[Review] Black Hammer, de Lemire e Ormston

Os dilemas, angústias e conflitos de super-heróis em decadência já foram muito bem explorados em histórias em quadrinhos desde antes do formato ocidental adulto da arte ser popularizado pelo selo Vertigo nos anos 1990. O fascínio do leitor pelo que acontece à vida pessoal de um ídolo quando este atinge o fundo do proverbial poço é equiparável somente a admiração que temos pelos nossos heróis. Motivado por este tema, o quase que onipresente Jeff Lemire (Sweet ToothSoldador Subaquático) se une ao ilustrador Dean Ormston (Juiz DreadLucifer) para explorar os percalços de heróis em decadência na nova Black Hammerpublicada pela Dark Horse.

Esta resenha compreende o primeiro arco de Black Hammer, que compila seis edições de 32 páginas publicadas a partir do segundo semestre de 2016.

Black Hammer conta a história de um grupo heterogêneo de super-heróis que, após a maior batalha de suas carreiras (contra um ser chamado convenientemente de Anti-Deus) se veem afastados da grande metrópole chamada Spiral City e isolados em uma pequena e bucólica comunidade agrícola sem possibilidade de escapar. Soma-se a isso a aparente morte de seu líder e o principal herói da história, chamado Black Hammer – personagem que aparece somente em flashbacks nobres e heroicos e dá nome a obra de Lemire – e temos um pano de fundo para inúmeros conflitos de personalidade.

Portanto, na fazenda dos heróis decadentes vivem quase todos aqueles deliciosos estereótipos de heróis que estamos carecas de conhecer: o ex-boxeador e combatente de crime urbano Abram Slam; o explorador do interdimensional Coronel Weird e seu fiel e incansável autômato Talky Walky; Golden Gail, a mulher adulta que se transforma em uma menina superpoderosa ao pronunciar uma palavra mágica, o alienígena transmorfo tentando se passar por um ser humano Barbalien e a atormentada bruxa Madame Dragonfly, capaz de feitos incríveis mas vítima de uma terrível maldição. Lemire começa sua história quando os heróis já estão exilados da realidade há dez anos. Black Hammer está desaparecido e, enquanto alguns tentam ainda se ajustar a esta vida mais simples, outros estão a ponto de um colapso total de suas faculdades mentais.

A cada edição de Black Hammer, Lemire explora mais a fundo a mitologia individual de cada um destes personagens e o que estes anos de isolamento fizeram a cada um deles. Assim o autor dá uma carga dramática muito forte e uma veracidade incrível nas reações e distúrbios gerados por esta situação. Portanto temos ex-mitos forçados a reações de angústia profunda, raiva, solidão, saudade, cansaço mental, insanidade pura e todo tipo de sentimento opressivo que muitos de nós às vezes experimentamos, graças a uma rotina sufocante. Todas estas reações emocionais muito incomuns para tipos altivos que estavam acostumados somente a socar bandidos em becos e enfrentar invasões multiversais.

Toda esta atmosfera pesada e dramática é muito bem balanceada com os flashbacks mostrando a era de ouro destes heróis, com certa dose de humor desconfortável. Lemire atinge um equilíbrio incrivelmente tênue entre o drama e a comédia em algumas edições e a leitura ao final é um misto de emoções conflitantes, assim como a nossa vida muitas vezes. Além do drama, certa dose de ação e humor, Black Hammer é permeado por um ar de mistério inquietante. Ninguém sabe ao certo onde está localizada a comunidade na qual os heróis estão isolados. Ninguém tem pistas de como escapar dali, mas, ao mesmo tempo, alguns personagens parecem saber mais do que aparentam e ter agendas escusas. Há muito de mistério e ficção a ser explorado em um arco posterior e a leitura torna-se intrigante pois, além do ótimo elenco e seus diálogos muito humanos, as possibilidades narrativas são extremamente vastas.

A arte de Dean Ormston (The Eaters) talvez seja o ponto mais desconfortável desta publicação. E isso é um elogio. O design de personagens é propositalmente cafona, as cenas na fazenda tem uma atmosfera incômoda e claustrofóbica, as expressões corporais nos flashbacks são heróicas mas, ao mesmo tempo, parecem inverossímeis e tudo que se passa na comunidade agrícola parece torturante para os personagens. Se a intenção de Lemire é transmitir que nenhum (ou quase nenhum) membro deste elenco quer estar ali, Ormston faz um trabalho excelente. Além de toda a atmosfera muito pesada na parte gráfica, o ilustrador presta inúmeras homenagens a temas e criadores de quadrinhos clássicos no decorrer das seis primeiras edições de Black Hammer. O fluxo de leitura é muito confortável e as expressões e reações do elenco são variadas e nítidas para o leitor. O estilo de desenho de Ormston é intencionalmente feio e você não vai encontrar um quadrinho de super herói lindíssimo e brilhante em Black Hammer. Estamos aqui pra ler e sofrer, tanto no roteiro quanto visualmente.

Black Hammer é um quadrinho com múltiplas facetas: temos a primeira vista uma intrigante história de ficção super-heroica com mistérios e camadas ainda não reveladas. Somado a isso, muitas referências e homenagens bem feitas aos mitos dos quadrinhos. As relações de elenco são formadas através de diálogos que criam situações que vão do drama mais lúgubre até a comédia cotidiana. No entanto o que este quadrinho mostra em todas as suas edições são ícones se contorcendo pelo peso da realidade cotidiana até o ponto de se tornarem tão humanos quanto você e eu. Com uma arte que tem personalidade mais do que suficiente para transformar este trabalho em um novo clássico e uma cadência de leitura extremamente confortável, Black Hammer é atualmente o quadrinho periódico que mais se destaca na linha de publicações da Dark Horse e, quiçá, do mercado estadunidense.

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