DC no Cinema: História cíclica, futuro incerto

É irônico como a História é cíclica. É algo que também vale para a cultura pop. E para a DC, no cinema. Quando o Terra Zero começou a dar seus primeiros passos em um bloguezinho no Blogspot chamado Universo DC Online, circulavam pela internet as notícias de que George Miller estava preparando as filmagens de um longa da Liga da Justiça e de que Bryan Singer e a Warner estavam dando andamento na sequência de Superman – O Retorno. Nenhum os dois filmes saiu. Por vários motivos.

Vamos começar falando da Liga, cuja repercussão foi bem maior.

George Miller quase dirigiu a Liga da Justiça para a DC no cinema.
George Miller quase dirigiu a Liga da Justiça para a DC no cinema.

Miller dispensa apresentações para qualquer público. O diretor australiano fez de filmes pós-apocalípticos insanos como toda a franquia Mad Max (inclusive o mais recente, Mad Max: Estrada da Fúria, de 2015) a animações infantis (Happy Feet). Sua diversidade criativa só teria a acrescentar no mundo cinematográfico da DC quando seu nome foi anunciado como diretor de um filme da Liga da Justiça, mesmo que o elenco fosse…. estranho, para dizer o mínimo:

  • D. J. Cotrona como Clark Kent / Superman
  • Armie Hammer como Bruce Wayne / Batman
  • Megan Gale como Diana Prince / Mulher-Maravilha
  • Adam Brody como Barry Allen / Flash
  • Common como John Stewart / Lanterna Verde
  • Santiago Cabrera como Arthur Curry / Aquaman
  • Hugh Keays-Byrne como J’onn J’onzz / Caçador de Marte
  • Zoe Kazan como Iris Allen
  • Jay Baruchel como Maxwell Lord
  • Teresa Palmer como Talia al Ghul

De qualquer forma, o filme era muito aguardado e refletia as histórias que a DC estava publicando na época; a sinopse oficial dizia que Justice League Mortal (título do longa) seria uma história em volta do Batman e sua desconfiança com a quantidade de meta-humanos no mundo. Ele então construiria uma tecnologia de inteligência artificial para substituir a Liga da Justiça, uma que acabaria se voltando contra ele e procuraria dominar o mundo. Ou seja, uma premissa extremamente semelhante à da minissérie em quadrinhos Crise Infinita (de Geoff Johns, Phil Jimenez, George Pérez e Ivan Reis) e seu prólogo Projeto OMAC (de Greg Rucka e Jesus Saiz). OMAC é justamente a tal tecnologia supracitada e provavelmente ela teria este nome no filme também.

OMAC Proect #1 em arte de José Ladrönn.
OMAC Proect #1 em arte de José Ladrönn.

Naquela época, Christopher Nolan estavam terminando de filmar Cavaleiro das Trevas e seu acordo com a Warner não permitia que o “seu Batman” fosse utilizado em outro filme. Como a sequência de Superman – O Retorno estava quase engavetada e o contrato com Brandon Routh não fora renovado, a Warner não via problemas em fazer o público ver outras pessoas sendo Batman e Superman nas telonas. Ou seja, não haveria universo compartilhado.

Os problemas começaram no último trimestre de 2007, quando Miller assinou o contrato de direção do longa. Já se sabia que os roteiristas de Hollywood estavam para iniciar uma greve e a Warner queria que Justice League Mortal fosse filmada antes disso. Outro desejo do estúdio era que o longa fosse todo filmado com tecnologia de captura de movimento para pós-produzir digitalmente em seguida, algo similar ao que foi feito com Beowulf na mesma época. O orçamento aprovado foi de 220 milhões, algo estrondoso já naquela época.

Impossibilitados de fazer qualquer coisa antes do início da greve, a Warner adiou as filmagens para fevereiro de 2008 na Austrália, assim Miller teria um terreno muito familiar para colocar sua Liga. Essa notícia foi dada ainda em 2007. Quando o ano virou, tudo miou; a Warner anunciou oficialmente que a produção entraria em hiato indefinido porque a greve bagunçou todo o cronograma. Havia um desejo de filmar em abril, mas desta vez no Canadá, mais perto de Hollywood e com várias deduções de taxas oferecidas pelo governo canadense.

Atrapalhados com os planos mais uma vez, a Warner adiou tudo para julho daquele ano, mas rumores indicavam que a classe de atores entraria em greve em junho. Enquanto isso, o roteiro estava sendo rescrito para satisfazer as necessidades e desejos da Warner naquele momento. Com a Austrália oficialmente fora da jogada, Miller ficou desgostoso:

Uma oportunidade única para a indústria australiana está sendo jogada fora graças a pensamentos preguiçosos. Estão jogando fora centenas de milhões de dólares de investimento que o resto do mundo compete para ter e, pior, tirando a oportunidade de trabalho de pessoas muito criativas.

A partir daí, foi tudo por água abaixo. Miller e a Warner ficaram sem financiamento necessário para dar conta da produção; contratos com os atores foram cancelados e nenhuma cena sequer chegou a ser rodada; o contrato com Miller também foi cancelado e Justice League Mortal morreu de vez (com o perdão do trocadilho). Então, temos Superman.

Pòster de Superman - O Retorno. Reprodução.
Pòster de Superman – O Retorno. Reprodução.

O histórico de tentativas de fazer um filme do Homem de Aço entre 1987 e 2006, quando Superman – O Retorno saiu, é grande e está bem documentado. Porém, graças à internet, mais gente ainda pôde acompanhar o que a Warner tentou fazer depois disso, ainda com Bryan Singer, Brandon Routh, Kate Bosworth e Kevin Spacey. Com mais ação, mais kryptonianos e Brainiac como vilão principal (que serviria para matar o filho do Superman e causar uma reviravolta tremenda neste universo), o filme prometia ser aquele que os fãs do herói sempre quiseram. Mas não rolou.

Assim como Justice League Mortal, o projeto começou a sofrer constantes adiamentos, primeiro por causa da greve, depois por insatisfação da Warner quanto ao faturamento do anterior (cerca de 400 milhões de dólares) e, por fim, porque os próprios profissionais envolvidos começaram a assinar contratos para outros projetos. Quando os aparelhos foram desligados, o então presidente de produção da Warner, Jeff Robinov, afirmou que:

Vamos reiniciar a franquia. Superman – O Retorno não funcionou tão bem quanto gostaríamos. Não colocou o personagem no lugar em que precisávamos. Se ele tivesse funcionado bem em 2006, teríamos a sequência no Natal deste ano [2008] ou no ano que vem. Agora, os planos são de reintroduzir o Superman.

O que aconteceu depois é história.

Pôster promocional de O Homem de Aço (2013). Reprodução.
Pôster promocional de O Homem de Aço (2013). Reprodução.

Veio O Homem de Aço, a DC/Warner optou por fazer uma sequência com um novo Batman e a primeira Mulher-Maravilha dos cinemas e, enfim, teremos a Liga da Justiça neste ano, cujo primeiro trailer deve sair em breve, segundo a atriz Gal Gadot. Contudo, pouca gente tem notado uma semelhante repetição do que aconteceu dez anos atrás, a começar pelo próprio Batman vs Superman. Sua estreia original estava marcada para 2015, tanto que o filme foi todo feito em 2014. Algo o empurrou para 2016 e o resultado, perante crítica e boa parte dos fãs, foi desastroso. Seu faturamento? Cerca de 870 milhões de dólares. Seu custo? Exatamente 250 milhões com produção, possivelmente o mesmo com marketing, totalizando meio bilhão de dólares.

Isso não mudou o lançamento dos três filmes seguintes (Esquadrão Suicida, Mulher-Maravilha e Liga da Justiça), mas obrigou a Warner a tomar providências para que o fracasso crítico não se repetisse. Esquadrão foi mexido em cima da hora, teve sua tonalidade mudada e, segundo o próprio diretor David Ayer, cerca de seis cortes diferentes foram produzidos. O filme se deu muito bem na bilheteria, mas falhou miseravelmente na crítica. Agora, a esperança do estúdio está em Mulher-Maravilha (que já está ganhando bad buzz) e Liga da Justiça.

Não há relatos de mudanças de última hora no longa da Mulher-Maravilha (que estreia em junho), apesar de sua data de lançamento ter sido adiantada e da mudança de diretora (saiu Michelle MacLaren, entrou Patty Jenkins); já com a Liga da Justiça a história é outra. Comandada por Zack Snyder, que também fez O Homem de Aço e Batman vs Superman (e que é, há alguns anos, um dos diretores estadunidenses mais massacrados pela crítica), a Liga mostrou uma diferença de tom muito drástica para com o resto do DC Extended Universe quando teve seu primeiro teaser revelado ano passado. Tudo está mais leve, engraçado, os personagens parecem se dar superbem…. Não é bem o estilo de Snyder.

A Warner chegou a convidar a imprensa para ver algumas cenas serem filmadas e todos foram recebidos não por Snyder ou graúdos da Warner, mas por Ben Affleck, o mais respeitado cineasta e ator em toda a produção. Mas o pior começou a acontecer no fim do ano passado, pois, depois do que houve com Batman vs Superman e com o Esquadrão, ficou claro que todo o planejamento anunciado pelo estúdio em 2014 foi para o brejo. Com exceção do longa do Aquaman que está com produção em andamento e filmagens agendadas para breve, o resto é mistério, com destaque para o Flash de Ezra Miller, que já perdeu Seth Grahame-Smith e Rick Famuyiwa. Ou seja, a cadeira de diretor continua sem ocupante.

Era dito desde 2015 que o Batman ganhará um filme solo dirigido e roteirizado pelo próprio Affleck, com apoio de Geoff Johns no texto. Um verdadeiro dream team para os fãs. Entre novembro e janeiro deste ano ele começou a ficar evasivo sobre o assunto nas entrevistas até confirmar que estava fora do posto de direção. Ele alegou que não conseguiria fazer um filme do nível do personagem tendo que se preocupar em interpretá-lo e dirigi-lo. Antes disso, a Warner anunciou alegou prioridade máxima na produção de um novo filme solo do Superman, mas, até agora, nada mais foi falado sobre ele. Os próprios atores não sabem detalhes a respeito. Há também Gotham City Sirens, o spin-off de Esquadrão estrelado e produzido por Margot Robbie (Arlequina) e dirigido por Ayer, mas, mais uma vez, nenhuma notícia adicional sobre o projeto.

Em termos de Batman, uma busca por novos diretores já estava em andamento quando Affleck anunciou sua saída, e o preferido era Matt Reeves. No último final semana foi oficialmente divulgado que ele deixou as negociações. Agora, a Warner está entre Ridley Scott (que já mostrou desprezo pelo gênero de super-heróis) e Fede Alvarez, mais jovem e especializado em filmes de terror. E mais: o roteiro de Affleck e Johns foi rescrito por Chris Terrio. Ou seja, o dream team se foi.

Por último, mas não menos importante, a Warner decidiu dar sequência ao Esquadrão Suicida sem David Ayer. O mais cotado é Mel Gibson, que inclusive já se reuniu pelo menos uma vez com o estúdio para discutir ideias. Ou seja, a Warner está atirando para vários lados e literalmente apertando o botão vermelho para o planejamento que fez em 2014. Tirando Mulher-Maravilha, Liga da Justiça e Aquaman, ninguém sabe que vem por aí, como ninguém sabia em 2007/2008. Isso não é necessariamente um problema, na verdade. Ou pelo menos, não era.

Montagem com Mel Gibson e o Esquadrão Suicida feita pelo IGN.
Montagem com Mel Gibson e o Esquadrão Suicida feita pelo IGN.

Naquela época principalmente, pois praticamente não havia concorrência. Hoje a Marvel tem um universo cinematográfico tão solidificado que correr atrás do prejuízo parece causar desespero na Warner – e fazer coisas no desespero não costuma ser uma boa ideia, em qualquer âmbito da vida de alguém.

O futuro, a quem quer que pertença, precisa guardar um planejamento claro da Warner. Isso melhora o ambiente de trabalho, garante empolgação dos fãs, atrai o público, aumenta as ações no mercado financeiro e criar produtos que as pessoas querem consumir. É assim que tem de ser.

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com