Arqueiro Verde: História clássica sobre drogas influenciará o futuro

O que é clássico em uma história do Arqueiro Verde? O personagem passou por tantas mudanças no decorrer dos anos (personalidade, motivações, aparência e até idade) que fica difícil dizer de imediato o que é fundamental nele. Alguns acham o aspecto político um alicerce do personagem; outros, nem tanto, preferindo sua personalidade ranzinza mas amável. Há quem prefira o Arqueiro Verde sombrio da série de TV Arrow, como há quem odeio a maioria das fases do personagem simplesmente porque ele começou – e isso é verdade – como uma cópia do Batman.

Benjamin Percy, que vem escrevendo as revistas do heróis há algum tempo, pensa diferente. Para ele, os elementos que fazem do Arqueiro Verde quem ele é são claros como a luz do dia. Em entrevista ao Newsarama dada na última quinta-feira (16), o autor prometeu trazer à tona o espírito e particularidades de uma das histórias mais inesquecíveis do herói: “Nas Veias”. Para quem não se lembra, ela foi curiosamente relançada no Brasil recentemente em Lendas do Universo DC – Lanterna Verde & Arqueiro Verde 2, da Panini, e mostra Oliver Queen e Hal Jordan lidando com Roy Harper, o Ricardito, usando heroína.

Em seus primeiros nove meses escrevendo o novo título mensal do Arqueiro Verde, Percy brincou com diversos elementos antigos do herói para criar algo diferente e sólido. As fundações de Oliver Queen, como sua fortuna e a Queen Industries, foram demolidas para que um verdadeiro social justice warrior pudesse ser instituído. No sentido literal do termo. Isso é importantíssimo para dar um lugar ao Arqueiro na cronologia moderna da DC, sem depender totalmente de sua versão televisiva e nem de versões anteriores dos quadrinhos.

Capa variante de Green Arrow #17 por Neal Adams & Alex Sinclair.
Capa variante de Green Arrow #17 por Neal Adams & Alex Sinclair.

Agora chegou a hora de Percy fazer o que ele mais queria: trazer Roy Harper de volta. As dinâmicas de mestre e aprendiz e pai e filho entre eles sempre foi complicada, com os níveis elevados ao máximo na história “Nas Veias”. Influenciados pelo que viam acontecer em seu país nos jornais e na TV, os lendários Dennis O’Neil e Neal Adams fizeram o Arqueiro, na época um vigilante bastante politizado e consternado com a situação do país, e o Lanterna Verde (o apolítico alheio ao que acontece ao seu redor) rodarem pelos Estados Unidos para verem de perto as mazelas de sua terra. Marcada por forte influência sociopolítica e cultural, essa fase ainda hoje está entre as melhores que os heróis esmeralda já tiveram. Percy a quer de volta. Mas do seu jeito.

O autor, no entanto, não está ignorando o que veio antes dele, o que é bacana. Outra das fases mais queridas do personagem foi feita nos Novos 52 pelo trio Jeff Lemire, Andrea Sorrentino e Marcelo Maiolo. Nela, muitas relações foram estabelecidas e novos personagens, criados. Eles continuam aí. O Arqueiro está com a Canário Negro, como sempre deveria estar, mas também tem Emiko, Henry Fyff e Diggle ao seu lado. Foi com isso e com motivações ainda mais nobres que Percy preencheu o vácuo deixado pela eliminação do passado milionário do herói.

Arqueiro Verde e Roy Harper se reencontram em Green Arrow #18. Capa de Otto Schmidt.
Arqueiro Verde e Roy Harper se reencontram em Green Arrow #18. Capa de Otto Schmidt.

Percy explicou ao Newsarama que o desejo de fazer o reencontro de Oliver e Roy está desde que ele começou a escrever Arqueiro Verde. Todavia, havia uma hora certa para isso. A fim de planejar melhor seus próximos meses no título, ele recentemente visitou a sede da DC em Burbank e fez uma reunião fechada com Geoff Johns, Diretor Criativo e Presidente do grupo DC Entertainment. Vários elementos foram listados por eles em uma lousa, como o cavanhaque, a Canário Negro e, claro, Roy Harper.

Sendo assim, a reunião acontecerá a partir das edições #17 e #18 do título do herói, mas com um formato meio “Ano Um”. Ou seja, o passado deles será revirado e Percy garantiu que “Nas Veias” será uma dessas histórias que vão chamar a atenção por ser reinventada para um novo público. A adolescência de Roy estará presente, numa dinâmica parecida com a de Bruce Wayne e Dick Grayson quando seus pais morreram. No entanto, no presente, eventos importantes farão com que os dois se unam e relembrem aqueles tempos, questionando novamente a situação do jovem abandonado, da entrada no mundo das drogas etc. Unidos, eles lidarão também com um duto de petróleo que está sendo construído pela própria Queen Industries em uma reserva indígena.

Clássica capa de Green Lantern/Green Arrow #86 por Neal Adams.
Clássica capa de Green Lantern/Green Arrow #86 por Neal Adams.

É uma tema político. Não podia ser diferente. Percy é um autor tão politizado quando O’Neil e não está deixando as oportunidades passarem em branco. Em tempos em que toda a democracia mundial vem sendo questionada, em que decisões de líderes políticos colocam em xeque o desejo das mais diversas parcelas das população ocidental, Percy vai fazer de tudo para reforçar a imagem do Arqueiro Verde refletindo em suas histórias o que acontece no nosso mundo. De quebra ele reúne o herói com seu pupilo e ainda põe o dedo na ferida, naquela coisa chata que sempre existiu entre os dois depois do abuso de heroína cometido por Roy.

O que acontecerá agora? Será que Percy vai aproveitar a chance para dar sua própria opiniões sobre estes temas? Até ponto e questionará o uso e a legalização de drogas, bem como a proteção de grupos indígenas e o avanço da indústria? Os leitores mal podem esperar para saber.