi a primeira a, de fato, capitalizar em cima das altas vendas geradas por eventos. Enquanto a DC acabava gerando eventos acidentais como a Guerra dos Anéis e A Noite mais Densa, a coordenação editorial da Marvel já havia se organizado em torno de eventos anuais desde a Dinastia M, e aperfeiçoado sua fórmula em Guerra Civil. Seguindo a máxima de edições #1 vendem mais, os eventos da Marvel passaram a servir também de pretexto para renumerações, nem sempre justificadas, de suas séries mensais. Em 2014, a editora havia chegado à média de quatro eventos anuais com importância média ou grande para a continuidade, além dos periféricos.

SpiderMan #12, com um número 1 na capa. Porque sim.

Por fim, apostando na lealdade à marca de seus consumidores, a Casa das Ideias tem adotado, por anos, uma estratégia de inundação do mercado; publicam mais títulos do que qualquer outra editora — em fevereiro último, a Marvel publicou 102 títulos, contra os 82 de todas as linhas da DC somadas — e nunca revisam sua política de preço, na intenção de que os leitores possam comprar apenas seus produtos. É uma estratégia que se provou frutífera por muito tempo, mas sua viabilidade é dependente de uma visão positiva da marca, tanto por parte dos lojistas quanto dos leitores finais.

Isoladamente, nenhum dos fatores citados acima seria problemático; todavia, a junção de todos eles por um período estendido de tempo aliado a um conteúdo aquém do esperado contribuíram por desgastar a imagem da editora e, consequentemente, minar sua viabilidade no mercado direto. Críticos e leitores tem mencionado a “fadiga de eventos” há anos e, embora ela nunca tivesse se traduzido em números, começa a se tornar problemática.

O Zeitgest

Embora o efêmero sucesso dos Novos 52 tenha levado a Marvel a intensificar suas estratégias, a rápida derrocada da DC, tornada pior por uma realocação que a faria publicar apenas fill-ins durante três meses, colaborou para que a Marvel não só mantivesse sua liderança, mas o fizesse com enorme vantagem, auxiliada ainda pela enorme rentabilidade dos títulos relacionados à franquia Guerra nas Estrelas.

Ao mesmo tempo, o amadurecimento da internet como principal meio de contato entre os consumidores e a indústria, além da maior exposição das propriedades intelectuais das Big Two devido a seus respectivos universos cinemáticos, tornou ambas as editoras mais vulneráveis ao clima cultural e político, principalmente nos Estados Unidos. Demandas por maior e melhor representação de minorias atingiram ambas assim como a Hollywood.
A DC, como último esforço para salvaguardar o universo agora já majoritariamente mal-quisto criado com os Novos 52, lançou a iniciativa DC You, tendo como principal chamariz a diversidade de protagonistas, estilos e estruturas. Apesar de sucesso de crítica e de apresentar uma qualidade acima da média dos últimos anos, falhou comercialmente pela inércia do fill-in Convergência e um problema sério de imagem. A paciência de seus leitores havia se esgotado, e tudo que a editora fazia parecia vazio.

A Marvel, por outro lado, soube como só ela aproveitar o momento. As versões de Sam Wilson como Capitão América e Jane Foster como Thor foram anunciadas no programa matinal estaduninense The View, levando o debater para fora da esfera dos leitores de quadrinhos. Miles Morales já havia se consolidado como Homem-Aranha, e o sucesso surpresa da Ms. Marvel Khamala Khan, no auge do debate sobre islamofobia, garantiram os holofotes. Logo, a maioria dos principais mantos da editora teriam suas versões de legado tomando a frente das franquias, e estas são, em sua maioria, minorias. Todas elas, bem sucedidas. Ainda assim, a Marvel começa a sofrer.

O Status Quo é a ausência do Status Quo

Tendo suas versões legado estabelecidas e bem encaminhadas, a Marvel comete seu principal erro: exagera no experimentalismo com as versões clássicas de seus personagens. Julgando a situação erroneamente, como a DC fez duas vezes no passado recente, e adotando a prática de “não existe má publicidade”, teríamos num curtíssimo espaço de tempo um Steve Rogers agente da Hydra, diversas reorganizações nos X-Men, a dissolução do Quarteto Fantástico, um reboot do caráter de Tony Stark e incontáveis gimmicks com Peter Parker.

E é neste ponto que a Marvel sofre sua maior perda: a lealdade à marca de sua audiência nuclear, junto com sua boa imagem perante ao público geral. O leitor fiel, fã da Marvel, agora a odeia ou é indiferente e, simultaneamente, a DC, saindo da mesma situação ruim da qual a Marvel acabou de entrar, é surpreendentemente bem-sucedida com a inciativa Renascimento. Ao contrário de boa parte dos comentários internet afora, Rebirth manteve e até expandiu o foco em diversidade do DC You, mas o fez tomando uma atitude reconciliatória com os fãs que se sentiam abandonados ou antagonizados.

Ao mesmo tempo, a Marvel intensificou ainda mais as estratégias de curto prazo que aplicava constantemente, e ficou surpresa com o resultado diluído. Em qualquer momento da Marvel atual, uma série está sendo relançada, um evento está no meio enquanto outro está começando, e um personagem clássico está passando por uma mudança drástica, muitas vezes mal vista. O resultado é que, pela primeira vez, DC e Marvel estão de fato lutando pela liderança do mercado, com a maior fatia mudando mês a mês. A crise atual da Marvel é não só uma crise de imagem mas, principalmente, de auto-imagem.

Mas, por outro lado, veja bem, também não é tudo isso. Ou talvez seja.

A polêmica dos últimos dias foi grande e sua repercussão ultrapassou a mídia especializada em quadrinhos, chegou até os desonestos e polarizados sites políticos, os leigos sites de entretenimento com suas manchetes-chamariz (mea-culpa no título desta análise, mas o trocadilho foi mais forte que o redator) e infindáveis comentários mal informados nas redes sociais. Mas a verdade, como sempre, está em algum lugar no meio.

Antes de analisar qualquer declaração feita no Marvel Retailer Summit, é necessário refletir sobre a função dessa reunião. O Terra Zero já falou, nesta semana, sobre o motivo da Marvel se reunir com —e ouvir — os lojistas. E aqui está um dos cernes da questão: o que foi dito no último final de semana não era uma declaração de intenção da Marvel, um posicionamento real ou sequer destinado aos ouvidos da audiência final. O debate entre a editora e os lojistas visava apenas minimizar as preocupações dos últimos, bem com firmar um compromisso de produzir material que estes possam vender com mais facilidade.

Ademais, a reunião tinha como objetivo específico aliviar os problemas do mercado direto, que não é mais fonte única e exclusiva de renda das editoras americanas, apesar de ser o principal. No Twitter, Mark Waid esclareceu que alguns títulos estrelando minorias, hoje, vendem mais em formato digital, de encadernado, ou ambos, do que vendem revistas mensais. Por si só, esse fato já mostraria que estes títulos continuam sendo viáveis mesmo se não forem bem-sucedidos no mercado direto, o que não é o caso: como exemplos de personagens bem-sucedidos atualmente, os próprios lojistas apontaram Miles Morales e Kamala Khan.

Fora isso, vale lembrar que a crise da Marvel não é comercial, exatamente. Embora tenha sim, perdido vendas, e tenha ficado em segundo lugar por mais vezes no passado imediato do que em qualquer outro ponto tempo, o segundo lugar que ocupa agora é muito mais confortável do que o segundo lugar que a DC ocupava 2, 6 ou 15 anos atrás. Como empresa, porém, a Marvel não se sabe se portar ou se vender nessa posição, e para quem sempre foi o número um, repentinamente chegar em segundo pode parecer pior do que de fato é.

O próprio David Gabriel retratou-se sobre o comentário, infeliz, que deu origem à toda a polêmica atual, e que referia-se apenas a outubro de 2016. Assegurou que não haverá cortes nos personagens representantes de minorias, mas, sim, um resgate do núcleo clássico de personagens. E falou também sobre uma pausa nos eventos, uma releitura dos preços de encadernados e do relacionamento com os times criativos, mas nenhum destes outros tópicos, que são as reais causas da crise atual da Marvel, gerou tantas manchetes. Porque não podemos politizá-los.

A diversidade, que no fim das contas nunca esteve realmente em cheque, é um assunto que, no atual momento, mexe com nossas paixões, crenças e posicionamentos. É simples de ser usada por veículos leigos de imprensa com agendas diversas, é terreno fértil para nossa compulsão por opiniões e uma bandeira fácil de colar numa instituição. E, exatamente por isto, David Gabriel —que é famoso por colocar os pés pelas mãos — tornou pior a crise pela qual a Marvel passa atualmente. Pois esta é, no fim, uma crise de imagem e auto-imagem, constantemente se retroalimentando.

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