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[#Pitaco] A Liga

Escrito por Diego Bachini Lima

Todos os personagens da linha do Capitão Marvel eram inspirados em pessoas reais. Menos um.

Billy Batson ClássicoBilly Batson era retratado como um menino genérico. Comum. Para que ele pudesse ser qualquer leitor.

Ele era um símbolo para significar algo que todos somos.

Ele era branco, com cabelos negros. Mas ali naquele mundo originalmente em preto-e-branco, não importaria se ele fosse loiro, negro, amarelo ou mestiço. Ali, simplesmente valia que ele poderia ser qualquer um.

Captain Thunder, uma proposta de 1982 para então Terra 1 que não foi levada pra frente por causa da Crise.

Captain Thunder, uma proposta de 1982 para então Terra 1 que não foi levada pra frente por causa da Crise.

E isso só é possível porque somos todos iguais. E se Billy era um exemplo de como deveríamos ser para merecemos o poder de deuses, o que nos separa dele, e nos une entre si, é justamente isso: nossos inúmeros defeitos.

No fim de uma história do Capitão, acabamos sempre vendo só o lado errado. Ali, o mal é negro. O bem, branco. Escuridão versus luz. Mas são páginas de quadrinhos. Elas aceitam a ficção. O mundo real é repleto de um mar acinzentado, com lampejos de luz e escuridão.

Buscamos no mundo real vilões e salvadores, nos esquecendo de olhar e de pensar o que faríamos se nós fôssemos eles. Seríamos totalmente egoístas, pensando apenas em nós mesmos? Conseguiríamos não pensar no bem das pessoas? Seríamos totalmente bondosos, pensando em todos e abdicando de nossas vidas? Conseguiríamos não sucumbir à tentação de um caminho mais fácil?

Criamos uma bolha para nós. Tentamos dizer que estamos sempre certos e que quem está fora dela está invariavelmente errado. Se tivéssemos a sabedoria de Salomão, saberíamos que todos estamos errados.

Buscamos nossos heróis no mundo real e nos esquecemos de que nós é que deveríamos nos tornar heróis.

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Reclamamos de quem comete crimes, mas sonegamos imposto, não devolvemos o troco que nos foi dado errado, furamos a fila, colamos nas provas, pirateamos produtos. “Que moral temos para questionar, se não fazemos a nossa parte?”, você poderia então, resignado com esta verdade, perguntar.

Mas não termos moral não é motivo para nos envergonhar? Ser julgado não nos incomoda? Porque nosso autojulgamento não é suficiente para pesar em nossas consciência e nos fazer mudar?

Não aceitamos apenas a diferença em nós mesmos. Aceitamos que estamos certos e outros errados. Não aceitamos opiniões diferentes, sejam extremas ou comedidas. Apenas julgamos e colocamos as pessoas em bolhas, círculos, grupos, tudo ao nosso bel prazer doentio, num mundinho todo nosso em que nosso único superpoder é ter sempre razão. Não é admitir que se está errado. Nem admitir que, simplesmente, não temos opiniões e soluções perfeitas para o nosso mundo. É saber que minhas soluções, ideias, ideais e ações podem, sim, dar origem a coisas ruins. E saber que mesmo ideias que, para você, claramente vão gerar coisas ruins, podem ter, sim, soluções boas para problemas.

E saber que a fórmula mágica não existe.

Talvez as pessoas estejam chegando à conclusão de que o nosso mundo não pode ter heróis. Esperamos um super-homem que resolva todas as nossas mazelas e problemas, da fome à dificuldade de acordar cedo. Da economia até a educação. Das contas até as férias. Não vai acontecer. Porque ninguém é capaz de solucionar tudo, em todo um universo, qualquer que seja o tamanho deste universo.

Crise Infinita - mundo perfeito

“Porque um mundo perfeito não PRECISA de um Superman.”

Em vez de lutar pela nossa própria salvação, ficamos no aguardo de que tudo venha dos céus até nossas mãos. Esperamos e criamos heróis falsos. Queremos que eles comecem a agir. Ou seja, não aprendemos nada.

Agora, talvez percebamos que jamais teremos um herói.

Mas isso pode ser algo bom. Se não teremos heróis para nós salvar, então depende de cada um agir. Ser seu próprio herói. Mas é preciso entender: ninguém, sozinho, vai solucionar todos os problemas do mundo. Ou dos nossos mundinhos. Não vai ser uma única pessoa, e muito menos com uma palavra mágica. Seremos todos nós. Não isoladamente. Como uma Legião, uma Sociedade. Como uma Liga.

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  • Adilson Alves

    Sábias palavras. Um bom texto para reflexão e que possamos sair mais de nossas bolhas.

  • Emerson Pinheiro

    Texto muito atual, neste mundo do cada vez mais “eu” e menos “nós”. Parabéns Diego.

  • léquinho

    Excelente texto, cara. Parabens o/