Celebrando a vida de Dwayne McDuffie, o homem

Lembro-me até hoje de quando noticiei a morte de Dwayne McDuffie aqui no Terra Zero. Foi um dia bem triste, não só pela nossa perda como fãs, mas por saber que um negócio, uma indústria que tanto amamos estava perdendo cedo demais um de seus maiores talentos da Era Moderna. O primeiro parágrafo que escrevi sobre seu falecimento dizia:

Nativo de Detroit, lutador da igualdade racial nos quadrinhos e um escritor muito criativo. Esta é uma pequena parte do grande legado que o autor Dwayne McDuffie nos deixa após partir deste mundo. Segundo o CBR, McDuffie faleceu hoje em sua cidade natal, mas as causas da morte ainda não foram reveladas.

Pouco tempo depois descobrimos que ele estava passando por uma cirurgia e um erro médico tirou sua vida. Dwayne McDuffie tinha apenas 49 anos de idade e tinha acabado de ver uma adaptação sua ser lançada em vídeo: Grandes Astros Superman, HQ de Grant Morrison e Frank Quitely, ganhara uma versão animada roteirizada e produzida por ele. Foi seu último trabalho lançado em vida.

A última aparição pública de Dwayne McDuffie na premiere de Grandes Astros: Superman.
A última aparição pública de Dwayne McDuffie na premiere de Grandes Astros: Superman.

Se estivesse vivo, McDuffie completaria 55 anos neste 21 de fevereiro. Portanto, vamos celebrar o que o homem fez em vida, pois, como diz o ditado, não há honra maior para alguém que se foi que sempre nos lembrarmos desta pessoa.

Pouca gente sabe disso, mas Dwayne McDuffie era físico e se formou na Universidade de Michigan, estado de sua cidade natal, Detroit. Apesar de não trabalhar (lecionando ou pesquisando) na área, essa formação acadêmica era importante para ele e foi muito útil quando ele escreveu super-heróis, em especial histórias ou personagens com viés mais voltado para a ficção científica. Ele também era um apoiador do estudo e da graduação superior, passando isso de alguma forma nas suas histórias destinadas ao público infantojuvenil. Agora, mais interessante que tudo isso é notar como milhões de pessoas entraram em contato com seu trabalho sem saber disso.

Dos super-heróis negros que revolucionaram a indústria dos Estados Unidos no começo dos anos 1990 na editora Milestone Media aos desenhos animados da Liga da Justiça e de Ben 10, McDuffie deixou uma marca muito forte por onde quer que tenha passado.

As muitas criações de Dwayne McDuffie.
As muitas criações de Dwayne McDuffie.

Para quem não sacou muito bem do que estamos falando, McDuffie foi produtor e roteirista destas e de outras animações exibidas pela Cartoon Network. Além disso, quando entrou no mundo dos quadrinhos entre as décadas de 1980 e 1990, ele já começou na Marvel sendo editor-assistente e, depois, fazendo um trabalho autoral, mostrando de cara o que podia fazer na indústria. Sua criação na editora, o Controle de Danos, pode virar seriado pela ABC muito em breve. A proposta da revista era mostrar uma equipe de pessoas comuns cujos trabalhos eram sancionados pelo governo. Sua missão? Limpar a sujeira nas cidades deixadas pelas batalhas entre super-heróis e seus vilões. Esta visão singular para criar histórias atingiu o ápice pouco tempo depois quando ele e outros quadrinistas negros fundaram a Milestone.

Infelizmente, quase nada da Milestone saiu no Brasil. O grupo midiático que produzia quadrinhos sob o guarda-chuva da Warner Bros. e da DC tinha como objetivo não apenas criar seu próprio universo com seus super-heróis, mas também mostrar ao público que a diversidade étnica e cultural poderia ser alcançada no gênero. Heróis como Super-Choque (que ganhou uma animação de tremendo sucesso, principalmente no Brasil), Ícone, Xombi, Sindicato de Sangue e Hardware são multiculturais em suas origens, representando as diversas minorias que não tinham espaço nas HQs mainstream. De repente, quando quadrinhos como os do Homem-Aranha, do Spawn e outras crias da Image vendiam 1 milhão de cópias ou mais, uma boa parcela deste público se sentiu representada por este universo novo e não convencional. Acabara de nascer o que provavelmente foi o maior fruto das visões editorial e criativa únicas de McDuffie, uma que perdurou por muitos anos.

O início da Milestone.
O início da Milestone.

Seus trabalhos de primeira linha estão entre as animações (com destaque para Ben 10, sua grande participação no chamado DC Animated Universe e nos longa metragens Liga da Justiça: Crise em Duas Terras, Liga da Justiça: A Legião do Mal e Grandes Astros: Superman) e nos quadrinhos da Milestone. Contudo, nos últimos anos de sua vida, McDuffie foi sucessor do premiado Brad Meltzer na revista mensal da Liga da Justiça. Ela estava passando por uma fase de muito prestígio no mercado de meados dos anos 2000, o que fez da tarefa dele algo muito ingrato. Dwayne encontrou uma resistência editorial à qual não estava acostumado (e que não aconteceu com Meltzer), fazendo com que ele muitas vezes explicasse abertamente aos fãs o que queria fazer o que foi vetado ou autorizado pela DC.

Dois dias depois de seu falecimento, fiz questão de traduzir todas as declarações que ele deu sobre a injustiça que passou na DC. O artigo foi publicado em 23 de fevereiro de 2011 e vocês podem consutá-lo aqui. Entre as coisas que ele mais queria fazer com a Liga nos quadrinhos estava o crossover com os personagens da Milestone, ou seja, suas criações. A expectativa dos fãs era alta, mas não maior que a dele. Você quer ver seus filhos sendo exibidos com destaque e de forma merecida no primeiro escalão, não é mesmo? Mas não deu muito certo. Extraindo trechos daquele artigo:

Enquanto espero as coisas nos outros títulos ficarem mais calmas, tento trabalhar com aquela ideia clássico do Capitão América e heróis menores formando um quarteto (Nota: referência à época em que o Capitão liderou Mercúrio, Feiticeira Escarlate e Gavião Arqueiro como os Vingadores). Mas é claro, como as coisas são, meu “Capitão América” não estava disponível também. [Referência às mudanças em relação à Trindade da DC na época]

Primeiro número da Liga de Dwayne McDuffie.
Primeiro número da Liga de Dwayne McDuffie.

Se fosse por mim a Liga da Justiça seria unicamente formada por seis dos grandes membros e com um sétimo rotativo que daria dimensões diferentes para cada histórias e balancearia algumas personalidades. (…) Sim, eu fico frustrado, mas faz parte do serviço. (…) LJA é um gibi que faz parte de algo muito maior dentro do Universo DC. Poderíamos sim fazer algo mais autocontido, é o mais certo, eu acho, mas a verdade é que a cada três ou quatro meses tenho que lidar com algum evento e abrir mão dos meus planos por causa de crossovers e coisas assim. Em meu próximo arco de seis edições tenho que lidar com três eventos (quatro se contar Milestone).

Liga da Justiça foi o último trabalho em quadrinhos antes de McDuffie falecer, o que deixou o término da sua carreira um pouco amargo. Não totalmente, pois a adaptação animada de Grandes Astros: Superman foi muito bem recebida, mas ele não teve chance de ver isso. Talvez suas histórias para a Liga nem fossem tão boas mesmo, mas as afirmações dele são verdadeiras; na época, a DC passava por constantes mudanças editoriais e os planos para seus personagens estavam muito mal delineados. Levando-se em conta que McDuffie dependia de vários deles para fazer suas histórias funcionarem, as coisas saíram dos trilhos em diversos momentos.

Universo Milestone encontra a Liga da Justiça em história de Dwayne McDuffie.
Universo Milestone encontra a Liga da Justiça em história de Dwayne McDuffie.

Foi duro para ele, foi duro para os fãs. Alguns duvidavam se o Dwayne McDuffie que quebrou a indústria ao meio quando lançou a Milestone ou que mudou o mundo das animações com Ben 10 e a Liga da Justiça não estava começando a enferrujar.

Quem sabe realmente? Talvez sim. Talvez ele precisasse de um período sabático. Fez bem para James Robinson, por exemplo, que, por coincidência, foi seu sucessor na Liga e escreveu uma fase ainda pior da equipe. Depois de um tempo afastado, Robinson voltou pra valer com Shade e Earth 2 após a DC estabelecer os Novos 52. Mas essa história fica para outro dia.

Nenhum de nós do Terra Zero teve chance de conversar com Dwayne McDuffie de verdade. Sua morte se deu antes de quadrinistas de peso começarem a vir com regularidade para o Brasil. Isso dói, pois ele sempre pareceu um artista fascinante e, segundo relatos de colegas profissionais e amigos, era uma pessoa extremamente aberta, gentil, solícita e comunicativa. Poderíamos ter conversas incríveis com ele para nossos leitores. Não deu. Por outro lado, sua memória permanece viva graças aos seus amigos e à sua esposa, Charlotte Fullerton, também escritora.

Charlotte e Dwayne. Reprodução.
Charlotte e Dwayne. Reprodução.

Após uma longa batalha para levantar fundos, ela conseguiu criar a premiação Dwayne McDuffie Award para a Diversidade nos Quadrinhos, dada desde 2015 na Long Beach Comic Expo. Em seguida, veio o Dwayne McDuffie Award para Quadrinhos Infantis, o que faz todo sentido, já que boa parte da vida do autor foi criando histórias infantojuvenis. Este prêmio é entregue anualmente na Ann Arbor Comic Arts Festival, em Michigan.

Assim, o legado de McDuffie continua vivo. O ideal seria uma volta arrasa quarteirões da Milestone comandada por artistas que estiveram com ele na empresa. A DC chegou a se pronunciar pouco tempo atrás sobre a volta do selo, mas até agora nada de concreto aconteceu. Em tempos em que a diversidade finalmente foi para o topo da lista de prioridade das editoras, a volta Milestone seria perfeita. Ela estaria atual como nunca. Enquanto isso, fica a memória de um artista que construiu um castelo multicultural, um que não será derrubado.

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