[Jab] Skybourne #1, de Frank Cho

Frank Cho é uma das figuras mais polêmicas da indústria de quadrinhos nos últimos quinze anos. Adorado por uns e odiado por outros, o fato é que, se você tem contato com títulos das principais editoras estadunidenses, com certeza já esbarrou com alguma imagem do ilustrador. Conhecido mundialmente por um estilo ultralimpo de arte e uma caracterização comumente sexualizada de personagens femininas icônicas, em 2016 Cho se arrisca em uma franquia totalmente autoral, na forma desta Skybourneda BOOM! Studios.

Skybourne é uma minissérie em cinco partes, escrita e ilustrada por Frank Cho e colorizada pelo desenhista e colorista brasileiro Márcio Menyz. A revista nos conta a história dos três irmãos Skybourne: Abraham, Thomas e Grace. Filhos do personagem bíblico Lázaro, os três são agraciados com força sobre-humana, pele impenetrável e imortalidade. Na primeira edição, Cho se foca na personagem Grace nos tempos atuais, em meio a uma busca acelerada pela mitológica espada Excalibur, descrita nas lendas do Ciclo Britânico Arturiano.

skybourne-1

O roteiro de Cho na edição de estreia, como pode-se esperar, tem o mínimo de explicações textuais para o entendimento da trama central. A história, completamente voltada para a ação de alta octanagem, é uma sucessão de adoráveis clichês de contos de espionagem moderna, incluindo a cena inicial com um contrabandista genérico e descartável em um país exótico; confrontos entre um só personagem desarmado contra um exército de capangas; e uma perseguição em alta velocidade. O texto do autor é bastante objetivo e direcionado somente para os diálogos curtos e funcionais, sem caixas em primeira ou terceira pessoa com divagações de seus personagens.

Em termos de caracterização de elenco, Skybourne é bastante pobre. Temos a primeira edição focada quase que 90% do tempo em uma única personagem, Grace, mas o que podemos inferir sobre a mulher é somente o estereótipo da agente de campo casca-grossa que não leva desaforo para casa, dispara as típicas frases de efeito intimidadoras e resolve tudo de forma extremamente violenta usando seus poderes e habilidades de combate. Violência que, aliás, é um dos pontos marcantes nas cenas de ação do roteirista, permeando praticamente a revista inteira até seu gancho final em forma de agressão.

skybourne-2

Visualmente, Skybourne é um quadrinho muito bem resolvido e, em sua proposta de roteiro ultradireta, tem uma das apresentações mais funcionais da carreira de Frank Cho. A ação é de fato explosiva e a violência gráfica proposta pelo roteiro é nítida em toda a sua glória. Para quem é fã de arte sequencial com um grau acentuado de polimento, Cho faz um trabalho impecável nesta apresentação. Ao contrário do que se possa imaginar em um trabalho deste desenhista em uma edição de estreia protagonizada por uma mulher, aqui não temos uma única cena com vestimentas condenáveis ou poses ginecológicas que possam ser vítimas de críticas mais agudas. A revista funciona como um grande e belíssimo storyboard de filmes de ação, devido às cenas silenciosas com fotografia cinematográfica e cortes precisos, que tornam o fluxo de leitura aceleradíssimo. A colorização de Márcio Menyz complementa perfeitamente a arte de Cho, conferindo uma nitidez extrema aos quadros e enriquecendo as cenas de ação com uma paleta clara e vívida.

skybourne-3

Skybourne estreia como um material propositalmente raso em termos de premissa, conteúdo e caracterização. O foco de Frank Cho nesta primeira edição é apresentar uma introdução cinética, agressiva e direta sem rodeio algum. A falta de substância narrativa, portanto, penaliza a protagonista mostrada, que acaba ganhando estigma de heroína beligerante genérica. Por outro lado o foco quase que total na ação torna este material um desbunde visual dentro do estilo cristalino de apresentação do ilustrador. Com uma enxurrada de cenas de ação violentas e um ritmo frenético, Skybourne é ideal para ler sem compromisso e apreciar as belas e violentas páginas deste material autoral.

 

  • Belo review,Igor.

    Cho entregou exatamente um gibi que eu queria.

    Boa premissa,ação no talo e desenhos fodas.

    Acredito que ele trará enredo nas próximas edições…e explicará melhor como funcionam as coisas.

    Nota máxima pra arte…e o Frank aprendeu bem a Escola Millar de fazer storyb…opa… gibi. :)