[#Review] Doutor Estranho – O Filme

Na esteira das grandes mudanças causadas no Universo Cinematográfico Marvel pelo filme Capitão América 3: Guerra Civil, chega Doutor Estranho, um filme que prometia ser, assim como é seu protagonista, um pária em um universo recheado de super-heróis e supervilões com muitas características semelhantes. Após meses de boatos de que Joaquin Phoenix seria Stephen Strange, a Marvel Studios optou por um ator mais popular com o público jovem, o inglês Benedict Cumberbatch.

Astro de Sherlock, a moderna adaptação do clássico detetive da BBC, e fundamental para diversos outros blockbusters lançados nos últimos anos, Cumberbatch tem muitas qualidades e uma carreira recheada de versatilidade em sua filmografia. Como se isso não bastasse, suas semelhanças físicas com Stephen Strange são grandes, o que só ajuda quando se tenta adaptar um quadrinho para os cinemas nos últimos anos. Mas, acima de tudo isso, Cumberbatch é uma espécie de marginal. Uma parcela do público simplesmente não faz ideia de quem o cara é, mesmo com tantos filmes e séries famosas no currículo. De alguma forma poética – ou muito esquisita -, ele parecia perfeito para o personagem. E, depois do lançamento do longa, a afirmação se tornou verdade. Apesar de possuir outros pontos mais relevantes para serem comentados, de primeira dá para afirmar que a interpretação do ator foi muito boa.

doctor-strange-poster

Doutor Estranho não foge dos tradicionalismos típicos das histórias de origem de super-heróis no cinema. Contudo, o elemento que o filme apresenta como diferencial, funciona; o espectador nota já de cara de que, apesar da fórmula Marvel ser aplicada mais uma vez, ela possui elementos suficientemente inovadores (dentro deste universo) para chamar a atenção do público. Portanto, quando o arrogante neurocirurgião busca uma solução para seus problemas no oriente de forma egoísta, ele se depara com uma definição de “realidade” jamais imaginada por qualquer pessoa. Com motivações que se resolvem rápido (graças ao curto tempo do filme), mas suficientemente convincentes para o espectador, os personagens ali presentes se unem por interesses em comum. Em pouco tempo, Strange entra na transição do homem egoísta para uma parte de um todo que consegue analisar as outras partes e vê-las como iguais.

Vale destacar, contudo, que não dá para classificar a transição de Stephen Strange como uma redenção; suas motivações são conflitantes, já que ele está dividido entre altruísmo e sede de conhecimento para benefício próprio. O filme lida bem com esse aspecto do Doutor que, hoje em dia, é muito pouco comentado. Em suas origens, Stephen busca conhecimento não como forma de redenção, mas por egoísmo; ele quer que suas mãos fiquem normais novamente para que ele possa voltar a ser o melhor neurocirurgião do mundo e continuar faturando milhões enquanto esnoba doentes que não podem pagar seu preço. Conhecer o Ancião (no filme, a espetacular Anciã de Tilda Swinton, de longe a mais complexa a interessante personagem da trama) faz quase tudo mudar; Stephen quer conhecer novas realidades e o mundo da magia para aumentar sua sabedoria, para explorar o que poucos homens no mundo tiveram chance. Fazer o bem não era exatamente uma consequência desses estudos – o personagem não era tão insensível assim -, mas muito do que ele fazia era para impedir a chegada do mal. Há um abismo de diferença entre barrar o mal e fazer o bem.

doctor-strange-city-bending-179855

Eventualmente, isso foi mudando nos quadrinhos, mas não tão rápido quanto no filme. O que faz todo sentido, na verdade, pois no cinema a narrativa deve ser rápida e, dado o planejamento do Universo Cinematográfico Marvel e o dinamismo que o formato pede, o longa precisa terminar com um herói completando sua primeira jornada. A cena extra exibida logo depois dos créditos traz um pouco do espírito incisivo do protagonista, o que mostra que muito de Stephen Strange ainda está dentro do coração do Doutor Estranho. Foi assim que Steve Ditko o concebeu lá atrás e é bom ver de perto conceitos considerados transgressores para a época serem transportados para a telona.

Todo o elenco – principalmente o de apoio – e a trama estão na medida certa. A única ressalva fica para a personagem de Rachel McAdams. Não pela atriz, mas pela participação pífia que foi dada a ela. A direção de Scott Derrickson é caracterizada por algumas de suas marcas registradas – um bom diretor moderno de terror, Derrickson dá alguns sustos no espectador durante o filme, e McAdams é veículo para alguns deles. Funciona muito bem. O diretor conseguiu fazer um filme incomum de um super-herói ainda mais esquisito do que se esperava, e teve espaço para aplicar algumas de suas técnicas de filmagem favoritas.

dr-strange-ancient-one_0

Falando ainda de filmagem, os efeitos especiais são de impressionar. Vistos em 3D, ficam ainda mais fantásticos, garantindo ao pagante uma experiência lisérgica como há muito não se via nos cinemas. A primeira viagem de Strange para outra realidade é uma grande homenagem a 2001: Uma Odisseia no Espaço e certamente não passará despercebida a olhos mais atentos. Todas as cenas que se passam nos domínios de Dormammu ou em realidades diferentes (que variam das mais espalhafatosas às mais desastrosas) são de cair o queixo. Derrickson nunca trabalhou com um orçamento tão grande em sua carreira e fez valer cada centavo, garantindo uma experiência audiovisual sem precedentes no meio super-heroico.

Isso não significa que o filme não tenha falhas. Todos os conceitos que fazem do Doutor Estranho um homem diferente no Universo Marvel foram um pouco diluídos, para que a fórmula da Marvel Studios fosse aplicada mais uma vez. Existe uma certa pasteurização no processo criativo do estúdio, que pode ser vista como vantagem ou desvantagem: ela, ao mesmo tempo garante para o espectador que tipo de material ele vai encontrar ao ver um filme da Marvel, mas, por outro lado, tira um pouco da identidade de cada super-herói.

Quando se fala do Doutor Estranho, alguém que passou muito tempo sem ser super-herói, a coisa fica ainda mais esquisita. Como a gigantesca maior parte do público nem imaginava quem ele era até esse filme chegar, isso não é um problema; para os fãs, fica a sensação de que aquele Doutor que estrelou histórias inigualáveis como as de Steve Ditko nos anos 1960 e as de Steve Englehart nos anos 1970 dificilmente será visto em outra mídia.

O ritmo de Doutor Estranho também tem alguns problemas, principalmente quando a “escola Marvel de comédia” entra em ação e quebra a dramaticidade de uma cena com a aplicação de uma piada ou outra. Nesse aspecto, o filme perde alguns pontos, pois torna-se uma “versão mágica” do primeiro Homem de Ferro. São muitas as semelhanças entre os dois filmes, principalmente entre os dois protagonistas. Ambos atingiram o ápice da canastrice já nos seus primeiros filmes. Um encontro entre eles no futuro será antológico, mas, ao mesmo tempo, excessivamente bem-humorado. E, assim como aconteceu nos Homem de Ferro seguintes e em vários outros filmes do estúdio, o vilão do longa deixa (muito) a desejar. Por sorte, a interpretação certeira de Mads Mikkelsen garantiu que Kaecilius tivesse ao mesmo uma boa “presença de palco”, digamos assim, mas suas motivações não poderiam ser mais genéricas.

strange-iron-man

Por fim, apesar dos defeitos, Doutor Estranho é um dos grandes blockbusters do ano. Certamente superior a qualquer um dos dois lançados pela DC Entertainment – as comparações são inevitáveis – mas, também, superior ao terceiro Capitão América, que foi a grande aposta da Marvel Studios para 2016. Enquanto este filme apenas selou o que fora prometido em longas anteriores – com muitos defeitos e vícios, diga-se de passagem -, Doutor Estranho abriu um leque imenso de possibilidades ainda não vistas neste universo.

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com