[Entrevista] Sam Hart: A criação do quadrinho que originou o filme Atômica

Muito em breve, o filme Atômica (Atomic Blonde) chegará aos cinemas do mundo todo. Apesar de ter sido baseado em um quadrinho independente lançado em poucos países, o longa traz um elenco, trilha sonora e técnicas de filmagem para fã de ação nenhum botar defeito. Nele estarão atores como Charlize Theron e James McAvoy protagonizando a adaptação de The Coldest City, uma HQ da Oni Press feia por Antony Johnston e Sam Hart.

O Terra Zero conversou bastante com Hart sobre a HQ e sua adaptação, e ainda teve a chance de trocar duas palavrinhas com Johnston. Vamos conferir o bate-papo?

Capa de The Coldest City por Sam Hart.
Capa de The Coldest City por Sam Hart.

Pra começar: como assim seu avô trabalhou pro MI-5? Compartilha com a gente esta história.

Sam Hart: Não tenho muito o que compartilhar, infelizmente, porque ele não podia falar a respeito. Era tudo confidencial. O que sei é que ele trabalhou no MI-5, na área de contraespionagem, durante o período da Segunda Guerra. Depois virou professor universitário de direito, escrevendo alguns livros muito influentes na área. [N. do E.: Sam está sendo modesto: seu avô escreveu O Conceito da Lei, que é considerado o livro mais importante sobre filosofia legal do século 20]

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No que este histórico familiar colaborou para você construir o universo visual de The Coldest City?

Desenhei a personagem principal, Lorraine Broughton, com as feições da minha avó, quando jovem, e o personagem que a entrevista ao longo do livro é baseado no meu avô, como maneira de os homenagear.

Houve colaboração narrativa entre você e Antony Johnston em que níveis, para a concepção da história?

Quando o Antony [Johnston] me chamou, o roteiro já estava escrito por completo, com todas as indicações de personagens, acontecimentos, diálogos, inclusive o formato (16 x 23 cm, um pouco menor que o formato Americano). Ele também pediu para que fosse em preto e branco, sem tonalidades de cinza, para reforçar a ideia de contrastes entre as partes.

Lorraine Broughton, no traço de Sam Hart, em cena de The Coldest City.
Lorraine Broughton, no traço de Sam Hart, em cena de The Coldest City.

Algo peculiar em seus traços faciais para esta história é que eles dão margem ao leitor para também imaginar exatamente a fisionomia dos personagens. Esta opção de character design tem a ver com o tema do álbum?

Foi uma opção minha para a temática da história, a fim de que os personagens ganhassem um pouco de ambiguidade. Afinal, numa HQ de espiões, você nunca sabe de onde virá a ameaça. As sombras pesadas também tiveram essa finalidade.

Você chegou a conhecer Berlim nos anos 1980? Como você concebeu a cidade dividida nos dias que antecederam a queda do Muro, em 1989?

Nunca fui para a Alemanha. Usei muita referência visual de época, de filmes e da internet, mas imagino que o muro e o exército devam ter sido uma presença intimidadora.

Você e Johnston não tiveram envolvimento com as negociações para a realização do filme. Vocês, no entanto, se envolveram com a produção em algum momento?

Eu não estive envolvido na produção, evitei até assistir ao trailer antes de ver o filme pronto, então deixarei que o Antony responda.

Antony Johnston: Eu revisei várias versões do roteiro e dei notas e sugestões. Também visitei o set em Budapeste durante as filmagens, o que foi uma experiência fantástica. Mas não estive envolvido ou presente em todos os momentos da produção.

Até o momento, os espectadores tiveram acesso apenas ao trailer de Atomic Blonde e a algumas imagens de bastidores. Se você teve acesso a mais do que isso, o que acha que podermos esperar do filme?

Adorei o filme. Até as alterações que fizeram (a começar pelo nome) fazem sentido. É outro meio e a narrativa precisa ser alterada para levar em conta a fala, a possibilidade de som e música, o movimento e a ação. Ação que, neste filme, é o foco do diretor, ex-dublê de longa data, e da Charlize [Theron], que disse querer se firmar (também) nesse gênero. Sobre isso [o que esperar do filme], o Antony também tem o que comentar.

Antony Johnston: Bem, mais do mesmo! O visual está incrível e as cenas de ação estão em outro nível se comparadas com produções semelhantes. São de tirar o fôlego. A trilha sonora está cheia de músicas bacanas dos anos 1980. O que pode surpreender algumas pessoas é que o filme também tem uma trama complexa que, estruturalmente, está muito similar à da graphic novel. Até mais do que eu esperava! O ritmo do filme é extraordinário, veloz como uma bala do começo ao fim.

Alguma editora já contratou a obra no Brasil?

Coloquei algumas editoras em contato com a Oni Press, mas ainda não tive confirmação de nenhum contrato finalizado.

Você e Johnston têm novas parcerias em mente?

Estamos ambos ocupados com outros projetos – terminei mais um livro com Tony Lee, sobre a pirata histórica do século 15, Grace O’Malley, e já estou esboçando as páginas do meu próximo projeto autoral. Quem sabe no futuro ;)

Por último, Sam, a palavra é toda sua. Mande o recado que você quiser para os nossos leitores.

Para quem gosta de livros e HQs de espionagem, como John le Carré ou Velvet, leiam a HQ. Para quem gostou dos filmes de John Wick, assistam ao longa. Se gostar das duas coisas, melhor ainda!