[Review] A Ordem de Licaão II, de Rodney Buchemi

Rodney Buchemi está de volta com sua obra autoral, A Ordem de Licaão II. O segundo volume do quadrinho, que é composto de um universo criado por ele e baseado nos mitos de lobisomens, foi lançado na Comic Con Experience 2016, mantendo a tradição anual do título; a primeira edição esteve à venda na edição 2015 do evento, mas, pouco antes disso, foi lançada no mais que tradicional Festival Internacional de Quadrinhos, o FIQ, no mesmo ano. Este primeiro número foi resenhado na época pelo Terra Zero.

Para os não familiarizados com este universo, A Ordem de Licaão é uma HQ brasileira criada por Rodney Buchemi e editada por Fábio Catena, ambos quadrinistas de longa data. A HQ da dupla conta uma história policial com diversos elementos de terror sobrenatural cujas origens remetem facilmente a mangás e quadrinhos do Conan, uma das maiores paixões de Buchemi. Nela, Tatsumo Ishihara, um ex-policial que seguiu o caminho cinza de um mercenário, surge em Belo Horizonte para ajudar a polícia local a investigar assassinatos brutais.

Se o debute de A Ordem de Licaão tinha cara de episódio piloto de um bom seriado policial de terror, o segundo número dá continuidade à história de forma mais intrigante. Personagens que pareciam deslocados no começo da trama encontraram seu lugar. A própria trama, aliás, está melhor lapidada. Mesmo tendo lido a primeira edição há tanto tempo, o leitor que pegar A Ordem de Licaão II nas mãos conseguirá se conectar à história novamente em frações de segundo. Ou seja, este é o primeiro ponto positivo da nova obra, pois mostra que Buchemi está mais à vontade com sua criação e mais seguro como criador.

Outro detalhe bacana do segundo número é que ele mantém elementos bons do primeiro número e, com profissionalismo, os eleva para níveis ainda mais interessantes. A ambientação da história, que se passa em Belo Horizonte, já é mais familiar que no começo; a mistura de mitologias antigas com o dia a dia moderno de uma capital brasileira está tão bem amarrado que não soa nada estranho um conhecimento originalmente grego andar lado a lado com o “jeitão” mineiro.

Por fim, os defeitos do primeiro número, como motivações mal explicadas e personagens que surgiam do nada, foram sanados; A Ordem de Licaão II apresenta um conto mais maduro, um que, mesmo sendo uma sequência, não poderia existir sem seu anterior, mas que certamente o melhora em diversos aspectos. Aliás, vale de novo a comparação com a TV, pois até agora o quadrinho tem mostrado um formato muito parecido com os das séries modernas produzidas nos Estados Unidos. O episódio piloto pode ter alguns defeitos e não empolgar tanto na primeira assistida, mas o que vem a seguir é evoluído constantemente, deixando o telespectador cada vez mais interessado na trama ou nos personagens. Mais um ponto positivo para a obra.

O maior problema da HQ, por incrível que pareça, é seu tamanho. Como a história engrenou muito bem, com direito a um plot twist muito bom nas últimas páginas, a boca do leitor por mais páginas de história é tão salivante quanto a dos monstros do quadrinho. Isso é bom e ruim ao mesmo tempo; se por um lado a história está mais interessante e a expectativa apoia-se em um terceiro capítulo ainda mais bacana; por outro, tem-se a sensação de que as coisas serão oferecidas em doses pequenas, com grandes intervalos.

A decisão tem cara de ser editorial, um trabalho que ficou a cargo de Catena. Isso não significa que a edição seja ruim, muito pelo contrário. Coisas como ritmo da narrativa, quebras de páginas, revisão geral e gramatical estão muito bons. Muitos quadrinhos independentes no Brasil sofrem de uma revisão mais apurada como essa, o que torna o trabalho de Catena mais um trunfo para A Ordem de Licaão. Foi só na hora de fechar o capítulo que a linha entre o desejo de querer mais e o sentimento de corte abrupto ficou tênue demais.

Fora esses pequenos detalhes, que recaem mais sobre o lado estrutural do que o criativo, A Ordem de Licaão II é um grande quadrinho. Rodney Buchemi está se firmando como um dos melhores produtores de conteúdo independente na cena brasileira e, pelo que foi visto até aqui, isso só tende a melhorar.