[Clarim Terra-8] Ainda existem bons quadrinhos na Marvel?

Intitular um texto com uma pergunta é uma aposta e, muitas vezes, a receita para o desastre. No entanto, motivado pelo recente sucesso de vendas, crítica e principalmente aceitação dos fãs em relação a iniciativa Rebirth promovida pela Distinta Concorrência e somado ao grande movimento de rejeição do público geral (comprovado em redes sociais, discussões em convenções e mesmo na sessão de comentários deste site) em relação a linha de publicações da Marvel especificamente no período pós-Guerras Secretas, o Clarim é obrigado a fazer este questionamento.

Partindo da premissa de que muitos leitores não conseguem se conectar com os produtos oferecidos pela Marvel atualmente, o intuito do texto é destacar títulos com boa aceitação da crítica nos quais as equipes criativas tem feito um bom trabalho, especificamente no período pós-Guerras Secretas. Com isso, fomentando a discussão sobre qualidade das histórias versus falta de identificação com a linha de personagens. Tópicos completamente heterogêneos que muitas vezes acabam se misturando no calor de afirmações do tipo “Não tem nada de bom sendo publicado na Marvel atualmente!”.

Black Panther

black-panther-stelfreeze
Black Panther. Arte: Brian Stelfreeze

A Marvel pós-Guerras Secretas, visando promover um de seus personagens afrodescendentes mais importantes, contratou um dos autores afroamericanos mais aclamados da atualidade. Ta-Nehise Coates, em conjunto com o ilustrador Brian Stelfreeze, vem reconstruindo e reimaginando todo o núcleo situado em Wakanda, resgatando elementos clássicos do personagem e dando uma roupagem atual e relevante para esta mitologia. O trabalho de Coates e Stelfreeze, associado ao bom marketing da editora neste caso, tornou Black Panther #1 o quadrinho mais vendido do primeiro semestre de 2016 e um sucesso de crítica e de público, que acompanha fielmente a publicação.

Moon Knight

moon-knight-greg-smalwood
Moon Knight. Arte: Greg Smallwood.

O Cavaleiro da Lua nunca foi uma franquia que vendeu milhares de exemplares na Marvel. No entanto, desde muito antes das Guerras Secretas, o personagem faz muito sucesso entre o público de quadrinhos e tem uma sequência de boas histórias que, muitas vezes, passam despercebidas pelo leitor desatento. Na atual publicação protagonizada por Marc Spector, o autor Jeff Lemire combina de forma muito interessante os elementos psicológicos da passagem de Brian Michael Bendis no título com o mistério e misticismo das histórias escritas por Warren Ellis, Brian Wood e até elementos da fase Charlie Huston. Com um roteiro que torna o seu protagonista vulnerável e muitas vezes brinca com as noções de realidade na narrativa e uma arte incrível de Greg Smallwood, Moon Knight é uma prova de que, procurando, você pode encontrar ótimas histórias na Marvel atualmente.

The Unbeatable Squirrel Girl

the_unbeatable_squirrel_girl_1
The Unbeatable Squirrel Girl. Arte: Erica Henderson.

O leitor mais tradicional com certeza não passa nem perto do quadrinho de Doreen Green. O leitor mais tradicional vai questionar a presença de um título como este na lista. O leitor mais tradicional talvez nem leia este parágrafo. O fato é que a Garota Esquilo é um dos casos mais gritantes de “Não li e nem lerei” na Marvel, e talvez nos quadrinhos, atualmente. A publicação, uma colaboração entre Ryan North e Erica Henderson, teve início em 2015, atravessou incólume as Guerras Secretas da editora e, de lá para cá, arrebatou crítica e um conquistou um fiel público de nicho específico entre os leitores da Marvel. O talento de North em misturar humor despojado, ação cartunesca e temas joviais em roteiros rápidos e objetivos, somado à caracterização única de Henderson do universo Marvel, tornaram esta obscura personagem uma das figuras mais carismáticas da Marvel na atualidade.

Squadron Supreme

squadron-supreme-leonard-kirk
Squadron Supreme. Arte: Leonard Kirk

Existe uma reclamação recorrente de leitores mais conservadores sobre uma carência de títulos super-heroicos mais clássicos na Marvel, atualmente. A Marvel, de fato, não tem mais uma formação considerada “clássica” de equipes de heróis em nenhum de seus quadrinhos. No entanto, em termos de formato de roteiros e histórias, James Robinson e Leonard Kirk tem produzido algo perfeito para o fã mais tradicional em Squadron Supreme. Escolhidos a dedo por todo o multiverso da editora, Robinson usa encarnações das mais diversas dos heróis que já formaram esta obscura equipe em uma trama cheia de intriga, conspirações e conflitos internos. Se valendo da premissa de que esta equipe é formada por personagens que já “perderam” seus universos por falta de um pulso firme de seus heróis, o Esquadrão Supremo torna-se um time que é temperado com uma dose muito forte de urgência e até radicalismo em suas ações. Algo que aumenta a dose de tensão a cada edição do título.

Spider-Man 2099

spider-man-2099-1-will-sliney
Spider-Man 2099. Arte: Will Sliney.

Com tantas mudanças polêmicas e títulos diferentes envolvendo o Homem-Aranha recentemente, fica fácil para os fãs da franquia se desmotivarem completamente e abandonarem as revistas associadas ao Cabeça-de-Teia. O que talvez alguns fãs mais tradicionais não tenham se atentado é que, desde a fase Superior nas revistas do Aranha, um certo Miguel O’Hara tem se balançado pelos prédios da Nova York dos tempos atuais, no título Spider-Man 2099. As aventuras de O’Hara como um Aranha fora de seu tempo tem sido escritas pelo seu criador e arquiteto do universo 2099, o veterano Peter David, e ilustrado de forma incrível pelo artista Will Sliney. Sem fazer muito estardalhaço (como é de costume), David, desde 2014, tem trazido para a cronologia atual da Marvel temas, personagens, elementos marcantes de toda a mitologia de 2099, misturando-a de forma consistente com o contexto atual dos quadrinhos do Homem-Aranha. Um verdadeiro tesouro escondido para os admiradores desta encarnação do personagem.

Black Widow

black-widow-chris-samnee
Black Widow. Arte: Chris Samnee.

A Marvel tem feito esforços bastante nítidos para inserir personagens femininas em papéis de destaque em suas publicações atuais. É verdade que nem todos estes esforços são bem-sucedidos. No entanto, uma certa espiã russa tem protagonizado uma das publicações de ação mais eletrizantes de sua linha de quadrinhos. Black Widow, com roteiros colaborativos de Mark Waid e Chris Samnee e arte do próprio Samnee, leva todo o entrosamento adquirido pela dupla em sua aclamada passagem pelo Demolidor para o universo de espionagem de Natasha Romanoff, em um pacote de ação de alta octanagem que usa elementos do passado traumático da heroína nos dias de hoje como pano de fundo para uma publicação que é quase que 100% voltada para a ação. O entendimento de Waid da personagem e o estilo de narrativa acelerada de Samnee tornam este quadrinho uma leitura mensal veloz, vibrante e satisfatória.

Daredevil

daredevil_1_ron-garney

Tentar seguir uma passagem de Mark Waid em qualquer tipo de publicação é um enorme desafio para o autor que assumirá o título. Isso se torna ainda mais grave quando esta passagem é uma das colaborações mais fortuitas da carreira de Waid, como foi o caso de sua parceria com Chris Samnee em sua última passagem pelo Demolidor. Felizmente, Charles Soule não se deixou intimidar pelo sucesso arrebatador do volume anterior do Guardião da Cozinha do Inferno e vem criando seu próprio estilo de histórias para o personagem. Soule trouxe Matt Murdock de volta a Nova York, deu a ele uma nova atribuição, trabalhando na promotoria pública do Estado, restabeleceu a identidade secreta do personagem e ainda vem trabalhando uma história de legado lentamente, através do novo personagem Blindspot. É definitivamente uma nova guinada na vida do Demolidor em boas histórias que resgatam o clima da fase Ann Nocenti em uma nova roupagem.

Old Man Logan

old-man-logan
Old Man Logan de Andrea Sorrentino

O universo devastado e sem esperança criado por Mark Millar e Steve McNiven quase dez anos atrás já é um dos novos clássicos da Marvel e uma história fechada frequentemente recomendada aos leitores que se iniciam em quadrinhos de Wolverine. Durante as Guerras Secretas, o editorial da Marvel resolveu resgatar este universo pelas mãos de Brian Michael Bendis e do sensacional artista italiano Andrea Sorrentino. O resultado da empreitada foi tão positivo que o personagem, mais velho e surrado, foi incorporado ao novo universo Marvel e estrela um título mensal com a mesma equipe do tie-in. O velho Logan agora vive na cronologia atual da Marvel, tentando impedir que o futuro de onde veio se concretize. Uma história bem contada de um homem que viu o pior futuro possível e tenta evitá-lo a qualquer custo. Tudo isto realizado com uma arte espetacular.

Os títulos acima foram selecionados aleatoriamente de uma lista que poderia conter ainda coisas como Silver Surfer de Dan Slott e do casal Allred (vencedores de um Eisner em 2016), Ultimates de Al Ewing, Hercules de Dan Abnett, Power Man & Iron Fist de David Walker e Sanford Greene, Nighthawk do mesmo Walker, Vision de Tom King, Howard the Duck de Chip Zadarsky, Punisher de Becky Cloonan e do saudoso Steve Dillon, Doctor Strange de Jason Aaron e Chris Bachalo, e até títulos mais populares, como o honestíssimo All-New Avengers de Mark Waid ou mesmo a atual passagem de Nick Spencer pelos dois quadrinhos do Capitão América. Nestes dois últimos casos, independente das encarnações dos personagens e da opção editorial da Marvel pela composição do elenco, os autores e a equipe de arte vem produzindo histórias em quadrinhos de qualidade para quem se interessar a ler.

power-man-iron-fist-sanford-greene
Power Man & Iron Fist. Arte: Sanford Greene.

É lógico que o leitor tem todo o direito de não se identificar com as publicações atuais da editora e simplesmente ignorar estas quadrinhos, por não enxergar superficialmente nada interessante. O que é diferente de afirmar que não há nada de fato bem produzido pela Marvel atualmente. As boas histórias ainda estão lá e, mesmo que não haja conexão com um público acostumado com certo tipo de formato editorial adotado pela empresa, é no mínimo leviano fazer este tipo de afirmação. A proposta do artigo é informar e, quem sabe, despertar a curiosidade para alguma publicação citada. A discussão e as divergências são inevitáveis neste caso e o espaço de comentários, como sempre, está aberto para os inputs do público do Terra Zero sobre o assunto.

45 Comentários

Clique para comentar

dois × 4 =

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com