[#Pitaco] Supergirl e Superman, do jeito que sempre quisemos

Este é só mais um texto elogiando horrores o que o canal CW e os produtores de Supergirl fizeram com o Superman. Todo mundo está fazendo isso. Não é à toa. Tyler Hoechlin pode não ter cara de Homem de Aço (e não tem mesmo), mas a interpretação dele foi de derrubar os queixos dos mais céticos.

Ora, não poderia ser diferente; Melissa Benoist cumpre muito bem seu papel de protagonista e não fica devendo para outros atores que fazem trabalhos muito bons no programa, como Calista Flockhart (Cat Grant), Chyler Leigh (Alex Danvers) e David Harewood (Henk Henshaw/J’onn J’onzz). Logo, seu primo deveria estar no mesmo nível desses atores.

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Antes de mais nada, é bom deixar uma coisa muito clara: nenhum ator naquele seriado é brilhante. Pra falar a verdade, nenhuma das séries de TV baseadas em quadrinhos tem um elenco primoroso, que mereça prêmios. Não é assim, nunca foi e dificilmente será. Além disso, as séries do CW costumam ser mais leves. Tramas fáceis de entender. Dá pra ver os episódios de suas séries lavando louça, por exemplo. Logo, é natural que não haja muita exigência para que todo o elenco supere tudo que já fez na vida. A cobrança existe, sim, mas a escala é menor do que, por exemplo, em um drama da HBO.

Dito isso, ficou nítido que houve bastante cuidado para caracterizar não apenas o Superman, mas, também, sua dinâmica com todo o resto deste universo. O roteiro e a interpretação dos dois membros da Casa de El são tão bons que você realmente acredita que eles se conhecem há anos. Que se respeitam mutuamente, como família e como heróis. Este, na verdade, foi um dos segredos do sucesso desses dois primeiros episódios da nova temporada da Supergirl: tratar o Superman com respeito, mas como um igual; ao mesmo tempo o telespectador, tem sua inteligência respeitada, ao receber um grande retorno em troca de toda a expectativa colocada nesses episódios.

Tyler Hoechlin sorri sem parecer forçado; emana a iluminação característica do Superman; trata sua prima como uma igual e, em muitos momentos, tem reações que nós, pessoas normais e reais, teríamos se a víssemos em ação; é assertivo e confiante na dose certa; encara embates justos.

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Parece perfeito, não? De certa forma, é. Ele fez o melhor Superman que já vimos na TV. De longe. Todos os anteriores têm seus méritos, mas, às vezes, o personagem principal perdia para seus coadjuvantes ou, digamos, “coastros”. Isso acontecia com Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman. Teri Hatcher era infinitamente superior a Dean Cain, tornando Lois a verdadeira estrela do show; em Smallville, Chloe Sullivan, Pete Ross e, claro, Lex Luthor sempre foram mais interessantes que o Clark Kent de Tom Welling. [George Reeves era um grande Superman, mas, por ser de outra época e envolvido com outros contextos, não será levado em conta para esta comparação.]

Outro aspecto interessantíssimo da interpretação de Hoechlin é seu Clark Kent; mais experiente e confiante como Superman, o repórter do Kansas é um ótimo profissional, mas não deixa de manter o espírito inocente (e até abobado) que sempre fez parte de sua identidade civil. Por ter vivido alguns anos em Metrópolis como jornalista e super-herói, Clark tem um ótimo relacionamento com Jimmy Olsen, Cat Grant e diversos outros personagens. Ele é querido e admirado, mas é humilde. É uma pessoa simples, dotada do palavreado caipira que imortalizou versões anteriores do herói, dentro e fora dos quadrinhos. E com nem tantas qualidade e exposição no episódio, o Superman sobrepuja a Supergirl?

Não.

Eles trabalham juntos. São bons separados, melhores unidos. Ou seja, o pessoal da CW conseguiu não apenas entregar o melhor Superman que a TV já viu, como fez ele se relacionar com outro super-herói com naturalidade, respeito e igualdade. Juntos, eles passam alegria, esperança e felicidade. Passam amor fraternal. É algo como nunca se viu antes, mas que pode, se tudo der certo, ser repetido no futuro. E não se enganem: essa caracterização foi também uma baita cutucada no universo cinematográfico da DC, tão criticado pelos fãs por mostrarem herói com atitudes duvidosas e “dark“.

O terceiro ato do segundo episódio lembra muito o filme Homem de Aço, de 2013. Uma força sinistra invade os sistemas de comunicação para ameaçar os super-heróis, eles precisam enfrentar as tais ameaças no meio de suas respectivas cidades etc. A diferença é que, nas batalhas e nas atitudes dos super-heróis, tudo é diferente. Não há destruições imensas de prédios públicos. Não há falta de preferência na hora de cuidar de transeuntes e as lutas são afastadas pelos heróis sempre que possível, para que ninguém, além deles e dos vilões, sofra as consequências da porradaria. Aconteceu tudo ao contrário no longa dirigido por Zack Snyder.

No fim das contas, muitos sites estão dizendo que Tyler Hoechlin fez um Superman melhor que o de Henry Cavill. Não acredito nisso. Penso que Cavill não teve chance de brilhar, já que o material que lhe foi dado nos dois filmes estrelados por ele o fizeram interpretar um alienígena deslocado, não um super-herói adotado por humanos. Apesar de seu pai, Jor-El (Russell Crowe), ter dito em Homem de Aço que seu filho seria a esperança da humanidade, um deus entre os homens, nada disso foi mostrado. O que se viu foi uma opinião pública dividida, um super-herói que ainda age por impulso e pensa muito pouco em proteger pessoas inocentes. O símbolo de esperança prometido ainda não fez jus a isso.

Portanto, no momento, podemos ficar com Tyler Hoechlin como grande representante do Superman. Mas, se a Warner Bros. e Zack Snyder forem capazes de entender as críticas que sofreram no começo do ano, eles farão um Homem de Aço diferente no longa da Liga da Justiça.

A recomendação que fica é: vejam Supergirl. É provavelmente a melhor série de super-heróis sendo exibida no momento.