[Pitaco] Doutor Estranho e a Morte

Morte. O Grande Ceifador, Pai Tempo, Mãe Natureza, Santa Muerte, Ômega, Pós-Vida. Tantos nomes, uma mensagem única: finitude da Vida.

Seja como um contraponto dançando a mesma música, mesmo ritmo, mas diferentes passos, ou um último instante de funcionalidade do organismo que acaba ou uma reinterpretação do mesmo conceito de trás pra frente, o capítulo final chega a todos.

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Será tudo um sonho, ou uma viagem ao extraplano, ou o descanso eterno. Ou nada disso, será o próprio Nada. Ninguém sabe porque quem quer que tenha sido a pessoa pioneira nessa viagem, nunca mandou recados muito claros.

 

Eu não poderia botar em palavras melhores do que Reed Richards, através dos dedos de Jonathan Hickman, em Novos Vingadores:

Tudo morre. Vocês. Eu. Todos neste planeta. Nosso sol. Nossa galáxia. E, eventualmente, o próprio universo. É simplesmente assim que as coisas são. É inevitável, e eu aceito isso.

Esse discurso sempre valeu para mim, pois era bem positivo em sua aceitação fatalista. Também sempre aceitei a interpretação de Neil Gaiman em Sandman sobre a Morte. Caridosa, ama todos, se importa com você: “Você ganhou o mesmo tempo que todo mundo: a duração duma vida”

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O que eu estou enrolando para falar é que, ontem, eu assisti a Doutor Estranho no cinema, em altíssima qualidade e preço. Os ouvintes atentos dos podcasts devem ter percebido que, no Comicpod sobre Sandman, Parte 4, eu narro uma história pessoal de morte que completaria dez anos.

A sessão mística de Catmandu em IMAX também foi a minha sessão de aceitação dos dez anos de falecimento de meu amigo.

Não entrarei em detalhes da vida, nem da morte dele. Mas digo que, há alguns dias, fez dez anos de seu falecimento. Ele faleceu sendo cinco anos mais velho do que eu era à época.

E hoje eu sou cinco anos mais velha do que ele chegou a ser.

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E o pensamento não fugiu de minha cabeça, quando as palavras da Anciã foram transmitidas pela voz de Tilda Swinton:

Morte é o que da significado à vida. Saber que seus dias são contados e que seu tempo é curto.

Da mesma forma, reconheço que amanhã fará um mês de que fui ao banheiro feminino que ficava a menos de dois metros do masculino, e lá, escondido de meus sentidos carnais, havia o corpo de um homem, muito respeito por mim, admirado até. Exatos 30 anos mais velho que eu. Suicídio.

Se você se indagou onde estava a Erika Atayde, a menina das piadocas dignas de Grisa, dos podcasts e dos textos desafiadores encharcados de comentários sexistas nas páginas do Terra Zero, ai está sua resposta. Eu estava em Catmandu. A minha Catmandu.

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Eu me tornei uma mulher que agora pode andar e jogar basquete, uma poderosa maga suprema manipuladora do tempo? Provavelmente não. Mas eu trago está mensagem que eu queria que pudessem chegar a todos.

Tudo morre. E isso é ótimo. Morrer é uma palavra definitiva para mudança. A Mudança Final, Mudança Suprema se preferir. Mudança sem Retorno.

Mudar é essencial, eu que o diga. Não fosse a capacidade de mudança, vocês não estariam lendo este texto.

Ou porque a Depressão venceu e eu me rendi a pressão excruciante de viver no País que mais mata transexuais do mundo, ou porque eu nunca teria me transformado na Erika, para começar.

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As infinitas possibilidades do Olho de Agamotto se resumem a isso: constantes promessas de “Mas e Se?” do seu passado em que você pode se afundar eternamente, sem nunca sair, ou um anseio pelo saber do “Qual Será?”. A Depressão e a Ansiedade forjadas em superpoderes mentirosos. Dormammu é derrotado pela Depressão de não conseguir deixar de reviver o mesmo momento para sempre. A Anciã é libertada porque, finalmente, aceita que pode ir embora, sem nunca saber o seu futuro depois daquele instante. Doutor Estranho, ao ser mestre nos dois caminhos e usá-los como armas, o guarda, como diz Wong: Não seria muito esperto sair por ai com uma Joia do Infinito.

Realmente, como não é muito esperto sair por ai concentrando-se somente no passado e no futuro.

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Não pense no tempo como uma linha reta. Pense nele como uma árvore infinita, uma hidra temporal que, para cada ação tomada, duas novas ações foram tomas e assim sucessivamente: Somos todos crias do Aqui e do Agora, em constante amor das pessoas que nos amam e do poder de conquistar nosso futuro e sobrepujar nosso passado.

Essa é sua lição por hoje, Aprendiz.

  • Muito bom.

  • Luiz Magno

    Obrigado, Erika. Por me fazer pensar.

  • Daniel Costa

    Wow!!!!!! :-)

  • Marcelo Grisa

    BAITA texto, Erika. Continua assim! :D

  • Léquinho Maniezo

    Vim aqui por causa do Cast do ano 2 de Transmet. FODA hein.

  • mateuspl

    Que pedrada! Baita texto Erika. Citando outro Doutor, nós todos mudamos, durante toda a nossa vida, e isso é bom. Keep on keepin’ on.