[Análise] Mike Mignola e o fim de Hellboy

Em 1991, a cantora e compositora Tori Amos lançou um disco que daria início ao que mais tarde foi identificado como o sentimento que definiria a atitude das artistas do anos 90. Little Earthquakes (Pequenos Terremotos) foi o álbum de estreia da carreira solo da ex-vocalista do Y Kant Tori Read e, mais do que apenas moldar as os sentimentos de uma década, marcou o início de um movimento de autoexpressão que ainda se mantém muito presente – mas talvez não tão sincero – no mundo atual. O “Girl Power” das Spice Girls, a versão mais mercantilizada e mais evidente do orgulho de se expressar enquanto mulher dentro do patriarcado, não existiria se não fosse Little Earthquakes.

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Ainda que não tenha sido um espetacular sucesso de vendas (e nem tenha sido um fracasso notório), este primeiro disco solo de Amos se tornou uma referência e um marco para as artistas femininas e feministas. Tori é considerada uma “artist’s artist” – o que significa que sua obra traz um estranho brilhantismo e algo de premonitório que seus companheiros não conseguem resistir ou alcançar.

Exatamente como Mike Mignola e seu Hellboy nos quadrinhos.

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Hellboy apareceu ela primeira vez em uma publicação da Dark Horse em 1993, mas sua primeira minissérie, Semente da Destruição, foi publicada em 1994. Com argumento e arte de Mignola e roteiro de John Byrne (com quem Mike tinha trabalhado na Marvel alguns anos antes), Hellboy marcou os primeiros momentos do selo Legend, lançado pela editora em meados da década de 1990. O Legend trazia alguns dos nomes mais consagrados da indústria para um espaço único de criações próprias. Art Adams (Monkey Man and O’Brien), Frank Miller (Sin City e Martha Washington), John Byrne (Next Men), Paul Chadwick (Concreto), Mike Allred (Madman), Walter Simonson (Star Slammers) e o próprio Mignola tiveram a chance de fazer o que quisessem. Miller disse que o nome do selo não era autorreferente. A ideia era a de que eles estavam criando lendas e não a de que eram lendas dos quadrinhos reunidas. Acreditar na ingenuidade dessa declaração é direito de todos, mas o fato é que os integrantes do selo criaram, mesmo, lendas. Lendas tão grandes e tão pequenas quanto o mercado de quadrinhos – que parece enorme para quem o acompanha, mas que é pequeno, colocado em perspectiva quando se fala em bilheterias de filmes baseados nos conceitos de HQs.

Destas pequenas grandes Lendas, esses pequenos terremotos, nenhum chegou a ser tão próximo de ser relevante –numa fantasiosa escala Richter que mede o quanto propriedades quadrinísticas entram para a cultura pop geral – quanto Hellboy.

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O demônio infantil, chamado à Terra graças a rituais de uma divisão ocultista (fictícia?) dos nazistas, desafiava expectativas. Hellboy, principalmente no início de sua carreira, não foi um sucesso de crítica. O Legend era um terreno fértil para grandes nomes e grandes conceitos, mas rapidamente se tornou uma espécie de quintessência dos quadrinhos de gênero. Byrne fazia seus super-heróis, Miller redefinia os padrões estadunidenses para os gêneros policial e de guerra com Sin City e Martha Washington, Adams resgatava algumas das características mais peculiares das HQs de monstro e de aventura da era de ouro e Chadwick colocava um toque super-heroico na sensibilidade indie típica dos anos 90 com Concreto.

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Hellboy era inclassificável. Mignola fazia uma história de aventura misturada com ocultismo, com folclore mundial (um hobby do autor), com humor, com influências das antigas HQs de monstros e com escopo kirbyano em alguns aspectos e undeground em outros. Era um amálgama de interesses que formava um quadro peculiar que provocava os críticos. Mas o herói encontrou respaldo em outro lugar: no público. Graças à uma audiência fiel, que só fez crescer ao longo dos anos, Hellboy conseguiu se manter nas prateleiras. Mais do que isso, deu origem a novas séries que também tiveram vida longa. Entre estas, Abe Sapien, protagonizada pelo colega de trabalho mais famoso do herói, B.P.R.D., que mostrou aventuras estreladas por outros membros do departamento para o qual Hellboy trabalhou durante boa parte de sua vida, e Lobster Johnson, com as aventuras do único herói de verdade que existia no Universo de Hellboy antes do aparecimento de menino do inferno.

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Até quando o criador achou que a série afundaria, o resultado foi mais sucesso na forma de outro personagem. Mignola é um pessimista eternamente frustrado. Quando ele assinou o contrato do primeiro filme baseado em sua maior criação, achou que existia uma possibilidade real do resultado final ser desastroso. O orçamento da produção não era muito grande e a necessidade de diversos efeitos especiais era iminente. “Meu filme vai fazer Howard, O Pato parecer …E o vento levou! Estou perdido!”, pensou o autor. Com medo do Hellboy ter que sumir do mapa após o fracasso cinematográfico, ele criou outro personagem com o qual poderia trabalhar temas e histórias que tinha planejado e que, talvez, não pudessem mais ser exploradas. Felizmente, Hellboy foi um sucesso no cinema. O segundo filme foi mais bem sucedido ainda e o terceiro, apesar de ser muito provável que nunca aconteça, é uma eterna promessa. O personagem que substituiria Hellboy se chamava Joe Golen, Occult Detective. Ele ganhou uma minissérie própria, coescrita por Christopher Golden e desenhada por Patric Reynolds, lançada pela Dark Horse em 2015.

Em 2011, Mike Mignola matou Hellboy. No entanto, desafiando as convenções da indústria, como fez desde o princípio, o personagem não foi substituído por outro que assumiu o seu nome, nem sua consciência foi parar na mente de seu maior inimigo. Hellboy morreu, foi para o Inferno e continuou por lá as suas aventuras. Hellboy in Hell marcou o retorno de Mignola à arte do título mensal do personagem, que ele tinha deixado de desenhar desde 2006, ano em que Richard Corben assumiu as revistas do herói. Corben e Duncan Fegredo revezaram o trabalho de arte nas minisséries seguintes, até a derradeira The Fury, que precede a fase In Hell.

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O Inferno de Mignola não tem muita coisa a ver com o Inferno como este é geralmente retratado. Se o mundo real de Hellboy não se parecia tanto com a realidade, porque o seu criador assim decidiu, então, nada mais justo do que o Inferno ser igualmente é composto apenas daquilo que Mignola queria desenhar.

“Eu queria colocar o Hellboy num lugar onde eu pudesse fazer o que eu quisesse, como se eu não tivesse um trabalho”, ele disse. As coisas que o autor coloca no Inferno dele, portanto, não precisam explicação ou detalhamento. São coisas que ele queria desenhar e pronto. De insetos gigantes semitransparentes a cidades encravadas em colinas. No entanto, logo depois de começar a desenhar esta fase, Mignola viu que ele estava contando uma última história do seu personagem. Não era para ser assim. Segundo o autor, era para a fase In Hell continuar para sempre, mas ele logo viu que tinha chegado a um ponto onde podia ser avistar o fim da série.

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Então, ele a terminou.

Não com um estrondo, mas com um sussurro. Hellboy foi-se em silêncio. Contemplando a certeza de que não existia muito mais coisas para se fazer.

Hellboy terminou com a mesma dignidade com que Bill Waterson (outro artist’s artist) finalizou talvez a maior série de quadrinhos de todos os tempos, Calvin e Haroldo. Não muito diferente, Mignola disse que iria se dedicar à pintura, assim como Waterson tem feito desde que colocou ponto final em sua seminal tira. Mignola disse que a guinada para as belas artes é um desafio pessoal: “quero ver seu eu consigo ficar bom nisso”. O estilo de suas aquarelas é um pouco menos sombrio, mas ainda continua singular.

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É claro que o Universo Mignola estendido não terminou. Mesmo com o fim da série solo do personagem principal e também do título Abe Sapien, este ano viu ainda o lançamento de duas novas minisséries: Hellboy World Witchfinder: City of the Dead, e Hellboy and the BPRD 1954: The Black Sun. Em ambas o autor original disse que o seu trabalho é se divertir. “Eu invento um monte de coisas e depois deixo os escritores e artistas fazerem a parte mais difícil”. Os criadores nas duas séries são Chris Roberson nos roteiros, com Ben Stenbeck desenhando a primeira e Stephen Green a segunda.

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Recentemente, foi anunciada uma nova mini em cinco edições, também de Mignola e Roberson, mas com desenhos de Paul Grist, chamada The Visitor: How and Why He Stayed. Na primeira história do Hellboy, os leitores viram uma estranha raça alienígena monitorando eventos sobrenaturais na Terra. Mais tarde descobrimos que um destes aliens foi enviado à Terra para matar Hellboy, mas escolheu não fazê-lo. Esta nova minissérie mostra quem é este alien assassino, porque ele foi enviado para matar o Hellboy e porque decidiu poupá-lo, além de mostrar também uma espécie de histórico da raça humana vista pelos olhos de um estranho. Grist é um herdeiro direto do traço que Mignola consagrou. Um traço descrito por Alan Moore como “a mistura do expressionismo alemão com Jack Kirby”.

Os pequenos abalos lançados por Mike Mignola e seu Hellboy há 22 anos continuam sendo sentidos e continuarão a ressoar pela indústria enquanto quadrinhos continuarem a ser publicados. O personagem estranho que apareceu pela primeira vez lá atrás, em San Diego Comic-Con Comics #2, hoje é um dos grandes. Dentro do mundo dos quadrinhos, é um gigante. Mas neste mundinho das HQs, gigantismos são relativos e nem sempre causam mudanças perceptíveis em quem não estava lá para senti-las em primeira mão. Mais ou menos como acontece com pequenos terremotos.

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