[#Pitaco] Uma trilogia de descobertas

Atenção: antes de começarmos, é bom avisar que temos spoilers neste Pitaco. Prossiga por sua conta e risco.

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Na metade do ano foi anunciado que a série Supergirl, agora em sua segunda temporada e no canal CW, teria adicionada a seu elenco Floriana Lima, como a policial metropolitana Maggie Sawyer, personagem abertamente lésbica.

Em agosto, o produtor das séries DC para o canal, Greg Berlanti, revelou num evento voltado para imprensa especializada em televisão estadunidense que um “grande personagem [de uma das quatro séries] sairia do armário”. Se recusando a falar mais sobre o assunto, ficou sob o ar o mistério de a qual série pertenceria o avanço narrativo, e qual personagem seria.

Como apontado de forma óbvia, mas muito bem escrita e pouco constrangedora, pelos episódios 4 e 5 da segunda temporada de Supergirl, é a irmã da Dama de Aço que começa a descoberta de sua sexualidade na série. Alex Danvers sente atração sexual e romântica por mulheres, e demonstra nunca ter gostado de homens, deixando claro que a personagem é lésbica.

É da opinião dessa escritora, e você não precisa concordar com ela, que embora seja muito bom o avanço, pouco teria chamado atenção em uma rede que já possui um nível representatividade homo e bi, seja em personagens fictícios como Nyssa Al GhulCurtis Holt e Sara Lance, ou em atores que interpretam heterossexuais mas não o são na vida real, como John Barrowman (Merlyn), Wentworth Miller (Capitão Frio) e Colton Hayner (Arsenal), para citar alguns.

O que realmente chama atenção é que o processo de saída do armário de Alex Danvers é orgânico, palpável, verossímil e muito realista. Não tenho a experiência de uma pessoa hétero assistindo ao episódio, mas como pessoa LGBT consegui me sentir perfeitamente no lugar da agente do DEO em cada detalhe mostrado. Claro que ajuda a atuação perfeita de Chyler Leigh. Confusa. Indecisa. Então decidida. Então confusa de novo.

Alex Danvers começa a descobrir sua sexualidade. Cena de "Welcome to Earth", episódio da segunda temporada de Supergirl.
Alex Danvers começa a descobrir sua sexualidade. Cena de “Welcome to Earth”, episódio da segunda temporada de Supergirl.

No momento em que Maggie, no episódio 3 (Welcome to Earth), é introduzida podemos ver uma química diferente entre as duas, mais solta do que Alex costuma ter. Parecida com a que teve na primeira temporada com Maxwell Lord, mas genuína. No decorrer do episódio, quando Maggie conta que, como uma lésbica latina, ela se sente mais confortável entre os alienígenas imigrantes do que com os humanos brancos e héteros, ela não está só expondo sua visão do mundo, ela está tentando dizer para Alex: “Você é bem-vinda aqui, assim como eu”.

Alex demora a entender a mensagem. No episódio seguinte, intitulado Survivors, há uma cena em que Maggie, usando uma operação de infiltração como pretexto, convida Danvers para uma festa de máscaras, vê-se a felicidade de Danvers em sair com a nova amiga e colega de profissão. Ambas trocam elogios quanto a aparência uma da outra, adentram a festa e o episódio se sucede com sua narrativa, normalmente.

Mais um episódio em frente, agora nomeado Crossfire – uma expressão que em inglês além de “fogo cruzado” também significa “um confronto acalorado entre partes opostas”. O título serve tanto para a narrativa principal (Kara enfrentando criminosos equipados com armas alienígenas poderosas), quanto para as quatro subtramas: Kara tentando ensinar Mon-El a ser mais como ela, contra a vontade dele; Olsen tentando fazer Winn criar uma armadura super-heroica para ele, contra a vontade de Winn; uma leve alegoria àpolítica armamentista dos Estados Unidos da América (“se os bandidos tem armas alienígenas, então nós também deveríamos ter essas mesmas armas para nos protegermos!”, diz um colega de Kara em determinado momento); e, por fim, Alex aceitando que tem sentimentos por Maggie Sawyer, que recém terminou um relacionamento.

Enquanto todas as tramas terminam com um lado vencendo (Kara, Mon-El, Olsen e Kara), respectivamente, perceba que a trama de Alex é diferente, pois ninguém “vence”. Um lado estava fadado ao fracasso desde o começo: não há como fugir de quem você realmente é. Maggie não precisava provar para Alex que ela era lésbica, ela queria que Alex percebesse que ela era infeliz até aquele ponto porque não aceitava que era lésbica – uma diferença talvez difícil de perceber, mas muito importante. Muitas pessoas não conseguem se aceitar e sair do armário sozinhas, achando que tem alguma doença, problema ou, simplesmente, pelo medo da reação da sociedade.

Mas é no ultimo episódio exibido, escrito pelo próprio produtor Greg Berlanti, perfeitamente intitulado Changing (“Mudança”, em tradução livre), que o mais inesperado acontece: Alex toma coragem de falar para sua família sobre sua descoberta de si mesma e, como no mundo real, não é algo fácil, rápido e simples.

Kara, a protagonista, heroína e cidadã perfeita de National City, fica perplexa com a revelação. Confusa, indaga se Alex tem certeza, se não é uma fase ou se não achou o homem certo ainda.

Por mais que as indagações não venham com essas palavras, ou pela boca dela, elas estão lá, em sua postura, seu olhar. Assim como na vida real, o preconceito pode ser enraizado, sutil e velado. Para Kara, ela só está preocupada com o bem-estar de sua irmã, para Alex, o silêncio de Kara, mesmo que por alguns segundos, é devastador e acusatório. Além de hipócrita, se tratando de uma imigrante alienígena, mas o próprio show reconhece que o preconceito da “xenofobia fantástica” não é comparável a situação de Alex.

Sanvers
Imagem original por @waitingforshow

Claro que, em se tratando de um show voltado para todos os públicos, tudo termina (razoavelmente) bem: outras tramas se resolvem e as irmãs se entendem. Mas, nesses três episódios, Alex passou de interessada a apaixonada por Maggie; de introvertida a frequentadora de um bar “alternativo”; de alguém que tinha certeza da vida para, como ela mesma disse, alguém que se “sente como uma criança”, pois tudo é novo, difícil e tem que ser reaprendido.

Alex finalmente toma coragem e beija Sawyer, que aceita, mas demonstra desconforto: ela ama Alex, mas somente como amiga. Ela diz ser muito experiente e que isso seria problemático para alguém que recém saiu do armário. Se ela está certa ou apenas evitando compromissos, pouco importa para Alex, que fica arrasada.

E assim terminamos a saga de descoberta da nossa agente secreta favorita do Multiverso CW. Pelo menos por enquanto. Só podemos torcer para que ela encontre amor recíproco, seja por Maggie, seja por outra.

Realmente, eu adorei a ideia do casal, como fã. Mas não esperava o peso da situação, a duvida tão realista e bem representada da cabeça da personagem. Essa “Trilogia Danvers”, se puder chamar assim, é um sopro de criatividade e representatividade muito bem aceitos em uma época em que, apesar dos avanços, ainda há um número ridículo de protagonistas negros em ficção científica, lésbicas e mulheres bis chegam a ter uma tabela de mortes na televisãopersonagens trans são representados por atores cisgeneros.

  • Eduardo

    Victor garber (o dr. Stein de Legends of Tomorrow) tb é gay e interpreta um personagem hetero.

    • Erika Atayde

      Eduardo, também fico meio triste pela Marvel Studios, tanto em cinema, streamings e TV estarem tão atrasados nesses termos, mas acredito que logo teremos protagonistas LGBTs também :)

  • Thadeu

    Gostei bastante do artigo e fiquei muito sensibilizado pela parte que diz que a autora do artigo é LGBT e não sabia como uma pessoa hétero teria recebido o episódio. Pois me senti muito inclinado a escrever e elogiar essa parte, do artigo e da série. Eu como hétero achei a conversa entre as duas e a forma como ela se abriu expondo sua escolha muito bacana e caso acontecesse com meus filhos, gostaria que fossem de maneira similar. A série é muito legal, divertida e leve, pra mim foi uma surpresa a personagem escolhida, mas que ficou o sentimento de que não importa mesmo em nada nossa orientação sexual e sim como construímos nossas vidas, respeitando escolhas e pessoas. Assim como foi uma surpresa sobre os atores citados acima como interpretes de heterossexuais nas telas, sendo homossexuais na vida real, nunca havia lido que Wentworth Miller é homossexual e “caiu uma ficha” que nunca realmente me importou sua escolha (orientação ou como seja gentil falar), pois sou fã de um grande ator.

    Nunca saberei o que as pessoas (que eu detesto chamar de minorias) passam, mas gostaria que o mundo fosse um lugar melhor onde todos respeitassem as escolhas de cada um (time, religião, sexo…) e que ninguém precisasse se esconder ou achar errado ter que contar algo assim. Já tive várias conversas com meus filhos adolescentes, dizendo que apesar de achar estranho, que eu aceitaria qualquer condição de vida desde que fossem saudáveis e felizes e que eu precisaria, sim, aprender muitas coisas numa escolha dessas, mas que o colo do Pai sempre estaria aqui. Sempre terminamos esses papos com brincadeiras que eu faria sendo eles héteros ou não. Digo que pessoas que são corajosas de abrir suas escolhas, são nossos professores da vida. Esse episódio me fez gostar ainda mais da série, foi gentil, amoroso e seu artigo me fez querer interagir aqui pela primeira vez. Tentei te mandar por email tudo isso, mas acho que o mais justo é falar abertamente!

    Obrigado por me ajudar ampliar minha visão e parabéns pelo artigo!

  • fazaol

    Legal a abordagem. Sensivel e sutil. E a ideia do Bar lembrou um pouco de MIB. Bem sacado.
    E as personagens passaram uma quimica boa. Estavam entrosadas sem se mostrarem muito ainda, no caso o interesse. A Maggie ja tem sua personalidade formada, e Alex ainda na duvida. Quando ela estaav meio envolvida pelo Lord ela se sentia desconfortável, mas parecia mais ser pelo carater dele do que da sua propria sexualidade.
    Foi bem legal.
    Outros personagens que podiam aparecer Em SG seriam a Fogo e a Gelo. Ia ser bom ver a brasileira na série.