[Review] Rasga-Mortalhas, de Bercito e Vergani

Rasga-Mortalhas é o nome dado a uma coruja que, segundo uma lenda do norte do Brasil, prenuncia o fim da vida de pessoas sobrevoadas por ela, marcadas pelo som de asas, semelhantes a uma mortalha sendo rasgada.

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Se você procurar bem na edição muito bem cuidada de Rasga-Mortalhas (Zarabatana), encontrará a coruja e, com ela, o aviso de que a morte está chegando, ao som das páginas viradas, das pequenas mortalhas de papel que estampam a vida dos personagens deste mundo fantástico criado por Diogo Bercito e Pedro Vergani.

Um dos projetos agraciados com o ProacSP, Rasga-Mortalhas conta com uma citação de quarta capa do premiado autor manauara Milton Hatoum (Dois Irmãos) que descreve – e adianta até demais – o que acontecerá no belo volume impresso em duas cores.

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O uso muito preciso do vermelho vivo, em contraste com o preto e as folhas levemente amareladas e algo ásperas, características do papel Pólen, dão à história ares de fábula. Mas uma que não é edificante, apenas necessária: o mundo e as histórias que fazem parte dele vão acabar; para isso, são necessárias tratativas para que esse final chegue a contento.

O Babuíno Voluntarioso, ao adentrar o Palácio Andarilho para aconselhar o Rei deste lugar, como aconteceu algumas vezes antes desta, dá início à sequência de eventos que irão culminar em um objetivo esperado. Habilidoso com as palavras e velho como o tempo, o Babuíno conduz o leitor, testemunha imperceptível de toda a trama, a cada personagem, a cada momento dramático envolvendo personagens como a Rainha, o Hierofante, o Príncipe, o Boticário e o misterioso Marco Antônio.

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Bercito, como o Babuíno, é hábil com as palavras. Ele deixa claro ao leitor que a solução do enredo não está toda ali, fácil. É necessário raciocínio e imersão para que a completude da narrativa seja alcançada pelo leitor. Para auxiliar nesta tarefa, está a arte de Vergani, com algo de oriental, com muito de fabulesca, e diversas páginas surpreendentes.

O trabalho dos dois artistas, que não moram atualmente no Brasil, é embalado pelo design de edição refinado de Arthur Vergani, responsável por uma escolha tipológica incomum, atraente e que casa bem com o estilo da história.

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Rasga-Mortalhas é um álbum fundamental do ano. Ele conta, sim, a história do final de uma realidade que se deteriora. Lançada (talvez estrategicamente) nos últimos dias de dezembro, após o circuito de eventos anual do Brasil, esta história faz ainda mais sentido quando pensamos em 2016, um dos anos mais difíceis da conturbada democracia brasileira (e, é possível afirmar, pessoalmente difícil para a maioria das pessoas). Um ano que precisa acabar, o quanto antes.

Tudo precisa de um senso de conclusão. Tudo precisa de um final. Mesmo que este final não seja bonito e que, ao final, entre mortos e feridos, quase ninguém saia ileso. Quantos estarão ouvindo o bater dessas asas?