[#Entrevista] Paul Jenkins: Alters, heroísmo e transexualidade

A carreira do britânico Paul Jenkins é uma sucessão de rupturas e inovações. O trabalho do roteirista sempre foi marcado por um tom próprio e ideias que movem a indústria a novos patamares. Isso é notado desde seu início no mercado de quadrinhos de massa em Hellblazer, pelo selo Vertigo nos anos 1990, até sua frutífera passagem pela Marvel no início dos 2000, que incluiu: a popular mini série Inumanos; a criação do ambíguo e disfuncional herói Sentinela; passagens memoráveis por títulos de heróis como o Homem-Aranha e o Incrível Hulk; a primeira história da obscura infância de James Howlett na cronologia da Marvel através do sucesso Wolverine: Origem; e culminando em um de seus trabalhos mais inovadores e analíticos, Guerra Civil: Linha de frente.

Com um currículo como este, o anúncio de uma nova franquia super-heroica totalmente autoral, focada em indivíduos com habilidades especiais, além de dificuldades físicas, mentais e químicas, torna-se motivo e grande interesse para o público mas atento.

Aqui, Jenkins apresenta, em entrevista exclusiva a Igor Tavares, sua novíssima criação, Alterslançada este ano pela jovem Aftershock Comics, e nos mostra que o título vai além do estigma do “gibi da super-heroina transgênero“, prometendo algo muito maior para a indústria de quadrinhos.

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Capa de Alters #1. Arte: Brian Stelfreeze.

Terra Zero: Primeiramente, nós gostaríamos que você apresentasse Alters, uma franquia inteiramente nova e empolgante, para o público da América do Sul.

Paul Jenkins: Alters é uma história sobre certas pessoas no mundo. Todos estes parecem lidar com algum tipo de desvantagem. Estas questões se estendem desde as físicas, como vertigem ou paralisia cerebral, passando por questões de saúde mental como bipolaridade, até questões sociais como moradores de rua e transgênero. Todos eles tem poderes maravilhosos e o foco de Alters é enaltecer a pessoa, o ser humano no meio disso tudo.

Acabo de ler Alters #1 e tive a impressão de que isso é um conceito enorme, muito além de sua personagem principal. Você pode nos contar sobre a concepção da história e como ela evoluiu até a forma que é hoje?

Eu queria fazer um projeto como esse na Marvel ou DC, mas é difícil introduzir um novo grupo de personagens nestas editoras. Então encontrei uma ótima parceria com a Aftershock que está disposta a apoiar o título integralmente. Eu espero que a revista dure bastante tempo e possamos fazer histórias com todos estes personagens.

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Capa variante de Alters #1. Arte: Brian Stelfreeze.

Nosso entendimento é que Alters é um projeto no qual a diversidade tem um enorme papel, seja no elenco ou no time criativo responsável pela publicação. O quão importante é isto para a Aftershock e para você, pessoalmente?

Extremamente importante. Eu quis ter certeza de que fossemos compostos por um grupo diversificado de criadores. Minha demografia pessoal – homem branco de meia idade – domina a indústria de quadrinhos e eu não queria que fosse o caso nesta publicação.

Você considera um tema delicado escrever sobre uma personagem trans como Chalice?

Certamente tem sido interessante. Eu aprendi muito. Há muito mais para ser aprendido, é claro. Eu espero que o fato de estarmos abrindo esta revista para sugestões e conselhos de pessoas trans nos ajude a contar a história da maneira correta.

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A polêmica capa variante de Alters #1. Arte: Richard Case.

Apesar de Altersdefinitivamente, não ter a intenção de ser um título LGBT, sua personagem principal representa esta comunidade e ela chuta bundas, se posso dizer. Então, como tem sido a resposta de leitores trans e de apoiadores da causa até o momento?

Eu diria que tem sido mista. Eu tenho sido tremendamente inspirado pelas demonstrações de amor e apoio de muitas pessoas trans que estão felizes a respeito da caracterização de Chalice. Eu notei algumas pessoas trans ainda compreensivelmente céticas – a forma como os transgêneros normalmente são mostrados na nossa mídia e explorados na indústria de entretenimento deixou as pessoas desconfiadas. E algumas pessoas realmente não se interessaram pela revista. Eu respeito isso.

Temos conhecimento de que você tem trabalhado de forma bem próxima a consultores trans quando escreve os roteiros de Alters e que, além disso, a colorista Tamra Bonvillain também é trans. Então, quão valiosa é esta contribuição para a retratação da personagem principal?

Novamente, extremamente valiosa. Os vários consultores me ajudam a aprender o tempo todo. Meu maior medo é estragar tudo, então eles me mantém na direção correta.

Octavian é um personagem muito promissor e empolgante, especialmente pela natureza de seus poderes cognitivos. Quão grande é seu papel no futuro de Alters?

Sim. Ele tem uma grande história no futuro. Mas é um segredo (risos).

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A protagonista Chalice em Alters #1. Arte: Leila Leiz.

Quão focado é Chalice é Alters? Porque pelo que vimos na primeira edição, você tem um elenco enorme em suas mãos. Então, este é um título de grupo como Inumanos?

Eventualmente, nos moveremos para muitos personagens diferentes. Mas acho que a melhor ideia agora é permitir que a história de Chalice esteja a frente de tudo, enquanto introduzimos os outros personagens lentamente. Não é como Inumanos, mas vai se aproximando a medida que mais “Alters” [como são chamados os indivíduos com poderes na revista] são adicionados.

Entendemos que Alters também tem o objetivo de apresentar a questão de pessoas com desvantagens em seu elenco. Você pode falar sobre estes personagens e como isso funcionará no quadrinho?

Bem, pessoas com dificuldades físicas, é claro tem desvantagens. Mas sejamos claros: não estamos equalizando os transgêneros com digamos, uma dificuldade física. Então, dito isto, eu quero lidar com muitos temas envolvendo pessoas com debilidades. Eu quero escrever sobre os extremos, mas também pequenas debilidades como vertigem.

Finalmente, Alters tem intenção de iniciar um universo super-heroico maior dentro da Aftershock, ou é um quadrinho autocontido? Como você vê o projeto afetando a editora daqui para frente?

Eu acho que Alters é seu próprio universo. É um universo enorme com muito potencial.

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