[#Pitaco] Ellis voltou! Como? Por quê? Essa é uma nova DC!

Quem acompanha quadrinhos de super-heróis está acostumado a ver as mesmas notícias saindo de tempos em tempos. A gente mesmo aqui no Terra Zero perdeu a conta de quantas vezes Bruce Wayne deixou de ser o Batman, Dick Grayson mudou de identidade, o Superman perdeu seus superpoderes etc. É até difícil acompanhar tudo isso às vezes. O Homem-Aranha é um grande exemplo disso. Peter Parker já foi, já voltou, já foi clonado, já teve outa identidade, foi pobretão, foi milionário, foi a favor do governo, virou a casaca… é muita coisa.

Por outro lado, toda vez que uma nova fase começa para um personagem, há algum novo escritor (na maioria das vezes) fazendo tramas parecidas mas com elementos diferentes. Pessoais. Coisas que só ele ou ela poderia oferecer, seja do lado do saudosismo ou da novidade. É isso que nos mantêm lendo super-heróis. Porém, olhando para a indústria como um todo, vez ou outra as editoras tentam fazer alguma coisa realmente diferente e é aí que o negócio começa a ficar interessante.

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O universo Wildstorm pouco antes de ser extinto.

Toda editora tenta diversificar suas publicações, seja para mais ou para menos. Iniciativas editoriais e acordos com propriedades de outras mídias são comuns há décadas: tome como exemplo uma notícia que publicamos ontem sobre a Dynamite, uma das mais diversificadas editoras que existem e uma das minhas favoritas. Mais interessante ainda foi o anunciado acordo da DC com ninguém menos que Warren Ellis, um ícone britânico dos quadrinhos que está de volta à indústria para revolucionar o Universo Wildstorm criado por Jim Lee há mais de vinte anos. Este movimento da DC é de causar explosões de cabeças nos fãs de HQs.

Antes de comentá-lo, vamos entendê-lo.

Os WildCATS de Jim Lee. Eles voltarão na Nova DC.
Os WildCATS de Jim Lee. Eles voltarão na Nova DC.

A Wildstorm começou lá atrás, na fundação da independente Image Comics. Na verdade, a editora era uma espécie de conglomerado de vários estúdios de arte e a WS pertencia a Jim Lee (como a Awesome Extreme pertencia a Rob Liefeld). Ele era uma estrela que vendia milhões com seus X-Men na Marvel, mas recebia muito pouco do absurdo faturamento da editora em cima da revista. Na tal Image, Lee e uma série de colaboradores criaram personagens que se tornaram ícones dos anos 1990. Os principais representantes de seu estúdio foram: WildC.A.T.S, Gen 13, Deathblow, Stormwatch e tantos outros. Versões inéditas de super-heróis conhecidos, calcados na ficção científica e na modernidade dos anos 1990.

Enfim, Lee criou coisas que ficaram. Os quadrinhos dos anos 1990, principalmente os que ele e alguns outros profissionais da Image fizeram, eram muito criticados pelo visual excessivo-apelativo e falta de substância nas tramas. Contudo, boa parte disso sobreviveu àqueles tempos sombrios e tiveram boas – senão excelentes – histórias na década seguinte, principalmente após a Wildstorm ser adquirida pela DC. Nesta época, as coisas mudaram muito na carreira de Lee e é aí que começamos a chegar onde queremos com este artigo: Warren Ellis.

O Thor de Warren Ellis e Mike Deodato Jr. Era ruim, cara...
O Thor de Warren Ellis e Mike Deodato Jr. Era ruim, cara…

Durante os anos 1990, Ellis produziu alguns quadrinhos para a Marvel. Não leiam. Sério. Ellis era muito novo na indústria e foi cair na Casa das Ideias quando ela enfrentava seu pior período editorial e comercial. O Thor que ele fez com o brasileiro Mike Deodato Jr. é bem ruim.

Por outro lado, ele tinha começado a mostrar desenvoltura como autor na DC em uma então desconhecida revista chamada Transmetropolitan. Ela fazia parte de um selo chamado Helix. O objetivo da editora com a criação desta divisão era concentrar ali suas histórias de ficção científica. Não deu certo. Helix durou dois anos. Seus títulos foram absorvidos por outras divisões da editora. Através dessa HQ, que era uma mistura de sci-fi, da narrativa gonzo de Hunter S. Thompson e de muito humor negro, Ellis começou a abrir as asinhas no mercado. Mas o melhor ainda estava por vir.

O Transmetropolitan de Ellis foi concluído pela Panini no Brasil.
O Transmetropolitan de Ellis foi concluído pela Panini no Brasil.

Quando começou a trabalhar com Jim Lee na então Image/Wildstorm, Ellis conseguiu colocar sua criatividade pra fora e criou duas obras importantíssimas para as HQs modernas: The Authority e Planetary. A primeira deu o tom de como os super-heróis seriam retratados nas revistas nas décadas seguintes e foi fruto do que ele fez com a versão anterior desse grupo de anti-heróis, o Stormwatch; a segunda foi uma das maiores explosões de criatividade que já se viu nas revistas estadunidenses, uma obra completa que mistura conceitos dos mais abrangentes com uma narrativa emocionante. São obrigatórias.

Mas o ponto aqui não é comentar a bibliografia do autor. O que nos interessa é boa relação de Ellis com a Wildstorm como um todo. Lee sempre soube lidar muito bem com grandes talentos. Até hoje eles têm amizade e respeito mútuo, tanto que quando Lee foi elevado a copublisher da DC e ajudou a editora a revolucionar sua linha editorial com os Novos 52, o autor fez um grande post em seu blog, mostrando-se empolgado com a iniciativa e declarando seu respeito pelo parceiro. Ou seja, existia uma faísca ali. Ellis ficou muito tempo afastado da DC por diversas razões, mas, aos poucos, a editora foi se reaproximando. A proposta, contudo, precisava ser correta, perfeita e adequada para seu retorno.

Stormwatch nos Novos 52 da DC - a inserção da Wildstorm no universo da editora.
Stormwatch nos Novos 52 da DC – a inserção da Wildstorm no universo da editora.

A Wildstorm foi sucateada pela DC antes da instituição dos Novos 52. Os personagens estavam em publicações medianas e com cada vez menos destaque. Quando os Novos 52 chegaram, a Wildstorm se foi de vez e alguns de seus personagens foram absorvidos pelo Universo DC. Não deu certo. Em pouco tempo todos desapareceram, com raríssimas exceções.

Então, de alguns anos pra cá, Lee começou a prometer uma volta grandiosa dos WildC.A.T.S. O papo começou em 2012, antes de os Novos 52 completarem 1 ano de vida. Antes que isso acontecesse, a editora pensou diferente. Enquanto o retorno triunfal dos heróis da Wildstorm ficava em fase de maturação, outros selos ou divisões foram fundadas pela DC para expandir sua linha e, claro, experimentar uma nova forma de fazer quadrinhos.

Ao mesmo tempo, membros chave da editora buscavam reaver antigas e produtivas parcerias. Há anos, o principal escritor da DC é Geoff Johns. Gostem ou não do trabalho do cara, ele se tornou sinônimo do Universo DC. Não à toa, alcançou a posição em que está hoje: presidente do grupo DC Entertainment, com recentes feitos como a criação da série de TV do Flash e participação cada vez mais ativa dentro do Universo DC Cinematográfico. Seu amor pela DC também foi declarado na edição especial DC Universe Rebirth, que deu vida a toda iniciativa do Rebirth, uma que vem trazendo muitos frutos bons para a empresa: serem campeões de vendas nos últimos meses e afogados em elogios da crítica especializada e dos fãs.

Arte promocional de DC Universe Rebirth por Ivan Reis.
Arte promocional de DC Universe Rebirth por Ivan Reis.

Mais do que isso, Johns tomou as rédeas de fazer as pazes com vários artistas em nome da DC. Gente das antigas (como Tony Isabella) e o pessoal mais novo (como Greg Rucka) tinham saído de lá em épocas diferentes por terem dificuldades de lidarem com editores intolerantes ou com o formato de trabalho desgastante e pouco recompensador. Johns tratou de dar um jeito nisso, encabeçou diversas mudanças na política de reconhecimento (e de pagamento) da editora para com seus talentos e muita gente voltou pra lá. Rucka foi um deles, agora comandando a revista da Mulher-Maravilha.

O clima de bem-estar criado por Johns (e muitas outras pessoas) baseado na escola de Lee (somado ao fato de a editora querer retomar suas iniciativas mais ousadas) fez com que a DC se preparasse para 2016 e 2017 como nenhuma outra editora até agora. A abertura que essas mudanças deram para os lados editorial e criativo foi sem precedentes. A partir de agora, a DC não teria simplesmente selos para distinguir lançamentos; ela teria pessoas capacitadas, estrelas do mercado encabeçando um movimento de mudança inédito na indústria! Ou seja, isso mostra como a editora vinha planejando coisas diferentes e importantes e, em algum momento, percebeu que podia quebrar o mercado ao meio anunciando todas elas, uma seguida da outra.

A revolucionária volta das propriedades da Hanna-Barbera aos quadrinhos.
A revolucionária volta das propriedades da Hanna-Barbera aos quadrinhos.

Desde o começo do ano, investiu-se pesadamente nas propriedades dos estúdios Hanna-Barbera. Hoje, a divisão que mostra estes personagens de forma inédita – e em geral muita bem aceita pela crítica – possui diversas revistas, que exploram o lado super-heroico ao reunir Jonny Quest a Space Ghost e Homem-Pássaro, colocam Scooby-Doo e sua gangue numa inusitada Terra pós-apocalíptica e até mostram uma Corrida Maluca no melhor estilo Mad Max. São visões inéditas sobre propriedades que foram estabelecidas há 50 anos e são amadas até hoje.

Em seguida, veio outro golpe de mestre: o Rebirth. Johns encabeçou a mudança, trazendo de volta à cronologia da DC elementos que os fãs sempre amaram e que foram abandonados quando dos Novos 52. Ideias como legado, amor entre os personagens, otimismo e esperança voltaram; as trevas, o edgy e o cinismo de cinco anos atrás, abandonados. Desde então, a DC entrou numa ascensão de vendas que perdura e não deve acabar tão cedo. Antes que os fãs pudessem se recuperar, veio um novo golpe: Gerard Way.

O músico que fez fama mundial com o extinto My Chemical Romance não só é apaixonado por quadrinhos como já escreveu vários deles – e foi premiado por isso. Vide Umbrella Academy, feito com o brasileiro Gabriel Bá. Fã declarado do autor escocês Grant Morrison (que até apareceu em um clipe do MCR), Way agora é líder de outra iniciativa diferenciada na DC, o selo Young Animal.

Young Animal, o selo de Gerard Way.
Young Animal, o selo de Gerard Way.

Nele, escritores e desenhistas com a mesma abordagem indie e outsider que ele dá às suas criações ficaram responsáveis por propriedades intelectuais da DC que abrangem este pensamento. Portanto, estão lá a Patrulha do Destino (feita pelo próprio Way, no melhor estilo Grant Morrison), Shade, The Changing Girl (uma releitura ainda mais maluca do Shade de Peter Milligan) e muitas outras coisas que ainda estão por vir. Com isso, a DC dominou o mercado em três frentes apenas neste ano: o super-heroico clássico, a atualização do nostálgico e o indie. A frente madura ela já tem com a Vertigo há anos. Faltava uma. O retorno triunfal da Wildstorm e toda a bagagem de ficão científica que ela possui.

E veio Warren Ellis.

Coincidência ou não, é aí que está o grande questionamento deste artigo, parece que a DC fez tudo isso para chegar neste momento. Parece que Hanna-Barbera, Rebirth, as mudanças no relacionamento com artistas e Young Animal foram ensaios para o espetáculo principal, o retorno esperado de um mestre, um renovador da mídia que deixou sua marca por onde passou – seja DC, Marvel ou alguma editora independente. Será? As evidências estão aí, mas duvido que algum profissional da DC jamais se pronuncie a respeito disso. De qualquer forma, conseguir trazer essa figura de volta para a DC é a prova de tudo mudou lá dentro. Há dois ou três anos isso seria inimaginável. Aliás, nesse período, Ellis estava fazendo até algumas coisas para a Marvel.

Apesar dessas evidências, os motivos reais por trás do retorno do autor à editora são misteriosos. De certo, a oportunidade de ressuscitar um universo do qual ele fez parte no passado – um que mudou o rumo de sua carreira – e moldá-lo à sua imagem foram ofertas irrecusáveis. Mas isso e o conjunto de mudanças descritos acima mostram um outro lado da história, afinal, quem está no comando? Estas ideias não fazem parte do perfil profissional de homens como Dan DiDio (copublisher ao lado de Lee) e Bob Harras (editor-chefe).

Crise de Identidade, a história que mudou a DC nos anos 2000.
Crise de Identidade, a história que mudou a DC nos anos 2000.

DiDio é espetaculoso, gosta de sagas, de fazer barulho. Encabeçou as polêmicas Crise de Identidade e Antes de Watchmen, apenas para citar dois exemplos. A primeira, um clássico instantâneo, apesar do tema controverso; a segunda, pouco apreciada e mal vendida. Outras iniciativas de DiDio deram certo, claro, mas a verdade é que ele gosta de fazer barulho.

 

Before Watchmen
Before Watchmen

Já Harras tem uma experiência horrorosa como editor. Comandou a Marvel em seu pior período e, desde que entrou na DC, só tem o título de editor-chefe. Não passa de um fantoche. É perceptível pela linha editorial da DC e pela abordagem dos títulos que ele não tem palavra nenhuma ali. Em nada. Sobram apenas três nomes nesta equação: Geoff Johns, Jim Lee e Diane Nelson.

Nelson, que é a chefona da DC e que raramente aparece em público, já vinha tendo reuniões com a Warner nos últimos anos para direcionar a editora a caminhos mais diversificados. Em seguida, Johns ascendeu à presidência do grupo e sua conexão com o Universo DC é invejável. Seu histórico fala por ele. Por fim, Jim Lee. Além de dividir o cargo de copublisher na DC com Didio, ele é o que melhor sabe lidar com talentos entre todos os chefões da editora. Já dissemos isso. Logo, o mais provável é que essas três peças estejam mudando a face da DC para os próximos anos. Não que isso seja 100% verdade, já que nada foi oficializado, mas, ao que tudo indica, foram essas três figuras que planejaram essas mudanças a longo prazo e de forma meticulosa.

Diane Nelson: A moldadora da Nova DC.
Diane Nelson: A moldadora da Nova DC.

Ou seja, assim como aconteceu com a Vertigo há mais de 20 anos, quando Karen Berger revolucionou a linha de quadrinhos adultos da indústria e ficou à frente dos momentos mais criativos da DC naquela época, mais uma vez uma mulher – Diane Nelson – encabeça a movimentação inédita que os fãs estão testemunhando.

No fim das contas, sem se preocupar com cronologias super-heróicas complexas e cíclicas, Ellis tem ouro nas mãos. A partir de agora, ele tem a chance de moldar um universo à sua imagem, tornando o retorno da Wildstorm o projeto mais ambicioso de sua carreira. Todos sabem que ele está à altura disso

  • Ultra FRANKITOZISTA!

    OOOOOOO O WARREN ELISÃÂÃÃÃÃOOOOO VOLLLTTTTTTTTTTOOOOOO O O WARREN ELISÃÂÃÃÃÃOOOOO VOLLLTTTTTTTTTTOOOOOO O O WARREN ELIZÃÂÃÃÃÃOOOOO VOLLLTTTTTTTTTTOOOOOOOOOO!

    • !$@@¢

      mdm

      • Ultra FRANKITOZISTA!

        CREDO!EU MAGNÂNIMO Q SOU JAMAIS FREQUENTARIA AQUELE ANTRO!

    • Pulando o Corguinho

      É TETRA! É TETRA!

  • !$@@¢

    Caraca que texto do Morcelli!!!
    Bato “palmas” com os pés enquanto digito!

  • Michelangelo Fazendeiro

    Imagina se o Mark Waid voltasse? Aí não teria pra ninguém mesmo.

    • !$@@¢

      Nem me fale….
      Imagine se Alex Ross voltasse também???

      • Gym Gordon

        Imagine se Alan Moore voltasse também??? rs

        • Pulando o Corguinho

          Just Imagine Stan Lee’s WildStorm…

  • Super do BdE

    Eu já pensava em Bob Harras como um testa de ferro do Dan Didio antes mesmo dos Novos 52. O cara é um nulo. Pior! Trouxe o Scott Lobdell e o Howard Mackie pra DC!

    • Pulando o Corguinho

      Howard Mackie ainda escreve?

      • Super do BdE

        Escreveu Os Devastadores.

  • DoN

    Traz o Peter David!

    • Leandrodosanjos

      Com Linda Danvers e o projeto Blond Justice…Com a Young Justice e com Aquaman…

  • Moroni Machado

    Concordo com quase tudo. Agora dizer que a Vertigo é melhor que a Image, no selo adulto. Sendo que a Vertigo está uma merda. Fora que dizer que é a editorial mais bem preparada 2016 á 2017, só comparando a Marvel (que está muito ruim). Mas a Valiant e a Image se preparou bem, e tem bem mais artistas e escritores melhores que a DC.

    • O Gato Socialista

      no caso da vertigo, na minha opinião, de cada 10 títulos, um é bom. o resto é só propaganda de selo adulto onde se mistura de forma exagerada sexo, violência, demônios em ambientes urbanos caóticos. isso é “for mature readers”…

      • Moroni Machado

        Concordo.

    • Eduardo Faria Guimarães

      Isso vai de gosto,estou gostando das hqs da VERTIGO,só não tá tendo um título forte,já que desde os Novos 52 ela perdeu uma das melhores hqs que era Hellblazer.

      • Moroni Machado

        Xerife de Babilônia é extremamente forte.

        • Eduardo Faria Guimarães

          Só que essa série é uma minissérie,logo logo vai acabar.

  • Gilberto Santos Junior

    E o Jonathan Hickman? Alguém sabe se ele vai para a DC de verdade?

  • Dominic

    Que poderosa a Diane, adorei

  • Exagero tremendo dizer que tudo o que precedeu a entrada dele foi só pra preparar o terreno.

    Menos, amigo, bem menos.

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