[Jab] Britannia #1, de Milligan e Ryp

Desde seu reboot, no início da década, a Valiant Entertainment tem investido de forma cirúrgica em um universo unificado, no qual um plantel de personagens relevantes e diversificados possa florescer. Em qualquer publicação da editora nos últimos anos, há sempre uma conexão com algum fio da própria cronologia. Em 2016, no entanto a empresa finalmente se arrisca fora de sua proverbial “caixa de areia” com uma inusitada série chamada Britannia. E ninguém melhor que uma dupla de colaboradores como Peter Milligan e Juan Jose Ryp para produzir um material de caráter mais independente, inovador e distante do escopo habitual desta editora.

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Britannia é uma trama que se passa no ano 65 D.C. Em meio ao auge do império Romano governado por Nero, o centurião e veterano de guerra Antonius Axia é designado pelo César para investigar eventos sobrenaturais no recém adquirido território conhecido como Bretanha, no noroeste europeu.

A premissa de Milligan e o desenvolvimento da primeira edição surpreendem a primeira leitura, pois transformam um cenário usado quase que exclusivamente para tramas de guerra épicas e batalhas sangrentas em um pano de fundo muito rico para a investigação sobrenatural. Valendo-se de crenças tanto da cultura Romana quanto da mitologia druida Bretã, o autor cria uma aura de mistério e magia vista através dos olhos dos implacáveis conquistadores Romanos. Milligan ainda tem o mérito de tornar Britannia um dos primeiros quadrinhos verdadeiramente adultos da nova Valiant, com cenas realistas de violência gráfica e temas sexuais logo na primeira edição.

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O protagonismo de Antonius em Britannia é ofuscado constantemente pela presença magnânima das Virgens Vestais – sacerdotisas que tinham enorme influência na sociedade romana da época. O quadrinho faz um testemunho e uma reverência à vida das chamadas Vestais (incluindo um rico texto anexo escrito pela Doutora Karen Hersh, do Departamento de História Romana e Grega da Universidade de Temple, corroborando a caracterização de Milligan sobre as personagens). As interações entre estas, o César e o personagem principal são as passagens mais marcantes no quadrinho, nas quais Milligan exibe toda a sua habilidade em misturar o sobrenatural ao tema histórico-político.

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O trabalho de arte de Juan Jose Ryp dá ares de épico à narrativa misteriosa de Milligan. O traço limpo e polido, a caracterização precisa e detalhada de artefatos, vestimentas e cenários torna tudo que o roteirista imagina verossímil é palpável. Britannia tem fotografia de storyboard, enquadramento sem devaneios e um acabamento de luxo que combina toda pompa e a podridão do Império Romano, em um pacote gráfico memorável.

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A estreia de Britannia é uma tremenda ruptura no que estamos habituados a ler, em termos de Valiant. O teor do quadrinho, o formato de apresentação e os temas aqui abordados tornam este um título quase que “vertigorizado” da editora. Afinal, estamos tratando de Peter Milligan, autor que nos mostra aqui uma ideia que rompe barreiras narrativas em relação a este período histórico trazendo uma trama de investigação a uma época de guerra. Isso tudo executado com maestria por um ilustrador que faz de tudo para tornar o quadrinho o mais visualmente acurado possível.