[Entrevista] Mark Russell: Um novo Leão da Montanha na DC

Existem autores tão perspicazes, afiados e certeiros em suas análises políticas e sociais que colocá-los em quadrinhos pode se tornar uma tarefa desafiadora para qualquer time editorial. É preciso ter uma visão clara do conteúdo e entendimento profundo do estilo do profissional para colocá-lo exatamente onde ele deve estar na hora certa. Este é o caso de Mark Russell na DC. Estreando na editora em 2015 durante a ousada iniciativa DC You no quadrinho Prez, Russell deixou uma ótima impressão no público mais atento com um estilo de narrativa crítica e bem humorada. Isso lhe valeu uma oportunidade no quadrinho The Flintstones, que alavancou o lançamento da nova linha Hanna-Barbera pela DC.

Com uma visão inovadora da família mais famosa da idade da pedra e usando novamente inteligência e bom humor para fazer críticas muito sérias, Russell tornou The Flintstones uma referência em conteúdo satírico na editora em 2016 e 2017. Agora, Mark Russell parte para seu projeto mais inusitado e intimista: reimaginar o personagem Leão da Montanha. Nesta entrevista exclusiva, Russell conta ao Terra Zero tudo sobre este novo Leão da Montanha, sobre seu trabalho com os Flintstones e sobre suas influências para criar um conteúdo tão válido nos dias de hoje.

Arte: Howard Porter.

Então Mark, como você conseguiu botar o Leão da Montanha em um quadrinho solo? Todos ficaram muito surpresos com isso por aqui?

Eu também fiquei muito surpreso! Eu já vinha escrevendo pequenas linhas de diálogo no para o Leão da Montanha e o Dom Pixote como se eles fossem dois poetas góticos gays sulistas. E, mesmo depois que me ocorreu de que isso daria um ótimo quadrinho, eu nunca pensei em um milhão de anos que seria aprovado. Eu dei a ideia esperando que eu receberia uma gargalhada sincera seguida de uma rejeição firme. Ao invés disso, tive uma resposta de volta da DC Comics me pedindo para incluir mais personagens Hanna-Barbera. Como minha editora Marie [Javins] disse na época: “Eu não posso acreditar que chegamos tão longe”.

Entendemos que esta é uma nova interpretação ousada do Leão da Montanha. Você pode descrever sua visão do personagem, assim como do quadrinho todo?

Diferente de Prez e The Flintstones, que eram mais políticos em sua natureza, eu quero que esta seja uma história mais íntima sobre criatividade e isolamento. De muitas formas, acho que escrever é um processo de externalizar a solidão. Quero que este quadrinho seja sobre o que acontece na alma de alguém que sente que só pode ser ele mesmo através de sua arte.

Arte: Dan Panosian.

Crescendo nos anos 1980, o Leão da Montanha sempre me pareceu um personagem naturalmente gay, mas isso era ignorado na época por motivos óbvios. Como tem sido a resposta do público e fãs desde o anúncio e descrição do personagem?

Positiva em sua maioria. A grande resposta que tenho da maioria pode ser condensada em um “Mas é claro! Como não fizeram isso antes?”, que é um bom sinal de que estamos fazendo algo direito. Além disso, a comunidade peluda parece ter opiniões fortes sobre como a arte deve ser.

Como você teve a brilhante e estranha ideia de retratar o Leão da Montanha como um roteirista de teatro gótico sulista e gay?

Bom, começou com o Dom Pixote, que é um cavalheiro sulista no sentido tradicional. Então achei que seria engraçado tentar dar a ele estas ponderações brutalmente perspicazes, mas poéticas, que você esperaria de [William Cuthbert] Faulkner ou Tennessee Williams. Mas então me ocorreu que o Leão da Montanha sempre está usando termos de teatro, e como você notou, ele é obviamente gay, e encaixaria melhor em muitas dessas ideias.

Arte: Steve Pugh.

Alguns leitores consideram seu trabalho em Prez e, depois, nos Flintstones como um reflexo ou sátira de eventos acontecendo na época de suas publicações. Você concorda?

Isso seria um pouco difícil, porque escrevo estas edições com antecedência de alguns meses em relação à sua publicação. Mas nós parecemos cometer os mesmos erros repetidamente. Então eu somente escrevo as coisas que me incomodam no mundo e, particularmente, nos Estados Unidos e, mesmo que estas questões não sejam relevantes quando a edição for publicada, sei que em breve elas se tornarão relevantes.

O quadrinho do Leão da Montanha também fará este tipo de comentário social e político presente nos Flintstones ou você quer levar a história em outra direção?

Haverá algum comentário social em Leão da Montanha. Eu acho que teria dificuldade em escrever algo sem este tipo de coisa, mas será uma história diferente e mais introspectiva, sobre a vida e os percalços de ser um artista.

Arte: Steve Pugh

Como foi o suporte da DC sobre sua abordagem, tanto de Flintstones quanto do Leão da Montanha? Houve algum conteúdo que teve de ser negociado com a Hanna-Barbera?

A DC lidou com todas as questões com a Hanna-Barbera e o suporte foi ótimo já por causa disso. A DC me permitiu escrever quase tudo que queria escrever, contanto que o conteúdo não violasse a classificação etária do quadrinho ou que levasse a algum processo de violação de direitos autorais. Todos na DC tem sido maravilhosamente prestativos e dado o suporte a tudo que tenho feito.

Sua visão dos Flintstones parece ser a de uma família essencialmente composta por boas pessoas tentando sobreviver em um sociedade na qual eles não se encaixam muito bem. Isso é preciso?

Sim! É basicamente isso mesmo. Eu acho que os Flintstones, resumidamente, fazem a pergunta: “Como os seres humanos conseguem ser tão bons individualmente, mas tão podres juntos como uma civilização?” No entanto, deve ser destacado que, nos Flintstones, assim como na vida real, nem todo mundo é bom e nem tudo sobre uma civilização é podre.

Arte: Ben Caldwell

Tendo em vista que ambos são reimaginações de temas bem populares, o quanto o seu trabalho em God is Disappointed in You influenciou os Flintstones?

Eu acho quase impossível não escrever sobre religião. Então as questões básicas sobre o que precisamos da religião e o que ela exige de nós que permeiam God is disappointed in You também estão presentes no decorrer de The Flintstones. Eu decidi que, como artista, você não deve fugir das coisas que é atraído para escrever. Como artista, tanto você escolhe seus temas quanto eles escolhem você.

Você já está pensando em outras interpretações de personagens de antigos desenhos animados, ou Leão da Montanha foi uma coisa única?

Eu não faço ideia do que farei após Leão da Montanha. Se serei atraído para algo dentro da DC ou outro universo em quadrinhos, talvez. De outra maneira, posso escrever algo totalmente diferente. Um romance, talvez.