[#Entrevista] Kaare Andrews: Renato Jones contra o 1%

Kaare Andrews é um daqueles raros casos de artistas multitarefa não comprometidos com os modelos impostos pela linha de trabalho que escolheu seguir. O roteirista, ilustrador, artefinalista, colorista e cineasta já tem uma extensa e premiada carreira nos quadrinhos, mas tornou-se mundialmente conhecido ao dar ao Punho de Ferro da Marvel uma interpretação única e visceral em Iron Fist: The Living Weaponde 2014. O artista valente, ao invés de aproveitar o sucesso de crítica e público deste último trabalho, embarcou em uma jornada totalmente autoral, lançando este ano a explosiva Renato Jones: the One % pela Image Comics – série em quadrinhos que ataca ferozmente as mazelas socioeconômicas da sociedade moderna, usando uma linguagem e arte energéticas e cruas, misturadas à sátira sombria contemporânea.

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Capa da primeira edição de Renato Jones: the one % por Kaare Kyle Andrews.

Em um bate-papo exclusivo, Kaare nos conta sobre a concepção de Renato Jones, detalha o processo criativo e explica como os temas abordados na revista refletem o que acontece em nossas sociedades nos dias de hoje.


Terra Zero: Primeiramente, nós sempre deixamos o autor apresentar sua criação ao público. Então, o que você pode nos dizer sobre Renato Jones: The 1% para o público não familiarizado?

Kaare Andrews: Renato Jones é a história de um homem que se enconde entre os super-ricos para julgá-los por seus crimes de super-ricos. Apelidado de “Freelancer” pelos vilões da elite, que ele caça um por um.

Renato Jones, desde a primeira edição, parece um quadrinho muito raivoso e perigoso. Você estava neste tipo de humor quando teve a ideia conceitual? Caso positivo, de onde veio essa raiva toda?

Renato Jones é um quadrinho raivoso. Não é uma revista sobre um cara com uma capa lutando contra um cara em uma roupa de robô que está tentando roubar um dispositivo fictício. Este é um quadrinho que encapsula e escalona o mundo que vejo ao meu redor. O mesmo mundo que tem assistido à classe média estagnar por 30 anos, enquanto o 1% fica 600% mais rico. “Raivoso” é uma palavra ótima. E esta obra é raivosa contra um sistema de roubo legalizado, corrupção e mal deplorável. Mas, ao mesmo tempo, é um quadrinho com o qual estou me divertindo demais. Eu consigo fazer chacota com tudo, desde políticos bilionários até companhias maléficas de informática.

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Gostaríamos de parabenizá-lo, porque os antagonistas em Renato Jones são simplesmente os merdas quintessenciais, em todos os sentidos possíveis. E, apesar de serem uma extrapolação, eles parecem muito conectados à nossa realidade. Como é o processo de criação de tamanhos cretinos? (risos)

Obrigado. O quadrinho é uma sátira muito sombria para mim, é muito divertido. Eu frequentemente me pego rindo quando estou desenhando. [A revista] É intencionalmente ultrajante e estridente porque o mundo hoje em dia é ultrajante e estridente. Qualquer coisa a menos que isso não seria verdadeiro. Os vilões que Renato enfrenta não são cópias de pessoas em particular, mas eles são arquétipos de pessoas que existem. O tipo que se enconde por trás de riqueza em posição, o tipo que não consegue parar de tomar as coisas.

Como você equilibra o aspecto de justiça social do protagonista, para que ele não pareça muito pregador ou entediante?

Bem, a verdade é que eu não tenho interesse em pregar nenhum tipo de justiça social. As origens do personagem vêm desse mundo louco em que vivemos, mas eu não tenho motivo algum além de contar uma história divertida e criar alguns personagens interessantes. Renato Jones é o herói do momento, o tipo de herói que só poderia existir no mundo de hoje. Esta é a parte mais interessante para mim. Para mim, a arte nunca deve ser sobre dizer ao mundo como agir, mas sim refletir como esse mundo é.

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Em relação a arte, Renato Jones é como uma tempestade selvagem de diferentes tipos de estilos, que ecoam coisas como  os trabalhos de Dave McKean, David Mack, Bill Sienkiewicz, JH Williams III. Como você decide qual técnica aplicar? Isso é baseado no roteiro ou é uma decisão mais fluida?

Essa é uma boa pergunta. Eu tenho quatro abordagens diferentes em Renato Jones. A primeira é uma simples, porém bem gráfica versão inteiramente colorizada, que é o visual principal da revista. Quando eu volto no tempo [com flashbacks], eu aplico muitas camadas e filtros e, muitas vezes, simplifico as linhas de arte, pra dar uma sensação de idade ou nostalgia. Para momentos de impacto dramático, eu retorno para o preto e branco, para pontuar esses momentos de ação. Eu sinto que isso cria um tipo de pausa significativa na experiência de leitura. E a abordagem final da arte consiste em manipulação fotográfica dos anúncios satíricos no decorrer da revista. Eu amo fazer esse tipo de anúncios inspirados nas revistas Cosmo[politan] ou Vogue. A soma disso tudo é o visual de Renato Jones.

Como seu trabalho como cineasta contribui para esta obra em quadrinhos? Se contribui…

Eu achava que sabia como meu trabalho com cinema influenciava meu trabalho em quadrinhos, mas não tenho certeza mais. Não pergunte a um peixe a respeito da água. Ele não sabe nada sobre a água.

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Anúncio publicitário fictício mostrado em Renato Jones the One %. Arte: Kaare Kyle Andrews.

Renato Jones é uma história que estava na sua cabeça há muito tempo, ou foi um daqueles casos no qual a ideia é tão forte que você tem que colocar para fora ou então a coisa te consome?

Existem sempre milhares de ideias correndo através da minha mente, ou catalogadas em pedaços de papel, ou em arquivos ocultos no computador. Eu nunca fico sem ideias. A pergunta mais difícil é: o que estou mais apaixonado em fazer agora? Tipo, qual o projeto que está gritando para ser colocado em uma página? Renato Jones era esse projeto. E me joguei nele com força total.

Como começou a sua parceria com a dupla musical Tegan and Sara? Como é o processo de se criar uma capa de álbum musical?

Eu sou amigo de Tegan e Sara por anos e anos. Nós acabamos fazendo um videoclipe e um álbum fotográfico juntos, mas é de fato mais uma amizade do que uma relação de negócios. Eu amo a música delas e eu amo aquelas moças. Tenho muito orgulho do que elas fizeram com sua música.

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Você atualmente, entre outras coisas, tem tocado no tema de escravidão em Renato Jones. Existem outros temas sociais e econômicos ainda não explorados que você realmente gostaria de usar em histórias futuras?

Ah, deus! Apenas olhe ao redor, para o mundo. Está em toda parte. Você não consegue escapar! Eu tenho um catálogo de histórias e conceitos para este quadrinho. Se eu conseguisse fazer essas edições mais rapidamente, ela estaria com centenas de edições neste momento.

Como você bolou aqueles anúncios na revista? Eles são hilários.

Eu sempre fui um fã de moda e fotografia de moda. Originalmente, tinha intenção de abordar marcas reais e ter anúncios de beleza neste quadrinho. E isso meio que abriu um caminho para eu criar meus próprios anúncios. Talvez eu tenha assistido a Robocop mais vezes do que deveria quando estava crescendo, mas este tipo de metalinguagem em criação de universos é divertido de fazer.

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Nós temos muitos leitores que são escritores independentes, tentando criar algo próprio e entrar nesta indústria. Eu sei que é um pouco cliché, mas você tem uma mensagem para eles?

Eu tenho sim. É esta: não os deixem te parar. Não deixe ninguém te impedir de criar. Eles não serão estranhos, eles serão amigos e pessoas que você ama. Eles se sentirão excluídos. Eles terão ciúmes. Eles se sentirão ignorados. Eles irão querer te proteger do fracasso. Mas não os deixe impedirem você de criar. Faça isso em primeiro lugar. Acorde e desenhe, acorde e escreva. Faça disso a primeira coisa que você faz no dia. Isso tirará deles a habilidade de te impedir de criar. Isso vai fazê-los te amar mais e você amá-los mais ainda, porque seu coração estará cheio de vida. E vida cria vida.


Agradecimento muito especial ao Leandro Damasceno pela coelaboração desta pauta.

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