The Orixas: quando Jack Kirby encontra a mitologia brasileira

Imagine se Jack Kirby, o lendário Rei dos quadrinhos, responsável por ser coautor de praticamente todo o universo Marvel conhecido e idealizador de toda a mitologia dos novos deuses da DC Comics, resolvesse criar uma HQ sobre os orixás das religiões de matriz afro?

Um artista brasileiro, chamado Hugo Canuto, fez essa mesma pergunta a si mesmo. O desenhista baiano divulgou em seu perfil pessoal no Facebook uma releitura da clássica capa de The Avengers #4, em homenagem aos 99 anos de nascimento do Rei. Só que, em vez dos Vingadores, a arte trouxe os Orixás, entidades oriundas das religiões afro. A repercussão positiva da postagem, que teve mais de 200 compartilhamentos, fez com que Hugo levasse adiante a ideia: Orixás irá virar uma história em quadrinhos completa. “Eu senti que a arte tocou um inconsciente coletivo. Essa é uma mistura de duas bases muito poderosas: a mitologia Marvel e a mitologia brasileira”, afirma Hugo, em entrevista exclusiva ao Terra Zero.

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Arte de Hugo Canuto. A homenagem à Kirby teve mais de 200 compartilhamentos no facebook, e motivaram Canuto a lançar uma HQ.
The Avengers Jack Kirby
Capa de The Avengers #4, edição que marcou a estreia do Capitão América nos Vingadores. Arte: Jack Kirby.

Canuto não é um novato na temática. No ano passado, lançou no FIQ a HQ A Canção de Mayrube, história que usa como material-base as lendas dos povos da América Latina, como Incas e Astecas. “Eu já estava nesse caminho de pesquisas mitológicas. Agora resolvi que quero fazer um quadrinho que remeta à mitologia dos orixás, que remeta á essa ancestralidade”, conta.

O formato retrô da paródia ditará o tom utilizado na vindoura HQ (que, ao contrário da capa, não irá emular o traço de Jack Kirby). Segundo Canuto, a ideia é que Orixás (nome provisório do projeto) tenha uma cara de quadrinho antigo, remetendo ao formato e até mesmo à paleta de cores dos anos 1960.

Capa de A Canção de Mayrube, HQ autoral de Hugo Canuto.
Capa de A Canção de Mayrube, HQ autoral de Hugo Canuto.

Baiano que é, Hugo entende que as religiões afro são essenciais para a formação da cultura brasileira. Mesmo que alguns tentem negar essas origens. “Isso pra mim sempre foi parte de quem somos, nossa herança cultural. O preconceito existe em tudo, infelizmente. Mas não podemos deixar de contar histórias pensando em quem não vai gostar delas, temos que contar olhando para os que querem ouvir. Estou muito feliz e impressionado com a recepção ao projeto”, conta.

Uma experiência pessoal motivou o artista a se interessar pelo tema. Quando era servidor de uma empresa do governo baiano, se deparou com um revoltante caso de intolerância religiosa. “Em 2014, surgiu uma questão referente a Pedra do Xangô, um monumento que foi atacado por radicais. Começou toda uma mobilização na sociedade para que se tombasse a área. Eu participei das reuniões, que tinham muitos intelectuais, pais e mães de santo. Daí cresceu ainda mais, na convivência semanal, o respeito e admiração por eles. Esse ano parece que finalmente conseguiram que a área do parque fosse criada”, relata Hugo.

Em fevereiro deste ano, a prefeitura de Salvador anunciou o tombamento do monumento. A área estava sendo alvo da especulação imobiliária.

Pedra de Xangô, Salvador, Bahia. Em fevereiro deste ano, o governo baiano anunciou o tombamento do monumento. Foto: Cadu Freitas/BnL.
Pedra de Xangô, Salvador, Bahia. Em fevereiro deste ano, o governo de Salvador anunciou o tombamento do monumento. Foto: Cadu Freitas/BnL.

Canuto ainda está desenvolvendo a HQ. A equipe que irá trabalhar no projeto já está sendo selecionada. De acordo com ele, uma prévia será lançada em formato digital nos próximos meses.  A ideia é lançar o quadrinho no Catarse a tempo de acompanhar o centenário de Jack Kirby, que ocorre em agosto do ano que vem.