2000 AD chega à edição nº 2000

Zarjaz! A revista semanal 2000 AD, uma das mais importantes publicações de quadrinhos do ocidente, chegou, na semana passada, ao seu nº 2000. Ou, como preferem os ávidos leitores ingleses, Prog 2000.

2000 ad Prog 2000

Duas mil edições (além do famoso e restrito Prog Zero) que mostraram, desde fevereiro de 1977, os primeiros ou mais importantes trabalhos de Garth Ennis, Charlie AdlardAlan Moore, John Wagner, Carlos Ezquerra, Grant Morrison, Ian Gibson, Kevin O’Neill, Mark Millar e mais dezenas de outros artistas e roteiristas. Durante muito tempo – e talvez seja o caso até hoje –, a 2000 AD foi o principal celeiro de novos talentos do mercado britânico de quadrinhos. Com o passar dos anos, a revista passou a ser também um local de apresentação de grandes personagens e de nomes já consagrados. Saíram da 2000 AD, além do Juiz Dredd, carro-chefe da revista, Halo Jones, Rogue Trooper (Renegado, no Brasil), Sláine, Zenith, entre muitos outros. A revista ficou conhecida pela alta média da qualidade de suas séries e por ter uma pegada de ficção científica. Mas nunca foi incomum mostrar séries outros gêneros, principalmente fantasia.

Mas como essa história começou?

Para contar os primórdios da 2000 AD, temos que voltar até 1975 e agradecer ao cinema.

Em dezembro de 1975, Kelvin Gosnell, um dos editores da IPC Magazine, leu um artigo que falava sobre a grande número de filmes de ficção científica que seriam lançados no ano seguinte. 1976 é o ano de lançamento de Fuga do Século 23 (Logan’s Run), Ano 2003 – Operação Terra (Futureworld), O Homem que Caiu na Terra (The Man Who Fell to Earth), No Coração da Terra (At the Earth’s Core), Foi Deus Quem Mandou (God Told me To), In Staub der Stern, o remake de King Kong, entre vários outros. Percebendo a possibilidade e um filão de consumidores, Gosnell negociou com a IPC o lançamento de uma nova revista em quadrinhos focada no gênero. A empresa chamou Pat Mills, escritor freelancer que já tinha experiência no mercado. Mills chamou o amigo e também freelancer John Wagner para trabalhar como supervisor de roteiros, e os dois começaram a desenvolver personagens. O nome 2000 AD começou como uma brincadeira, já que nenhum dos dois acreditava que a revista duraria muito tempo.

frankenstein 2000 AD Jiz Dredd David Carradine
Frankenstein, protagonista de Corrida da Morte – Ano 2000, interpretado por David Carradine e inspiração inicial para a criação de Juiz Dredd

Os dois escritores, alimentados pelo que aprenderam em experiências editoriais anteriores, desenvolveram a ideia para Dredd, que deram a Carlos Ezquerra para desenhar. O que eles imaginavam para o visual do Juíz era algo parecido com o personagem Frankenstein do filme Corrida da Morte – Ano 2000 (Death Race 2000). Foi Ezquerra quem nos salvou dessa e criou o design que conhecemos hoje, com armadura, ombreiras e o icônico capacete.

Juiz Dredd Judge Dredd Carlos Ezquerra
Primeiro design de Juiz Dredd por Carlos Ezquerra, ainda sem alguns dos elementos característicos do uniforme, mas perfeitamente reconhecível.

A primeira história desenhada apresentava um cenário muito mais futurista do que Mills e Wagner tinham originalmente pensado, mas eles gostaram da visão de Ezquerra e mantiveram a mesma pegada, reescrevendo parte do roteiro. Enquanto ainda estavam na fase de pré-lançamento, a revista quase foi comprada por Paul DeSavery, empresário inglês que, à época, era dono dos direitos de Dan Dare, principal personagem de ficção científica dos quadrinhos ingleses até então, publicado durante a década de 1950 (e que se manteve assim até meados de 1967) – saiba que o visual de Ministério do Espaço, de Warren Ellis e Chris Weston, foi todo baseado em Dan Dare. Mills achava que ter as histórias de Dare na 2000 AD seria uma boa, para dar credibilidade ao título rapidamente. No entanto, o negócio com DeSavery não vingou e a possibilidade de melhorar o pagamento dos profissionais que estavam trabalhando para criar a revista também não aconteceu.

Neste momento, Wagner já tinha saído da equipe e Mills, temendo perder Dredd, ofereceu o personagem para diferentes artistas e escritores, esperando que outras cabeças ajudassem a desenvolver o conceito como um todo. Esta estratégia rendeu um atraso na produção da primeira história oficial do personagem, que acabou sendo publicada apenas no segundo número da 2 da revista, e não na edição de estreia, como eles queriam. O roteiro foi escrito por Peter Harris, extensamente reescrito por Mills, e desenhado pelo então novato Mike McMahon. Ofendido de ver a primeira história de Dredd impressa não tendo sido desenhada por ele, Ezquerra também pediu as contas.

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Capa da edição de estreia de 2000 AD

A primeira edição, com miolo em preto e branco, teve Os Heróis do Harlem (Harlem Heroes), história que girava em torno do aeroball, um tipo de basquete futurista e violento, jogado usando jetpacks. O roteiro foi de Mills e a arte do então novato Dave Gibbons. Dan Dare acabou estreando também na primeira edição, com desenhos do italiano Massimo Belardinelli. Gibbons e Belardinelli, trocaram de postos a partir do número 28 da revista, com o primeiro desenhando Dare e o segundo assumindo supertime de esportistas.

Fizeram parte ainda da primeira edição M.A.C.H. 1, de Pat Mills e Enio, inspirada na série de TV O Homem de Seis Milhões de Dólares; Invasão! (Invasion!), de Mills e Gerry Finley-Day, que apresentou o motorista-tornado-guerrilheiro Bill Savage e mostrava a invasão do Reino Unido por um país estrangeiro muito parecido com a antiga União Soviética; e Carne (Flesh), também de Mills, que mostrava cowboys viajantes do tempo que caçavam dinossauros como alimento para seu futuro.

Wagner voltou a escrever para a revista no número 9, o que contribuiu decisivamente para fazer de Dredd o personagem mais popular da publicação, protagonismo que ele raramente perdeu. Mills deixou a editoria depois de dezesseis semanas. Kelvin Gosnell assumiu os trabalhos, mas Mills retornou várias vezes, como escritor.

A IPC foi vendida para o magnata Robert Maxwell em 1987 e a revista passou por uma grande transformação. Entra as mudanças, um novo editor, Richard Burton, e a partir daí a história central da revista passou a ser impressa em quatro cores. Foi nesta época que aconteceu a estreia de Zenith, de Grant Morrison e Steve Yeowell, primeira série de super-heróis da história do título. O número de páginas em cores foi aumentando ao longo da década de 1980, até toda a revista ser tomada em 1991, ano em que Robert Maxwell faleceu. A sua empresa, Fleetway, fundiu-se com a London Editions, que tinha o direito sobre o material da Disney no Reino Unido e formou-se a Fleetway Editions.

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Prog 723, a primeira edição totalmente colorida de 2000 AD, de 1991.

A década de 1990, espelhando o mercado norte-americano, foi difícil para a 2000 AD. Vários escritores novos e entusiasmados estavam começando a despontar, mas era complicado criar grandes sucessos imediatos. Nomes que se tornariam sinônimo de sucesso ainda não estavam maduros o suficiente para gerar vendas expressivas. Grant Morrison, Mark Millar, Garth Ennis e Dan Abnett produziam regularmente para a 2000 AD, mas ainda sem retorno financeiro. John Tomlinson se tornou editor em 1994 e, durante a sua breve estadia, Juíz Dredd voltou a ser o carro-chefe da revista. Ele foi substituído por David Bishop, em 1996, que tentou todo tipo de artimanha para reerguer as vendas, mas todas sem sucesso.

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Uma das artimanhas foi o lançamento do primeiro Prog 2000 da 2000 AD, comemorando a chegada do ano 2000. – foi um verdadeiro marco nos quadrinhos ingleses. Arte: Brian Bolland

Em 2000, a desenvolvedora de jogos Rebellion Developments Ltd. comprou a 2000 AD da Fleetway. Os editores da Rebellion à época eram Andy Diggle e Matt Smith. Diggle sairia da editoria para se tornar um roteirista de sucesso no mundo dos quadrinhos, especialmente em trabalhos realizados ao lado do desenhista Jock.

Matt Smith continua sendo o editor da 2000 AD até hoje. Sobre o marco histórico agora alcançado, ele disse em entrevista concedida para a Wired:

A 2000 AD continua sendo relevante. Não é algo que você talvez se lembre de ter lido em 1985. É ainda uma leitura vital e pulsante que aparece nas prateleiras todas as semanas, sem falta, há quarenta anos. É a última grande sobrevivente da indústria britânica de quadrinhos e também a sua mais comum fonte de frutos. Alcançar suas mil edições é também um dedo na cara da indústria dos quadrinhos, que se sente na obrigação de recomeçar a numeração de seus títulos a cada cinco anos. A 2000 AD tem orgulho de sua longevidade.

Para o editor, o que mantém o título relevante é seu forte senso de identidade, a certeza de que ele sempre soube o que era, as histórias que queria publicar e que atitudes queria promover. Ele não se esqueceu também de dizer que a qualidade das histórias sempre foram muito altas, bem como a variedade de temas.

Smith é hoje a voz de Tharg the Mighty, “apresentador” das histórias à Guardião da Cripta, da série Contos da Cripta. Na verdade, a prática de ter um apresentador em revistas em quadrinhos era comum na Inglaterra dos anos 1970. Tharg foi, em princípio, só mais um. No entanto, quanto o editor David Bishop tentou substituí-lo, foi atacado por fãs de toda parte. Tharg retornou ao seu cargo pouco depois e continua sendo parte vital da revista. Assim como o é a nomenclatura das suas edições. Cada número de 2000 AD é chamado de “prog”, abreviatura de programme – grafia inglesa da palavra que para os americano é program. Dentro da mitologia da 2000 AD, as histórias não são produzidas, mas enviadas diretamente para a página impressa.

O poderoso Tharg, editor da 2000 AD. Arte: Roboticfische
O poderoso Tharg, editor da 2000 AD. Arte: Roboticfische

A Prog 2000 saiu no Reino Unido na semana passada. Como não poderia deixar de ser, a edição especial trouxe alguns dos mais clássicos autores de volta para participarem das celebrações. John Wagner e Carlos Ezquerra fazendo Juíz Dredd, Pat Mills e Kevin O’Neill produzindo Nemesis the Warlock, além de Peter Milligan, Dab Abnett e Alan Grant; com histórias de uma página de Brian Bolland, Mick McMahon, Dave Gibbons, Robin Smith e muitos outros. As capas ficaram com Glenn Fabry, Cliff Robinson e Chris Burnham.

Ano 2000 AD
Edição de estreia de Ano 2000, a versão brasileira (e mensal) de 2000 AD publicada pela Ebal. A periodicidade é considerada o principal equívoco para o naufrágio da publicação no país.

Durante breves períodos de tempo, desde a EBAL, algum material da 2000 AD foi publicado no Brasil. A Abril chegou a lançar crossovers do Dredd com o Batman e a Pandora Books também publicou material da 2000 AD por aqui. A tentativa mais recente de emplacar uma versão brasileira do título foi com a Juiz Dredd Magazine, publicação da Mythos, que foi cancelada em agosto de 2015, depois de apenas dois anos de banca. Estranhamente, o formato mix – ainda o padrão brasileiro para a publicação de super-heróis – não agradou o público da JDM, mesmo com a seleção de histórias tendo sido diferenciada por sua alta qualidade.

Os encadernados da Mythos, com histórias solo do Dredd, muito mais caros do que a antiga revista mensal, têm vendido bem mais e, parece, darão a tônica do futuro do personagem no mercado nacional. Como será este futuro?Outros personagens, como Nemesis The Warlock, ABC Warriors, Chopper, Strontium Dog, Sláine, Zenith, Bad Company, Nikolai Dante, Sinister Dexter e outros sucessos absolutos da 2000 AD terão sua chance real por aqui? Nem Tharg saberia dizer hoje em dia.

Borag Thungg, Zeronauta!

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