[Emulador de Críticas] Por que a Marvel não sai do loop?

E aí, pessoal! Ultimamente, estamos vendo algo que fazia tempo que não presenciávamos. A DC acabou concebendo um grande evento verdadeiro e chamando a atenção da mídia dos quadrinhos, com várias notícias de HQs novas, minisséries, novas linhas editoriais comandadas por nomes com respaldo junto ao público e anúncios de artistas exclusivos, tudo isso motivando os leitores a fazer com que a editora vendesse muito mais nos últimos meses. O que me leva ao ponto: o que diabos está acontecendo na Marvel que ainda não rebateu nenhuma das coisas que aconteceram neste ano na DC?

O silêncio está ensurdecedor.

Escrevo isso porque estávamos discutindo no conselho editorial do Terra Zero e percebemos que a Marvel não anda anunciando coisas grandes nos quadrinhos. Parece que sua tática de sufocar os leitores com muitas estreias e anúncios gigantescos não estão surtindo efeito. O fato é que talvez exista uma explicação interessante (não para os fãs) para as coisas não andarem bem na Casa das Ideias.

A Marvel começou um movimento cirúrgico quando criou Miles Morales. Ela criou seu primeiro herói de legado realmente interessante para todos os leitores da editora. Fez com que ele estrelasse a melhor revista do universo Ultimate e realmente conseguiu fazer com que os leitores questionassem se Peter Parker era, de fato, um bom cabeça-de-teia – ou, mais ousado ainda, se poderia existir alguém melhor que ele. Considero que Miles Morales tem a mesma importância que Wally West possui, na DC, para leitores dos anos 1990.

milesmorales-0
Porém, ocorre um erro mortal no planejamento da Marvel. Ela comete a mesma falha que quase levou a editora à falência no final do século passado. Se observarmos com atenção, nota-se que a editora apenas foca em uma única vertente, deixando toda sua linha com a mesma cara, dificultando para que o leitor com alguma experiencia encontre um porto seguro.

Lembra-se da época em que tudo virava uma grande saga dos X-Men e tudo tinha a ver com os mutantes? Ou quando o Homem-Aranha era tomado por sagas que duravam anos e não conseguíamos entender nada que estava acontecendo, dado o grande número de publicações (Saga do Clone, um abraço!)?

Pois então perceba: isso está acontecendo de novo na Marvel.

Você olha hoje para o line-up da Marvel e tudo está mudado. A editora tem, na sua trindade, personagens de legado. Dentre eles, algumas grandes alterações de status quo e uma forte influencia da franquia dos cinemas, sendo exercida da forma impositiva no editorial. Dado o fato que a Disney e a FOX continuam brigando por causa de direitos, eles não chegam a um consenso. Quem perde diretamente com isso é o leitor dos X-Men e do Quarteto Fantástico.

ff2

Mas falando propriamente do legado. Avalio que essa é uma das melhores cartas existentes dentro das HQs. Ela demonstra que o conceito de personagens pode ser infinito e leva ao pé da letra a ideia que quaisquer pessoas com grande habilidades podem defender o mundo. Isso é extremante especial.

Todos sabem que sou muito fã de personagens de legado. Mas, na Casa das Ideias, este conceito vem se tornando a regras nas histórias, devido ao sucesso de personagens como Miles Morales, Sam Alexander e Kamala Khan. Isso tirou boa parte dos seus grandes personagens originais dos títulos que deram fama à editora. Personagens icônicos foram simplesmente substituídos, e continuam sendo, algo que nunca aconteceu tanto tempo dentro da editora.

tumblr_o0bya6jwot1u496xso1_500
Mas isso está, aos poucos, afastando os leitores mais antigos do universo criado por Stan Lee e Jack Kirby. Pois, afinal, para onde estão indo os personagens criados pelas duas lendas dos quadrinhos?

Se você começou a ler os personagens há uma, duas ou três décadas atrás, certamente você percebeu que algo mudou, e não necessariamente para melhor. Em dois anos, foram perdidos o Quarteto Fantástico, Wolverine, Tony Stark, Professor Xavier, Odinson, Steve Rogers (que estava aposentado e agora está longe de sua forma clássica) e assim por diante. Os leitores perderam muitas referências de modo muito veloz, o que é um jogo arriscado: a formação de um novo cânone está passando pela imposição deste panteão em substituição aos heróis que Lee e Kirby inseriram na cultura popular mundial, por meio de quadrinhos e de desenhos animados, principalmente.

logandeath

A DC recentemente tomou um grande solavanco por ter tentado algo inovador, emulando o movimento da Marvel, e também sem preparar seus leitores para essa mudança. O DC You foi comercialmente um fracasso e a editora entendeu que deveria voltar ao básico.

Sabemos que leitores de quadrinhos estadunidenses gostam de algum conservadorismo. Tanto é que a DC voltou a jogar no certo e suas vendas estão crescendo. A aposta da DC é a mesma da Marvel, pode-se questionar neste momento. Sim, é verdade, as duas apostam nos personagens de legado. Mas a DC está preparando o público para isso desde os anos 1980, com a passagem do manto do Flash após um evento drástico, como foi a Crise nas Infinitas Terras. E a Marvel parece estar preocupada com mercados mundiais, de modo conglomerado, e está acelerando o processo de modo mais rápido do que os leitores podem assimilar.

criseterras

É muito difícil de inovar em um mercado cheio de burocracias. Todo leitor quer boas histórias, quer sagas fantásticas, mas não quer necessariamente que mexam com seus personagens. É uma corda bamba, a vida dentro das grandes editoras do EUA. Todos sabem disso.

Gostaria de deixar claro que esses momentos de extrapolação sempre deixam marcas boas nas editoras: para a Marvel isso é visível, com Ms. Marvel, America Chavez e a excelente série da família do Visão.

vision-1-650

Voltando à pergunta do título: assim como o Surfista Prateado, na edição já histórica de Dan Slott que venceu o Eisner deste ano, a Marvel, com suas novas novas novas novas novas iniciativas que já nem mudam mais de nome, parece estar presa a um loop editorial do qual não consegue sair, cercada que está por compromissos com estúdios, com a pressão por novidades e, claro, com a concorrência à sua frente. Simplesmente não consegue enxergar a saída e, para vê-la, nem é preciso dobrar a realidade: a solução para esses problemas é equilíbrio.

Personagens de legado são extremamente importantes, mas utilizá-los em toda a linha de uma vez é temerário. Os personagens clássicos precisam ter o seu papel, como heróis ou mentores, e precisam de boas histórias para que evoluam para outros patamares. Se eles não têm esse papel, o que a editora faz é afastar seu público cativo e se desconectar dele. A não ser que seja exatamente isso o que a Marvel queira. Parece coerente para você? Para mim, não.

Até a próxima! E o lembrete é: amigos marvetes, tentem não me matar!