Pós-ComicPod 352: Conan – Estudando o Cimério

Todos ouviram nosso ComicPod especial sobre Conan, O Bárbaro (se não ouviu, está esperando o quê, cão leproso?). Muitas coisas foram ditas; muitas não foram, especialmente por mim, que selecionei o tema, preparei a pauta e dei na mão do Vlad para ele, como sempre, conduzir magistralmente nossa principal atração de áudio do Terra Zero.

A história de como comecei a ler e colecionar Conan já foi contada no programa. Portanto, não vou estendê-la aqui. Todavia, gostaria de pegar uma calhamaço de páginas escritas por Kurt Busiek (adaptando o material original de Robert E. Howard, criador do cimério) para me aprofundar em algumas reflexões que estas histórias ofereceram e que não foi possível dizer no programa, seja por falta de tempo ou porque tínhamos muitas outras coisas a serem ditas.

Conan e a Filha do Gigante de Gelo. Arte de Cary Nord e Dave Stewart.
Conan e a Filha do Gigante de Gelo. Arte de Cary Nord e Dave Stewart.

Vou analisar, portanto, uma sequência de histórias reunida nas primeiras edições mensais de Conan produzidas pela Dark Horse e lançadas aqui pelo Mythos, recentemente relançadas pela mesma editora em um luxuoso e belíssimo encadernado intitulado Conan – A Filha do Gigante de Gelo / À Mercê dos Hiperbóreos. Nas adaptações destes contos, produzidas por Busiek, Cary Nord e Dave Stewart, o leitor tem a chance de se deparar com algumas das primeiras histórias (cronologicamente falando) do cimério. Ainda jovem e recém saído de sua terra natal para se aventurar pelo mundo cujo conhecimento prévio vinha apenas de lendas e relatos antigos, nosso herói busca pela terra prometida de Hiperbórea. Mas antes, um prólogo fundamental para entender a vida do personagem abre os olhos do leitor e lhe mostra um horizonte jamais visto.

Wazir, um feiticeiro a serviço de um príncipe mimado e entediado, caminha com ele por terras desconhecidas em um futuro distante e descobre, numa caverna, a estátua do Rei Conan. Caída. Nela, alguns dizeres falam de seus feitos como rei da Aquilônia, o maior reino de seu tempo. Wazir, como é revelado em seguida, é Toth-Amon, o feiticeiro estígio que foi o pior inimigo de Conan em vida; todavia, ele guarda isso para si e relata a vida do cimério através de pergaminhos que sua falecida esposa, a rainha Zenobia, deixou pra trás. Assim começam, cronologicamente, as histórias publicadas pela Dark Horse.

Wazir/Toth-Amon e o príncipe descobrem a estátua de Conan, o Rei. Arte de Cary Nord e Dave Stewart.
Wazir/Toth-Amon e o príncipe descobrem a estátua de Conan, o Rei. Arte de Cary Nord e Dave Stewart.

O leitor se deparar com o Conan da mesma forma que o príncipe é uma escolha de roteiro fantástica. Busiek coloca todos na pele dele, que morre de curiosidades para saber quem foi aquele bárbaro que sobrepujou as limitações de sua sociedade e se tornou rei da maior cidade da Era Hiboriana. Como ele nascera? O que vivera? Como sobrevivera a tantas adversidades a ponto de sair de uma comunidade de vida sofrida e alcançar o reinado? A curiosidade do príncipe é o convite que o leitor precisa para entender como Conan é mitológico para a cultura pop, assim como é fundamental para entender um dos estilos de ficção mais amados da sociedade moderna: Espada & Feitiçaria.

A partir daí, as coisas ficam mais fáceis de serem compreendidas até para quem nunca ouviu falar de Conan. Busiek adapta os contos de Robert E. Howard com muita fidelidade e passa, com precisão, as mensagens originais do autor. A sequência A Filha do Gigante de Gelo / À Mercê dos Hiperbóreos resume muito bem o que o Conan passou no começo da vida; como aventuras, elas mostram o personagem buscando uma terra incrível narrada pelo seu avô (Hiperbóerea) e se depara com monstros de gelo e sua filha de voz sepulcral. Aliado aos aesires, que têm seus próprios interesses no cimério mas reconhecem também sua honra, Conan parte para Hiperbórea, mas, quando enfrenta esses monstros, ele descobre que a terra prometida não era bem o que ele imaginava.

O mapa da Era Hiboriana usado pela Dark Horse possui grandes semelhanças com o original criado por Howard e seus sucessores.
O mapa da Era Hiboriana usado pela Dark Horse possui grandes semelhanças com o original criado por Howard e seus sucessores.

Hiperbórea é formada por um clássico caso de uma capa de utopia escondendo um horrível mundo de distopia. Os relatos que Conan ouviu do avô eram verdade, mas aquele mundo maravilhoso em que as pessoas tinham forma diferente, eram altas e viviam em perfeição e harmonia sob um verão infinito só era possível graças ao árduo trabalho de muitos escravos na catacumbas do local. Mas o que mais choca o cimério é ver que os hiperbóreos têm tantas coisas que um dia se matam. Em determinado momento, eles não enxergam mais razão para existirem, pois sempre tiveram tudo na vida. Portanto, eles saltam ao infinito e, segundo a crença hiperbórea, suas almas se reencontram com os deuses que lhes deram vida. Não é isso exatamente que deixa Conan indignado, mas sim o fato de os escravos de cada hiperbóreo pularem juntos – e, pela crença deles, não terem a mesma chance de alcançar os deuses, algo reservado apenas para os de sangue puro, que evoluíram por séculos e séculos graças à drenagem da essência vital de alguns escravos e prisioneiros.

Os comentários sociais presentes nas histórias são diversos. Mesmo não sendo inéditos, eles enriquecem uma leitura que já é agradável por si só, recheando um bom bolo com reflexão sobre sociedades antigas e modernas:

  • Até que ponto um líder espiritual pode cegar seus seguidores a ponto de fazê-los morrer por eles? O 11 de setembro trouxe de volta este pensamento da forma mais dramática possível;
  • Conan se indignou com a situação e comprou a batalha, motivado pela sua decepção ao descobrir do que aquele paraíso era feito e dos sacrifícios que testemunhou. É possível fazer isso no mundo real? Há uma maneira?
  • A realidade brutal por trás da capa fantasiosa de Hiperbórea é como a maioria das sociedades vivem até hoje. Os Estados Unidos, por exemplo, são há décadas uma grande potência econômica no ocidente e partes do oriente, mas suas riquezas se mantêm ativas com conflitos armados, financiamento de guerras, invasões a territórios estrangeiros, mão de obra barata vinda da América Latina ou do Oriente. Seria essa a natureza humana? Não há chances de isso mudar?
  • Apenas os hiperbóreos têm benefícios e alcançam os deuses. Segregações de ordem racial ou social existem desde tempos imemoriais. Ainda hoje é assim. Isso também faz parte da nossa natureza? O ser humano naturalmente exclui o mais “fraco”?

Como disse, nenhum destes questionamentos (e outros que estão nas histórias mas que não foram citados para evitar spoilers) é inédito para quem lê quadrinhos (ou livros, ou veem filmes etc), mas chama a atenção isso estar colocado nas crônicas de um aventureiro no passado longínquo. Conan passou anos no inconsciente coletivo como um brutamontes que fala meia dúzia de frases e enche todo mundo de porrada, bêbado ou não. Nos quadrinhos e nos contos originais, Conan é articulado, político, espirituoso, honrado e honesto. Ele tem defeitos como qualquer um de nós, mas segue princípios bem definidos. Princípios que o fizeram sair de sua aldeia, passar por aventuras que não ensinam lições valiosas e tornar-se rei de uma civilização que o odiava, mas precisava ser salva de um megalomaníaco que pouco se importava com as necessidades de seus súditos.

Conan se depara com os monstros de gelo. Arte de Cary Nord e Dave Stewart.
Conan se depara com os monstros de gelo. Arte de Cary Nord e Dave Stewart.

Leiam Conan. Se ainda não ouviram nosso ComicPod, o momento é perfeito; se não leram Conan, a hora é agora. Esqueçam os filmes, a série, os desenhos. O importante é este material. Seja o original (Robert E. Howard), o clássico (Roy Thomas e outros) ou o moderno (Kurt Busiek e Timothy Truman e outros). Pesquisem, vejam que conhecimentos seu criador absorveu para criar um universo rico, com mapas, povos e linguagens muito antes de outros ícones da fantasia como J.R.R. Tolkien pudessem fazê-lo. Vejam como um homem jovem nascido em 1906 conseguiu obter informações sobre Lemúria, Atlântida, pictos escoceses, civilizações orientais antigas e coisas que hoje estão a um clique de alcance, mas, na época, só estavam em poder de grandes estudiosos. Eles caíram nas mãos de um jovem ávido por conhecer o mundo e relatar suas histórias em revistas que lhe pagavam uma mixaria, que jamais deram o devido reconhecimento que ele merecia. Esta é sua chance de conhecer e homenagear um dos maiores escritores de todos os tempos.

  • Adilson Alves

    Mais um show de ComicPod. Não conhecia os detalhes da criação do Conan e a vida do Robert E. Howard. Desse jeito, vale o investimento no Padrim.

  • Rafael Olhaberriet

    Um dos melhores podcasts sobre Conan, parabéns!