[Review] Inhumans vs X-Men de Soule, Lemire, Yu e outros

Inumanos e Mutantes foram colocados em lados opostos do Universo Marvel desde que a cidade de Attilan caiu e uma bomba terrígena foi lançada na atmosfera terrestre pelo então monarca Blackagar Boltagon (o Raio Negro) na saga Infinito, de Jonathan Hickman, no final de 2013. Desde então, as névoas terrígenas flutuam livremente pelo planeta, criando novos inumanos, em uma tentativa da Marvel de trazer este núcleo de personagens de meros coadjuvantes para um protagonismo em suas publicações. Desta forma, a minissérie em seis partes (e os costumeiros tie-ins) Inhumans vs X-Men é o ápice e resolução final de um tema que vem se arrastando sem dar muitos frutos por quase quatro anos na editora e promete mudar, novamente, tanto o panorama dos títulos mutantes quanto dos próprios inumanos.

Checkilist de leitura de IvX

Conforme mostrado em detalhes no prólogo Death of X (que tem resenha aqui), as névoas terrígenas são extremamente nocivas para a raça mutante, causando um mal degenerativo grave nos membros da espécie, além de uma esterilização massiva dos mesmos. Somado a este grave risco, conflitos e mal entendidos mostrados em Death of X impulsionam atitudes agressivas por parte dos mutantes em Inhumans vs X-Men. O tempo do homo sapiens superior está chegando ao fim e os filhos do átomo precisam destruir as nuvens terrígenas de qualquer forma para preservar sua espécie. Se os inumanos se colocarem em seu caminho, serão atropelados.

O protagonismo de Inhumans vs X-Men fica a cargo das duas líderes Medusalith Amaquelin (Medusa) no lado inumano e Emma Frost pelo lado dos X-Men. Tempestade também cumpre um papel proeminente na saga, apesar de, na prática, não ter tanta influência significativa nas decisões do lado mutante do conflito. Na segunda metade da saga, no entanto, jovens inumanos como Ms. Marvel, Mosaico, Iso, Quake, Sinapse, Grid e até a Garota Lua marcam suas presenças.

No decorrer das seis edições, os arquitetos dos títulos inumanos e mutantes, Jeff Lemire e Charles Soule, salpicam a história com diversos cenários de embate entre os dois grupos. A linha narrativa nos leva desde a Ilha Muir, passando por Nova Attilan até chegar ao recente recanto dos X-Men, o Limbo. Nestas localidades, a balança de poder muda frequentemente e há um senso de urgência latente por parte dos X-Men. Todavia, apesar de bons diálogos e muitas cenas de ação com uma infinidade de super-heróis se digladiando, o roteiro dos dois autores não consegue tornar esta história em algo muito além disso. O excesso de personagens (muitos deles desconhecidos para quem não acompanha de perto os títulos inumanos) dificulta a identificação do leitor casual e cansa até mesmo quem já vem acompanhando as histórias regulares. Outro ponto negativo é o ritmo lento da leitura, excesso de informações desnecessárias e uma pulverização muito forte do mesmo tipo de cena durante todo o decorrer do arco.

Nem as cenas de batalha aqui conseguem ser marcantes, o que era o mínimo a se esperar neste formato de saga maniqueísta. Algo que joga contra a história desde seu início é a fragilidade das motivações, principalmente dos X-Men.

Um confronto entre os dois times deveria ser o último recurso. No entanto, ele acaba sendo justificado de forma muito simplista: “Estamos morrendo. Estamos com pressa. Então vamos prender os Inumanos no limbo e descobrir um jeito de resolver esse lance de névoa rápido. Não importa se Hank McCoy, o sujeito que está mais próximo de uma solução, seja preso também e tenha seu trabalho interrompido”. Não faz sentido.

No final da saga, a própria Tempestade admite que, trabalhando juntos, os dois times poderiam ter resolvido o problema das névoas sem conflito. Resta a Medusa ser a pessoa mais honesta e, em uma atitude extremamente humana, colocar o bem maior na frente das necessidades dos Inumanos. O confronto final é anticlimático e as resoluções que o sucedem servem apenas para três coisas: resolver de forma nada original o problema das névoas; vilanizar Emma Frost novamente e restaurar relações entre a família real inumana, preparando todo um cenário para uma nova leva de títulos desta linha.

A arte em Inhumans vs X-Men está longe de ser o problema da saga. A história começa na edição zero com arte de Kenneth Rocafort, de forma bastante regular. As edições 1 e 2 são ilustradas por Leinil Francis Yu. As edições 3, 4 e 5 ficam a cargo de Javier Garron, com Yu retornando para a edição final. Não há nada de errado em se variar desenhistas em minisséries desse tipo. O problema é que a arte dos colaboradores não é complementar e dá ao pacote completo uma apresentação nem um pouco uniforme. Desde o design de personagens até a fotografia, passando por enquadramento, Yu e Garron não se completam. Isso deixa IvX com um aspecto de gibi feito editorialmente às pressas e com atrasos por parte do artista principal. Analisando edição por edição, temos um trabalho muito bom de todos os colaboradores. São muitas cenas grandiosas e uma quantidade enorme de detalhes por edição no roteiro de Soule e Lemire, e os profissionais se mostram eficazes em transmitir as mensagens da trama. Só que o visual geral é bastante heterogêneo, pela escolha de artistas tão diferentes.

É difícil se empolgar com algo dentro da Marvel que tenha “versus” no nome, atualmente. Os últimos embates desse tipo foram extremamente decepcionantes. Some-se isso à longa e penosa onda de marasmo que assola os títulos mutantes por anos a fio e a falta de apelo dos Inumanos como protagonistas. Somente um roteiro muito original, com uma premissa robusta, ritmo entorpecente e arte embasbacante poderia atrair leitores para Inhumans vs X-Men. Infelizmente, nada disso é encontrado aqui.

Por mais que Lemire, Soule, Yu e cia sejam profissionais consagrados, a premissa aqui proposta não sustenta uma história envolvente mesmo com muito esforço. Portanto, o que temos na minissérie é mais um embate genérico dentro da Marvel, com uma motivação rasa e sem muita justificativa em um formato alongado e sem brilho. Não chega a ser um desperdício de papel, mas está longe de ser uma leitura empolgante.