[Necessaire] Um herói pra você: Mulher Maravilha

Zeronauta, bem vindo ou bem-vinda à Necessaire 2017!  Estava com saudades de escrever pra vocês. Então… Lá vamos nós!!!

Vou começar contando as novidades da coluna este ano. Eu farei pra vocês três séries: Um Herói pra você; Um Herói e um conceito e Um Herói e umas músicas.

Na primeira Um Herói pra Você, que começa agora mesmo, falaremos sobre representatividade. Aqui valerá tanto o sentido histórico quanto o de representatividade em si. A ideia desta série não é que você tenha de ser obrigado a ler e gostar do personagem que “parece” com você, mas que você possa ver personagens diferentes de você e aprender a sua importância; principalmente, que todos podem ser heróis.

Então, vou começar esta série com… tã tã tã tã…

Mulher Maravilha!  (aplausos)

Zeronauta, calma, eu sei que a Diana Prince não é nem a primeira heroína a ter uma HQ solo e também que não é a que mais representa a sociedade feminina. Mas, como disse na minha introdução, esta coluna vai falar do valor histórico e de representatividade, e por isto ela foi escolhida.

Quando a Princesa Amazona surgiu, histórias em quadrinhos de herói se focavam muito em um tipo de personagem que era homem e branco, e seus símbolos eram o de inteligência e força. Já tínhamos heroínas antes da Mulher-Maravilha, mas elas geralmente eram coadjuvantes ou não eram tão populares.  Então, seu surgimento trouxe à tona uma heroína protagonizando a própria revista. Algo que se tornou muito popular.

Creio que o apelo dela seja, em grande parte, a de seu visual ser como uma versão feminina do Superman (O herói desta época). Então, ter uma heroína que era visualmente semelhante dava a Mulher-Maravilha uma aura de “respeito”. Isso se dava especialmente  com os meninos que liam os quadrinhos. Isto os fez parar na banca e dar uma chance pra esta revista nova. E mesmo as meninas, que foram surpreendidas por uma representante que se parecia com elas, e era também tão imponente.

Assim, muitos meninos e meninas pararam para ver  esta personagem. Isto foi fazendo com que meninos conhecessem uma personagem feminina que não devia nada a nenhum homem e as meninas a terem uma revista de herói que era “para elas”.

A Mulher-Maravilha é criação de William Moulton Marston (9 de maio de 1893—2 de maio de 1947), que era psicólogo, teórico feminista e também inventor do polígrafo. Marston acreditava e defendia os quadrinhos como meio educacional, tendo até escrito um artigo intitulado “Não ria dos Quadrinhos”. Por isto, ele queria criar um personagem, um herói que inspirasse de forma diferente, não sendo sinônimo apenas de força física, mas também de amor e verdade. Logo este herói teria de ser uma mulher.

Marston era polígamo, tendo se inspirado em suas duas mulheres para a criação da heroína: sua esposa Elizabeth e sua amante Olivia, que vivia com eles. Dizem que a ideia de fazer do herói de Marston uma mulher veio de Elizabeth e que os traços da heroína foram baseados no visual de Olivia.

Mulher-Maravlinha. Model Sheet por William Moulton Marston.
Mulher-Maravlinha. Model Sheet por William Moulton Marston.

Como criador também do polígrafo, Marston percebeu que as mulheres costumam falar mais a verdade, e fez disto, a Verdade, a principal bandeira de sua heroína.

Ele escreveu praticamente todos os roteiros de sua personagem, até a morte.

Colegas, não cabe a este texto discutir a vida de Charles Moulton, mas, sim, suas motivações e inspiração na criação da Mulher-Maravilha.

Em suas histórias víamos a princesa que saiu de uma ilha onde as mulheres eram fortes, líderes e independentes, tendo que lidar com o mundo do patriarcado e com mulheres que tinham que se sujeitar a esta realidade. Os questionamentos e sofrimento da Diana sobre este mundo fizeram muita gente também questioná-lo.

Isto é importante? Claro. Pense: a Mulher-Maravilha surgiu em 1941. As grandes revoluções femininas modernas da segunda onda dos anos  60 e 70. Então penso: quantas destas mulheres quando meninas não se inspiraram em Diana Prince para lutar por seus direitos e descobrirem sua força? Talvez nem todas defendam a personagem e inclusive usem o feminismo pra ir contra a mesma, mas algum efeito e questionamento a Mulher-Maravilha gerou nelas.

Após a Mulher-Maravilha, muitas outras personagens femininas importantes surgiram. Todas estas fortes, representativas e muito interessantes. Mas a Amazona tem algo que é só dela. Não sei dizer exatamente o que é. Acredito que seja por ela ser a representação de um sonho. O sonho de um dia homens e mulheres serem tratados como iguais.

Quero deixar minha menção honrosa neste texto à Lynda Carter, que popularizou a personagem na transmídia, a partir do final dos anos 1970. Lynda mostrou a Mulher-Maravilha como uma mulher moderna, uma heroína forte, competente, mas também amorosa e elegante.

Mulher-Maravilha, a personagem que revolucionou, inspirou mulheres e mudou a visão de muitos homens. A personagem que representa um sonho e uma força que muitas não sabiam que tinham. Nem todas vamos voar, desviar balas e levantar ônibus, mas podemos ser maravilhosas e maravilhosos em nossa maneira de viver e, assim como Diana, lutarmos pela verdade, sonharmos com a paz e termos amor pelo nosso próximo.


Dicas de leitura da Dé:

Mulher-Maravilha: o Espirito da Verdade, de Paul Dini e Alex Ross

Hiketeia, de Greg Rucka e J.G Jones

Wonder Woman ’77, de Marc Andreyko

Mulher-Maravilha, por George Perez — praticamente todo a fase dele, com detalhe especial nos arcos “Deuses e Mortais” e “O Desafio dos Deuses”

Mulher-Maravilha Novos 52, de Brian Azzarello e Cliff Chiang

Mulher-Maravilha Rebirth, de Greg Rucka

The Legend of Wonder Woman, de Renae de Liz e Ray Dillon

Mulher-Maravilha, de Gail Simone (2008–2010)

Convergência: Mulher-Maravilha, de Larry Hama

Especial de 75 anos da Mulher-Maravilha

  • Felipe Ribeiro Santa Fé

    Excelente texto. Passei a acompanhar a Mulher Maravilha regularmente somente a partir do Rebirth, embora já nutrisse uma admiração especial pela personagem. Obrigado pelas dicas de leitura.

  • Camilo Lelis Ferreira da Silva

    Hoje, o espaço de Referência para Mulheres, antes ocupado pela Mulher Maravilha, hoje é ocupado pela Arlequina, infelizmente…

    • Eu acredito que a Arlequina tenha tomado o espaço mais da Mulher-Gato mesmo, não da Mulher Maravilha :)

  • Alexandre Neves

    Acredito que o público leitor da Mulher-Maravilha seja majoritariamente masculino. Acho que as mulheres não ligam muito para a Princesa Amazona.

  • Pingback: [Análise] O último trailer de Mulher-Maravilha | Terra Zero()

  • Eu incluiria nas dicas de leitura toda a fase do Greg Rucka, que saiu no meio dos anos 00. É uma das melhores HQs de heróis que já li e fez que eu me apaixonasse totalmente pela personagem.